Ernesto Rodrigues em versão big

Ensembles

Ernesto Rodrigues em versão big

Creative Sources

texto Rui Eduardo Paes

Improvisar sem partituras com uma orquestra ou um grupo com grande número de elementos é particularmente difícil, havendo mesmo quem jure ser impossível. O violetista de Lisboa encontrou nisso um desafio e com projectos como Variable Geometry Orchestra, IKB, Suspensão e Diceros vem ultrapassando problemas e propondo maravilhas. A jazz.pt ouviu os discos…

Há três figuras que ganharam o estatuto de pivôs da cena da improvisação em Portugal. Um devido ao seu pioneirismo, dando origem a uma movimentação que tem crescido exponencialmente, outro porque criou um sistema muito específico que se tornou num modelo referencial e um terceiro que vem mobilizando um grande número de músicos das mais variadas áreas em torno dos seus projectos. No primeiro caso está Carlos “Zíngaro”, com a mais-valia de se ter mantido na linha da frente de uma música continuamente em renovação. No segundo, evidencia-se Sei Miguel, com metodologias que influenciaram decisivamente as práticas de algumas importantes figuras hoje em actividade, começando por Rafael Toral, Manuel Mota e Pedro Gomes. Finalmente, no terceiro caso encontramos Ernesto Rodrigues, cujos “ensembles” alargados envolvem uma boa parte dos agentes da cena lisboeta da música improvisada, independentemente das suas orientações estéticas.

Mas não é só: as mais recentes edições das “big bands” de Rodrigues, designadamente Variable Geometry Orchestra (mais conhecida como VGO), IKB, Suspensão e a recém-estreada Diceros, têm dado novos e muito positivos contributos para esse difícil empreendimento que é improvisar – sem partituras nem motivos previamente estabelecidos – em formato orquestral. Nesse aspecto, também ele tem uma fórmula pessoal para enfrentar os problemas organizacionais levantados pelo contexto. Uma perspectiva muito sua, e transferida dos pequenos grupos de que partiram para outros que vão dos oito elementos a quase 50, dos conceitos propostos pelo Spontaneous Music Ensemble de John Stevens e pelos AMM de Cornelius Cardew, tendo como exemplos pelo meio o que fez a Globe Unity Orchestra e mais recentemente a London Improvisers Orchestra. Outras referências parecem ser John Cage (uso do silêncio), Morton Feldman (não-linearismo) e Emmanuel Nunes (os, no compositor, característicos “alongamento” e “dobragem” das estruturas musicais).

Com uma VGO de 21 elementos, “Maat Mons” mostra-nos como o formato orquestral oferece, a uma abordagem regida pela liberdade e pela espontaneidade, múltiplas possibilidades ao nível das dinâmicas e do timbre. O registo é abstracto e textural, como em anteriores discos da formação, mas a emergência de figuras rítmicas e melódicas, ainda que breves ou transfiguradas, introduz nas tramas uma influência do free jazz que se tem tornado cada vez mais evidente na música recente de Rodrigues. Um ou vários instrumentos vão ganhando relevância no caudal sonoro, para logo mergulharem no todo e darem lugar a outros, dando-nos a impressão de que o que está atrás toma a dianteira ou o que acontecia à boca de cena se retira para o fundo, num vai e vem que não só anula a ideia de solo e acompanhamento como interfere com a geral movimentação em fluxo. Dois membros do ensemble prendem-nos, no entanto, a atenção, pois o que fazem vai definindo os contornos das formas em metamorfose: o pianista Manuel Guimarães e a vocalista Maria Radich.

As estratégias seguidas por “Quasar”, também da VGO, são muito semelhantes, mas com uma muito maior densidade (e incluindo o órgão da St. George’s Church, onde o CD foi gravado), pois são 46 os músicos envolvidos, alguns deles com actividade nas áreas do jazz criativo (Albert Cirera, Sei Miguel, Paulo Curado, Miguel Mira, Hernâni Faustino, Luís Vicente), da música erudita (Miguel Ivo Cruz com a sua viola da gamba), da electrónica experimental (Nuno Moita em gira-discos) e do rock (Flak, dos extintos Rádio Macau, numa das guitarras de caixa). Densidade, aqui, significa coesão, quando tudo à partida (a inexistência de pautas) prometia o contrário, tendo em conta, inclusive, que a condução de Ernesto Rodrigues nunca é determinística. As nebulosas de som que vão ocorrendo relacionam-se umas com as outras sem se obliterarem, criando contrastes e complementos que depressa ganham um sentido global. Nada nos remete para o contraponto de Bach, mas é o princípio organizacional dessa técnica, em estado magmático, bruto, que está em causa. Cada voz e cada naipe encontram um lugar no todo – podemos não conseguir discernir quem faz o quê (não são os indivíduos que aqui importam, mas o colectivo), mas se lá não estivesse os resultados seriam outros.

