Vijay Iyer Sextet: “Far From Over” (ECM)

Rui Eduardo Paes

Há uns anos (2011, tanto quanto podemos precisar) que Vijay Iyer vinha apresentando ao vivo uma extensão em sexteto dos seus conceitos para o trio com que tem gravado para a ECM, designadamente os álbuns “Historicity”, “Accelerando” e “Break Stuff”. Eis que, finalmente, o grupo com três sopros adicionados – os de Graham Haynes, Steve Lehman e Mark Shim – ganha o tão esperado disco. Com uma particularidade que não é de menosprezar: se Stephan Crump se mantém ao contrabaixo, o baterista é agora não Marcus Gilmore, mas Tyshawn Sorey. A fórmula sustentada no “groove” do pianista e compositor necessitava de alguém com a flexibilidade, a capacidade de colar todas as partes de um grupo mais numeroso (a escrita para a corneta e o fliscórnio de Haynes e para os saxofones alto e tenor de Lehman e Shim, respectivamente, é bastante específica, com complicados enovelamentos harmónicos e melódicos das três vozes) e a imprevisibilidade que Sorey garantia à partida.

O que resulta tem algumas sólidas referências, ainda que – como é habitual no músico – levando mais além as suas implicações: ouvimos ecos do Miles Davis da década de 1960 e do hard bop sofisticado da Blue Note, aquele na linha de um Andrew Hill, bem como alguma coisa da estética M-Base (de que o próprio Iyer e Lehman são descendentes directos). E como não podia deixar de ser, há muito funk por aqui (em bruto ou passado pelo filtro do hip-hop), mais explícito quando se ouve o Fender Rhodes e a corneta processada de Haynes, sendo detectáveis igualmente elementos que vêm da origem indiana do líder. O “som” do sexteto parece nada trazer de novo se dele fizermos uma abordagem superficial, precisamente devido ao facto de reproduzir modelos do passado, mas uma escuta atenta dos 10 temas desvela a inventividade que percorre esta música. Não sendo, de todo, um projecto de vanguarda, o que aqui vem não deixa pedra sobre pedra, mostrando-nos que, de facto, a saga de Vijay Iyer pelas formas e pela linguagem do jazz está longe de estar completa. Depois de mais esta edição, é uma deliciosa incógnita o que poderá surgir deste espírito investigativo das possibilidades existentes no género musical, e até das que julgamos não existirem.