Dave Liebman / Joe Lovano: “Compassion” (Resonance)

Rui Eduardo Paes

É raro o saxofonista tenor (ou soprano) que nos nossos dias não evidencie de alguma maneira a influência de John Coltrane, mas há dois em particular que souberam interiorizar o legado deste nas suas distintivas e muito próprias personalidades musicais: Dave Liebman e Joe Lovano. Pois foram eles que a BBC Radio convidou, em 2007, para darem corpo a um tributo ao músico que assinalasse o 40º aniversário da sua morte. Ou melhor: convidou o Saxophone Summit, grupo que os integra, e a Ravi Coltrane, filho de John, como terceiro sax, mais Phil Markowitz, Cecil McBee e Billy Hart. Ravi e Cecil não estavam na altura disponíveis, pelo que a iniciativa foi realizada radiofonicamente sem utilizar o nome do grupo, para além de que o contrabaixista deste deu lugar a outra luminária do jazz, Ron McClure. É essa gravação que agora sai editada pela Resonance, para comemorar 50 anos sem John Coltrane, ou melhor, 50 anos de transmissões do seu legado.

Os temas escolhidos, todos de John Coltrane, vão de 1958 a 1966, representando várias fases do seu percurso, e surgem no CD cronologicamente – ou quase, pois em determinada altura (entre as faixas 4 e 5) são dados uns passos atrás. “Locomotion” abre a audição, retirado a “Blue Train”, e depois vem um “meddley”, com Lovano a deter-se em “Central Park West” (de “Coltrane’s Sound”) e Liebman em “Dear Lord” (de “Transition”). Em “Olé” (“Olé Coltrane”) e “Reverend King” (“Cosmic Music”) ouvimos outros instrumentos de sopro que não os saxofones, designadamente as flautas barroca e em dó de Liebman e a flauta escocesa e o clarinete alto de Lovano, em directas ou indirectas alusões ao gosto do homenageado pelas músicas do mundo. Segue-se “Equinox” (também de “Coltrane’s Sound”), deixando para “Compassion” (“Meditations”) o fecho da selecção, com improvisações livres tão naturalmente desenvolvidas quanto tudo o mais que as antecede. Longe de ser um disco comemorativo entre os muitos tão em voga, o presente em muito contribui para que compreendamos melhor o quanto há de Coltrane em Liebman e Lovano e, por arrasto, o quanto a abordagem coltraneana é actual.