Barry Guy / Maya Homburger / Zlatko Kaucic: “Without Borders” (Sluchaj)

Rui Eduardo Paes

O baterista esloveno Zlatko Kaucic faz parte da história do jazz português. Nos anos em que viveu em Barcelona, entre finais da década de 1970 e inícios da de 80 (o que aconteceu depois de ter vivido em Itália e antes de rumar para a Holanda, até finalmente regressar a terras da antiga Jugoslávia), era habitual encontrá-lo por cá, na companhia de músicos como Zé Eduardo, António Pinho Vargas e Rão Kyao, pelo que se pode dizer que deixou a sua marca na nossa música. Nómada por natureza e convicção, e tanto pela sua vida de viajante como pelo facto de nunca se ter fixado numa única tendência do jazz (colaborou com figuras tão diferentes quanto Steve Lacy, Paul Bley, Kenny Wheeler, Burton Greene, Tete Montoliu, Enrico Rava, Peter Brotzmann, Misha Mengelberg, Albert Mangelsdorff, Irene Schweizer, Louis Sclavis, Marc Ribot e Joelle Léandre, entre tantos outros), seria de esperar que um “statement” seu fosse provocado pela tragédia dos refugiados do Médio Oriente. Pois aqui está ele, na companhia do britânico Barry Guy e da suíça Maya Homburger, respectivamente em contrabaixo e violino barroco.

Arriscado era gravar “Without Borders” com um duo já estabelecido, e para mais tendo como ponto de partida peças que Guy e Homburger tinham escrito para o seu projecto conjunto, com outras tantas para utilizações solísticas, editadas já em vários discos. Zlatko Kaucic sai-se, no entanto, admiravelmente bem da empreitada e dá uma nova dimensão à música dos seus parceiros, sendo o único da formação que surge em todos os temas – toca em duo ora com o contrabaixista (as quatro partes de “Footfalls” e ainda “Peace Piece”), ora com a violinista (“Celebration”), e em trio em “Shadow Fragment”, “The Seeker and the Search” e “Art”, uma composição de Lacy. Se mais uma vez encontramos aqui o tipo de lirismo muito dramático e intenso, pleno de alusões à música erudita e muito concretamente à antiga (via Homburger, uma intérprete de Telemann e Bach), que caracteriza a dupla a que agora Kaucic se reuniu, este vem acrescentar-lhe um factor bem menos “clássico” e até subtilmente (ou nem tanto assim) disruptivo, interferindo com o modelo de beleza instituído pela música de câmara. Ouvi-lo a desfazer os contornos do território que se vai musicalmente formando, desse modo abrindo vias de entrada e saída, é uma das grandes valias deste disco.