Gume: “Pedra Papel” (edição de autor)

Rui Eduardo Paes

A par de trabalhos desalinhados como os realizados pelos Zarabatana (que ainda recentemente lançou o excelente “O Terceiro Corno” pela Giant Fern, numa edição conjunta em cassete e na Internet) e pelos Sirius (de que muito se espera um álbum), o arranque do projecto Gume e a saída deste “Pedra Papel” significam como que um refundamento de perspectivas para Yaw Tembe, trompetista suazi (filho de mãe sul-africana e pai moçambicano) residente em Lisboa. Longe do esoterismo pan-africanista e proto-jazzístico do grupo com Bernardo Álvares e Carlos Godinho e da free improv psicadélica do duo com Monsieur Trinité, os Gume – Tembe com Tiago Fernandes (saxofone alto), André David (guitarra eléctrica), Pedro Monteiro (contrabaixo), Sebastião Bergmann (bateria) e David Menezes (congas, percussão), com um par de contribuições de Raquel Lima como segunda voz (sendo de Yaw Tembe a primeira) – regressam a parâmetros musicais estabelecidos, numa abordagem que só não é convencional porque explora factores de multiculturalidade.

Nos temas reunidos neste disco convivem e interpenetram-se o hard bop, muito presente na interacção dos dois sopros e tendo óbvias referências nos Jazz Messengers de Art Blakey (e sim, as influências de Lee Morgan e Freddie Hubbard são detectáveis em Tembe), o highlife (estilo originário do Gana que os Osibisa projectaram para o mundo), o hip-hop (as palavras são entregues à maneira do rap) e alguns aspectos do pós-rock (designadamente, certas ambiências e o uso de repetições). O todo ganha uma sonoridade retro e muito Sixties / Seventies, tão sistematizadamente que, quando elementos mais contemporâneos surgem, estes funcionam como os “atractores estranhos” da teoria do caos – ou seja, justificam o próprio corpo musical em que se inserem. É como se o hip-hop já estivesse contido no hard bop (tendência derivada do be bop com importações do rhythm and blues, da música latino-americana, da soul e do funk), completando as suas lógicas internas. Muito interessante, mas (ainda?) sem o rasgo performativo a que Zarabatana e Sirius nos habituaram…