André Santos / Bruno Santos: “Mano a Mano Vol. 2” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

Num país bem servido de guitarristas de jazz, ganhar algum destaque não é coisa fácil, mas os irmãos André e Bruno Santos têm-no conseguido, e cada um à sua maneira – o primeiro ora recuperando aspectos da música popular da Madeira e utilizando os seus instrumentos de corda (ouvimo-lo recentemente a tocar uma viola de arame, e neste disco inclui um braguinha-machete), ora aplicando técnicas e linguagens “experimentais”; o segundo oferecendo-nos interpretações muito frescas e pessoais da tradição do jazz. Porque tocam ambos guitarra, e porque têm um percurso de cumplicidades não obstante tudo o que os diferencia, natural seria que unissem ideias e capacidades num duo.

Depois de um primeiro disco, eis o volume 2, com o estabelecimento de um formato de conversa e até, por vezes, de disputa. Se o padrão duelista que se impôs é o do encontro de John McLaughlin com Paco de Lucía, neste álbum os resultados são musicalmente mais interessantes: o virtuosismo é colocado inteiramente ao serviço da música, nada tendo de exibicionista. O repertório é feito de composições de ambos, conjuntas e em separado, e de versões de temas que vão de Tom Jobim a Thelonious Monk, passando por Jim Hall. Umas e outras com um recurso generoso a pedais de efeitos e processamentos, tendo a abordagem desenvolvida outra característica: é muito rítmica, para não dizer percussiva, pelo que este é um jazz que balança e que, não raro, aceita o rock (via blues) como estratégia. Quando assim não é, a música ganha uma elegância toda ela feita de pormenores delicados, num espectro de dinâmicas que nos prende a atenção em cada minuto.