Bulliphant: “Hightailing” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

Ainda que alguns improvisadores neguem que um dos principais parâmetros com que lidam nos seus projectos seja o idioma, tal acaba quase sempre (eu diria até que sempre) por acontecer. O interesse da música que resulta depende do que fazem a esse nível, e as matizes processuais e estéticas que os conduzem a esse fim não são contáveis pelos dedos das duas mãos. Podem ir dos cruzamentos explícitos de linguagens e respectivos léxicos como aqueles que identificam a Coax Orchestra a algo como o que ouvimos neste “Hightailing”, de uma banda sediada na Holanda, dirigida pelo saxofonista Ruben Verbruggen e contando com as participações do belga Bart Maris no trompete (sim, o mesmo dos X-Legged Sally, da Flat Earth Society e dos Deus) e do português Gonçalo Almeida (e sim, o dos Lama e dos Albatre) no contrabaixo. Se no caso do ensemble francês juntar bossa nova e noise passa por uma espécie de perversão, ou de subversão, do formalismo, já no dos Bulliphant trata-se de uma perspectiva historicista que nos vem comunicar que o património do jazz existe para ser (re)mexido, em contextos que, à partida, parecem nada ter que ver com ele, designadamente os introduzidos pela electrónica experimental de Thijs Trech.

Das geralmente lentas (enfim, nem sempre: há ocasiões em que o guisado ferve) ebulições do quinteto (cujo se completa com a bateria e a percussão de Friso van Wijck) emergem, como pedaços de carne vindos do fundo da panela, o bebop, o hard bop, o cool, o free jazz, o jazz-rock, e com uma indiferenciação tal que parecem surgir ao acaso. Só que, como há composições a circunscrever o que ao longo dos temas se improvisa, o acaso começou logo na escrita. Simplesmente, esses elementos idiomáticos estão à disposição, sendo apenas necessário tirá-los do saco. Ou seja, a relação da Coax Orchestra com o jazz, música moderna por condição, é pós-moderna, pois joga com a ironia, enquanto a dos Bulliphant é meta-moderna, tendo como estratégia o cinismo. Face a isto, a fusão dos Seventies e a colagem dos Nineties, mais aquilo que os acima referidos franceses mostraram no recente Jazz em Agosto com referência nesses dois modelos, mas já querendo ultrapassá-los, eram ainda abordagens infantis – a adulta está aqui. A maturidade ensina-nos que criar é trabalhar com a memória, mas duvidando desta, colocando-a em causa e dessacralizando-a.