Trio 3: “Visiting Texture” (Intakt)

Rui Eduardo Paes

No próximo mês de Novembro vamos ter em Portugal uma importante figura histórica do jazz, Andrew Cyrille. O baterista vem ao Guimarães Jazz com o seu mais recente projecto, o inesperado quarteto de “The Declaration of Musical Independence”, no mesmo ano em que soma quatro décadas a existência do grupo mais antigo em que participa, com o saxofonista alto Oliver Lake e o contrabaixista Reggie Workman: Trio 3. Pois eis que acaba de sair o 11º título da formação, o primeiro em 10 anos sem um pianista como convidado (foram “guests”, recorde-se, Geri Allen, Irene Schweizer, Jason Moran e Vijay Iyer). A ausência de um instrumento harmónico tão determinante ao nível do temperamento como o piano solta mais a música (torna-a mais ambígua, se quiserem), mas fica muito claro, até pela versão feita de um tema de Ornette Coleman (“A Girl Named Rainbow”), que o vanguardismo jazz desta cooperativa de veteranos não é propriamente a do free estrito. Poucas vezes foi no passado e neste disco ainda menos assim é.

Ou seja, se a música do Trio 3 está bem mais cartografada do que a da trupe que junta músicos tão diferentes quanto Bill Frisell (em Guimarães substituído por Ben Monder) e Richard Teitelbaum, tem ainda assim a propriedade de nos trocar algumas voltas. Lake sempre foi um músico melódico, mas “Visiting Texture” poderá vir a constar no topo de alguma lista que enumere as glórias do avant-melodismo jazzístico. O que é notável, tendo em conta que as peças tocadas são simples “sketches” estruturais, não propriamente composições, e que uma delas é mesmo uma improvisação integral. O facto de uma delas, “7 for Max”, ser uma dedicatória de Cyrille a Max Roach, o mais melódico dos percussionistas, indica quais eram as intenções destes três grandes ao adoptarem uma abordagem a fogo brando que é tão lírica e poética na expressão quão exploratória no tratamento dos materiais – o termo “exploratório”, aliás, representa com exactidão o que, muito particularmente, Workman e Cyrille fazem por detrás do sax, maravilhando-nos a par e passo. Pois, velhos são os trapos.