Chefa Alonso / Nani García: “Coruña Rendez-Vous” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Num tempo em que cada vez são mais numerosas as etiquetas discográficas que exigem aos artistas o pagamento das suas edições, em vez de os mesmos serem remunerados para esse efeito, e num tempo também em que as discografias deixaram de ser uma fonte de rendimento, natural será que alguma da música que se disponibiliza ao público surja nas plataformas digitais. É o caso deste “Coruña Rendez-Vous”, a que se pode aceder na Internet via iTunes, Spotify, Sony, Deezer e outras. A qualidade da audição neste âmbito melhorou bastante com as recentes evoluções da tecnologia, mas tudo depende de, em casa, se terem boas colunas ligadas ao computador. Regra geral, o antiquado ouvidor que em baixo se assina prefere o formato físico em CD ou vinil, mas há edições no espaço virtual que merecem toda a atenção, mesmo que as condições da sua escuta não sejam as mais favoráveis.

Tal é o caso do inesperado encontro que Chefa Alonso e Nani García tiveram a 20 de Abril de 2017 no estúdio do segundo em A Coruña, cidade galega de onde ambos são naturais, e inesperado porque os seus respectivos percursos têm sido feitos em circuitos diferentes, a saxofonista soprano e percussionista (aqui também tocando kechapi, um cordofone tradicional de Java, na Indonésia) no da improvisação livre e experimental, e o pianista no jazz e na composição para cinema e TV. Ou não será tão improvável assim, dado o esvaziamento das noções de vanguarda e “mainstream” e as cada vez mais habituais parcerias entre músicos das duas áreas – se é que, à partida, Alonso e García tenham alguma vez cabido numa ou noutra dessas categorias. O certo é que esta colecção de improvisações reflecte bem a proporcionada amplitude de perspectivas da dupla. Encontramos um pouco de tudo nos temas, que não apenas aquilo que seria de esperar, designadamente as marcas daquilo a que se chama “música improvisada europeia” e “jazz”, como também situações de “bricolage” sonora (Alonso) e ambiências cinematográficas (García). Há algo ainda que nos remete para a música de câmara e, sobretudo, para uma multitude de referências populares, começando pelas da Galiza e viajando até ao Oriente, com títulos a condizer como “En el Puerto” ou “El Mercado”. É como se esta música contivesse em si o mundo inteiro, sem linhas de fronteira.