São também dois os álbuns saídos recentemente do projecto IKB (iniciais de Ives Klein Blue), “Ornithorhynchus Anatinus” e “Chelonoidis Nigra”. A primeira diferença relativamente à VGO está no menor número de participantes, 16 em ambos, se bem que com algumas alterações de nomes e de instrumentação. Há outras, destacando-se o propósito de que os instrumentos acústicos sejam tocados como se fossem electrónicos, por meio de uma sistemática utilização de técnicas extensivas e até de recursos próprios da electroacústica, como a manutenção de “drones”. Há um ainda maior minimalismo na geração de materiais, conduzindo à articulação de transparências, com o silêncio a ganhar propriedades musicais. Ouvimos os sons nascerem, viverem e morrerem com um pormenor assombroso, mesmo que, de novo, seja difícil discernir a sua origem. Dos dois títulos, “Ornithorhynchus Anatines” será, talvez, o mais camerístico, muito devido à associação de um oboé (Paulo Chagas) à flauta de Paulo Curado e aos clarinetes de José Bruno Parrinha, bem como às presenças de uma guitarra clássica (Miguel Almeida), de um saltério (André Hencleeday) e de um percussionista extra (Nuno Morão).

“Théatron” e “Porto Covo” adaptam a fórmula para os elencos de 11 e oito elementos, respectivamente, que se apresentam como Suspensão. O mote está no nome, pois o foco vai para os tratamentos sustenidos ou suspensivos das notas. Ou melhor, para a produção de bordões (“drones”), ainda que sempre contrariados pela introdução no decorrer dos mesmos, regra geral de modo discreto, de pontilhismos – implicando que o grupo se constitua como a soma de dois. Um tem como função transportar-nos quase inconscientemente numa viagem, criando uma horizontalidade dirigida ao infinito, enquanto o outro nos desvia a audição activa para os detalhes, embora nunca determinando posições fixas para os músicos. Assim como a música muda sem que, à superfície, nada pareça acontecer, mudam também os papéis de quem a executa. Tensão e quietude conjugam-se de formas inusitadas, uma minando a outra. Deixamo-nos ir, mas nunca com uma sensação de conforto.

Diceros, a mais recente formação de Ernesto Rodrigues, surge igualmente com o formato de octeto decidida para “Porto Covo”, mas com objectivos menos programáticos e com colaboradores da VGO e do IKB que habitualmente não encontramos no Suspensão. Em “Urze”, o violetista surge, inclusive, com outras ferramentas, designadamente harpa (repetindo a escolha de “Quasar”), cítara, dulcimer e rabeca. Há, de qualquer modo, algo que se transfere do Suspensão (os “drones”) e deparamo-nos com versões de algumas particularidades das bandas mais largas (as oposições, por exemplo), como se esta fosse um “redux” daquelas. Aliás, o substantivo Diceros e a imagem do rinoceronte na capa remetem-nos para a “cover art” do IKB, criada, à semelhança da generalidade das edições da Creative Sources, por um dos mais fiéis parceiros de Rodrigues, Carlos Santos – que desta feita não toca.

A importância de Ernesto Rodrigues na música criativa portuguesa está ainda à espera, por cá, do reconhecimento que lhe é devido, e isto não obstante ser o improvisador nacional com mais discos lançados. Estes que nesta página vos apresentamos projectaram-no no mundo, com a imprensa especializada a elogiá-lo entusiasticamente.

  • Maat Mons

    Maat Mons (Creative Sources)

    Variable Geometry Orchestra

    Ernesto Rodrigues (violino stroh, condução); José Lencastre, Nuno Torres (saxofone alto); Paulo Galão (clarinete baixo); José Bruno Parrinha (clarinetes soprano e alto); Paulo Curado (flauta); Guillermo Torres (trompete de bolso); Eduardo Chagas (trombone); Maria Radich (voz); Maria do Mar (violino); Miguel Mira (violoncelo); Abdul Moimême (guitarra clássica, clarinete soprano); Vítor Rua (guitarra eléctrica); Carlos Santos (sintetizador); Nuno Moita (gira-discos); Manuel Guimarães (piano); Tiago Varela (órgão de ventoinha); André Hencleeday (saltério, rádio); João Madeira (contrabaixo); Pedro Santo, Monsieur Trinité (percussão)

