JPES Trio: “Brightbird” (Arjuna Music)

Rui Eduardo Paes

Regra geral, as actuais práticas da improvisação regem-se pelos princípios da engenharia de fluidos. Ou procuram ter o fulgor e a ondulação do fogo (e daí a pertinência da designação “fire music” para um certo jazz que tem o free como matriz) ou mimetizam o curso das águas num rio (evoluindo sem evoluir, tudo mudando em cada instante sem aparentemente haver transformação, dada a presença – como no caso da música improvisada mais experimental – de elementos fixos que funcionam como se fossem as margens e o fundo do caudal). A música proposta pelo trio de João Paulo Esteves da Silva, Mário Franco e Samuel Rohrer não age dessas formas – e se não surpreende que o pianista e o contrabaixista portugueses não o façam relativamente ao fogo porque nunca tiveram uma relação estética com o free jazz, já tal é intrigante no caso de Rohrer, dada a actividade paralela do baterista suíço como músico electrónico, sabendo-se do especial gosto das tendências electroacústicas pelo “drone” e pelo estaticismo rítmico. Ao contrário do que o título parece anunciar, o que ouvimos em “Brightbird” não sobe no ar nem flui, estabelecendo direcções horizontais. Flutua. É não o fogo, mas o fumo que se espirala sobre as labaredas. É não a água, mas a folha de árvore que voga sobre ela, hesitando, esboçando pequenos movimentos para diante e para trás. Ou a música se verticaliza para rodar sobre si mesma ou estende-se desafiando a imobilidade que esse posicionamento implica.

O JPES Trio escolheu uma terceira via para a sua improvisação (uma improvisação que encontramos mais assumida aqui do que nos concertos dados pelo grupo em anos recentes, pois as peças deste álbum são totalmente improvisadas, sem que em determinada altura surjam fragmentos interpretativos de uma partitura) e esta vem no seguimento do tipo de abordagem que João Paulo Esteves da Silva tem ao piano desde que o conhecemos. Influenciado por Keith Jarrett, que contrapôs à ideia de “improvisação livre” a de “improvisação integral”, metendo-se dentro dos temas a fim de os estilhaçar em vez de partir da sua inexistência para os ir construindo, o músico de Lisboa vai buscar estratégias da improvisação livre (que, recorde-se, não recorre a esqueletos prévios nem a refrões melódicos estabelecidos) para com elas aprofundar e abrir o próprio alcance da improvisação integral. Continuam a surgir motivos e figuras a desmontar e, quiçá, remontar, mas estes são sempre espontâneos. É o saber e a experiência acumulados do também poeta, e dos músicos que o acompanham, que fazem com que o improvisado soe, frequentemente, a composto. Disto resulta uma riqueza harmónica que nos remete, precisamente, para a poesia. É poesia sonora em estado puro, tão bela que também nós nos deixamos flutuar.