Steve Lacy: “Free for a Minute” (Emanem)

Rui Eduardo Paes

O responsável da editora Emanem, Martin Davidson, é conhecido pelas gravações de concerto (e não só) que foi realizando ao longo de décadas, assim documentando o que, nas áreas do jazz e da música livremente improvisada, se arriscava à absoluta efemeridade. E é também respeitado pelo trabalho de recuperação de registos que se encontravam danificados ou não tinham sido feitos nas melhores condições, permitindo que alguns (muitos) episódios de importância histórica estejam agora ao alcance de todos. O duplo álbum “Free for a Minute” é mais um item desse “work-in-progress” e detém-se, desta vez, no Steve Lacy da década de 1960, aquela em que o saxofonista soprano esteve mais envolvido com a estética do free jazz, o que para ele significava compor em tempo real. Um minuto apenas, para utilizar uma expressão do próprio, mas que teve antecedentes ainda nos anos 50, quando Lacy colaborou com Cecil Taylor, e que continuou depois, designadamente nas alturas em que decidia libertar a improvisação das suas próprias composições. O interesse desta compilação está no facto de Davidson sublinhar nas suas escolhas que o Steve Lacy do free procurava manter um vínculo com as convenções patrimoniais do jazz – o que não surpreende, até pela sua devoção por Thelonious Monk (de quem ouvimos, aliás, três peças nesta recolha) e por Sidney Bechet.

Neste quadro, “Disposibility” (CD1) é a reedição do LP de 1965 com o mesmo título pelo trio de Lacy com Kent Carter e Aldo Romano em contrabaixo e bateria respectivamente, mas com as distorções dos pratos eliminadas. Lançado originalmente no ano seguinte, “Sortie” (CD2) amplia esse grupo para quarteto, com a adição do trompetista Enrico Rava, sendo a primeira vez que se reedita na íntegra e com os nomes correctos dos temas. O resto do que encontramos é totalmente inédito, caso das “cues” que Lacy, Rava e Carter gravaram com Karl Berger (vibrafone) e Paul Motian (bateria) para o filme “Free Fall” (de 1967; ouvimo-las no CD1), que nunca chegou a ser estreado – e, segundo Steve Lacy, ainda bem, porque era de qualidade bastante sofrível. A inclusão das ditas é justificada por Davidson neste contexto pelo facto de as improvisações terem sido previamente estruturadas em termos de duração, métrica e timbre, de modo a coincidirem com as cenas – o que anunciava já o período menos free, porque mais determinado pela escrita, do músico. É o caso, ainda, de “The Rush & The Thing” (CD2), igualmente de 1967, anterior portanto às abordagens que seriam colocadas em disco uns anos mais tarde com os nomes “The Rush” e “The Gap”, fazendo-se acompanhar novamente por Kent Carter e, em início de reiteradas parcerias, por Steve Potts (saxofones alto e soprano), Irene Aebi (voz, violoncelo) e Noel McGhie (bateria). Para os mais completistas dos fãs de Lacy, o que aqui vem é ouro.