  • Quasar

    Quasar (Creative Sources)

    Variable Geometry Orchestra

    Ernesto Rodrigues (harpa, condução); Nuno Torres (saxofone alto); Albert Cirera (saxofones soprano e tenor); Luiz Rocha, Paulo Galão, Ricardo Ribeiro (clarinete baixo); José Bruno Parrinha (clarinetes soprano e alto); Paulo Chagas (oboé); Paulo Curado (flauta); Silvia Corda (melódica); Sei Miguel (trompete de bolso); Luís Vicente, Yaw Tembe (trompete); Fala Mariam (trombone alto); Eduardo Chagas, Fernando Simões (trombone tenor); Maria Radich (voz); Emanuela Lioy, Maria da Rocha (violino); Maria do Mar (viola); Miguel Ivo Cruz (viola da gamba); Guilherme Rodrigues, Miguel Mira (violoncelo); Manuel Guimarães (órgão de igreja); Armando Pereira (piano de brinquedo); Carlos Santos, João Silva (sintetizador); Nuno Moita (gira-discos); António Chaparreiro, Paulo Duarte, Stephan Sieben (guitarra eléctrica); Guilherme Carmelo (guitarra eléctrica barítono); Abdul Moimême (guitarra eléctrica preparada); Emídio Buchinho, Flak (guitarra clássica); Adam Pultz Melbye, Adriano Orrú, Alvaro Rosso, Hernâni Faustino, João Madeira (contrabaixo); Nuno Morão (bateria); André Hencleeday, Carlos Godinho, Hakon Berre, Monsieur Trinité, Pedro Castello Lopes (percussão)

  • Ornithorhynchus Anatinus

    Ornithorhynchus Anatinus (Creative Sources)

    IKB

    Ernesto Rodrigues (viola); Nuno Torres (saxofone alto); José Bruno Parrinha (clarinetes soprano e baixo); Paulo Chagas (oboé); Paulo Curado (flauta); Fernando Simões (trompete); Eduardo Chagas (trombone); Maria Radich (voz); Maria do Mar (violino); Guilherme Rodrigues (violoncelo); Carlos Santos (computador, sintetizador); André Hencleeday (saltério, oscilador, voz com megafone); Miguel Almeida (guitarra clássica); Abdul Moimême (guitarra eléctrica); Miguel Mira (contrabaixo); Monsieur Trinité (percussão)

  • Chelonoidis Nigra

    Chelonoidis Nigra (Creative Sources)

    IKB

    Ernesto Rodrigues (viola); Nuno Torres (saxofone alto); José Bruno Parrinha (clarinetes soprano e alto); Paulo Curado (flauta); Yaw Tembe (trompete); Eduardo Chagas (trombone); Maria Radich (voz); Maria da Rocha (violino); Guilherme Rodrigues (violoncelo); Armando Pereira (acordeão); Carlos Santos (computador); António Chaparreiro (guitarra eléctrica); Abdul Moimême (guitarra eléctrica preparada); Miguel Mira (contrabaixo); Nuno Morão, Monsieur Trinité (percussão)

  • Théatron

    Théatron (Creative Sources)

    Suspensão

    Ernesto Rodrigues (viola); Nuno Torres (saxofone alto); Eduardo Chagas (trombone); Yu Lin Hum (violoncelo); Rodrigo Pinheiro (piano); Carlos Santos (computador); Flak (guitarra clássica); Emídio Buchinho (guitarra eléctrica); André Hencleeday (saltério); Hernâni Faustino (contrabaixo); Nuno Morão (percussão)

  • Porto Covo

    Porto Covo (Creative Sources)

    Suspensão

    Ernesto Rodrigues (viola); Nuno Torres (saxofone alto); Eduardo Chagas (trombone); Guilherme Rodrigues (violoncelo); Carlos Santos (computador); António Chaparreiro (guitarra eléctrica); Miguel Mira (contrabaixo); Nuno Morão (percussão)

  • Urze

    Urze (Creative Sources)

    Diceros

    Ernesto Rodrigues (harpa, cítara, dulcimer, rabeca); José Bruno Parrinha (clarinetes soprano, alto e baixo); Paulo Curado (flauta); Guilherme Rodrigues (violoncelo, trompete de bolso); Ricardo Guerreiro (computador); André Hencleeday (piano, saltério); Flak (guitarra clássica); Carlos Godinho (percussão)