Amok Amor: “We Know Not What We Do” (Intakt)

Rui Eduardo Paes

Eles dizem no título que não sabem o que fazem. No texto de apresentação do grupo (que se chamava Starlight quando era um trio, apenas com os alemães Christian Lillinger, Petter Eldh e Wanja Slavin, mudando para Amok Amor quando a eles se juntou o norte-americano Peter Evans), entre frases que esclarecem pouco quanto ao que tocam, vem uma que reza assim: «Bla bla bla bla bla bla.» Tentemos nós de outra maneira: se não houvesse rock não haveria Amok Amor, mas não é de rock (apesar dos “riffs” em desfilada) que se trata – o jazz é bem explícito. E se não tivesse havido uma tendência do jazz a que chamaram free, também nada disto teria acontecido. Ainda assim (um dos temas incluídos intitula-se “Alan Shorter”, em homenagem ao trompetista de free jazz, mas trata-se de uma balada e nela a composição determina o que se improvisa, algo de bem diferente daquilo a que a corrente se propôs, o que é, aliás, uma constante em todo o resto do álbum) o que o sax de Slavin e o trompete de Evans nos atiram à cara é hard bop. Do genuíno, ainda que em segundas (ou terceiras, ou quartas) núpcias.

Há outra possibilidade para descrever o que se passa nesta edição, se bem que seja menos musicológica (fazendo-me lembrar o estudante de mestrado que, num debate, defendia que a crítica devia ser «científica»): o que ouvimos resulta da maluqueira do baterista, Lillinger, que gosta de construir “beats” mas estes surgem sempre distorcidos, corrompidos ou virados do avesso. E resulta ainda da extravagância de Peter Evans, um virtuoso perverso que é capaz de fazer coisas impossíveis – ninguém melhor do que ele para tocar rápido, muito rápido, e para mudar de rumo a despropósito, voltando atrás como se nada entretanto tivesse ocorrido. Seja seguindo a partitura (tem três dele na selecção, o mesmo número das de Christian Lillinger e Peter Eldh, para uma só de Wanja Slavin) ou a tocar no momento. A propósito de partituras, diga-se que a composição com os Amok Amor não é ornamental, ao contrário do que vulgarmente se passa no jazz de hoje: está na essência do projecto. É tão relevante que improvisar, neste contexto, é como se os quatro músicos estivessem a travar um combate contra a escrita. Torna-se difícil saber se ganham ou perdem, porque o improviso chega a ser tão tortuoso quanto a escrita e confunde-se com esta. Tortuoso, aqui, não quer dizer necessariamente brutal: a maior parte das peças são tão intensas que ficamos com vertigens, mas há momentos de uma gentileza (a parte do Amor, entre golfadas de Amok) que chega a ser comovente. E se com estas palavras continuarem sem perceber o que aqui vem, fica o nome da última faixa para uma explicação extra: “A Run Through the Neoliberalism”. É tipo isso, ok?