Paulo Freire: “Pórva” (Vai Ouvindo)

Rui Eduardo Paes

Num país, o nosso, que tanto aprecia as realizações a solo, ou dentro de formações reduzidas (com privilégio do duo), por parte de guitarristas (Ricardo Rocha, Norberto Lobo, Tó Trips, José Peixoto, António Eustáquio, André e Bruno Santos, Afonso Pais, Peixe, Luís Lopes, Marcelo dos Reis, etc.), conhecer o trabalho do brasileiro Paulo Freire é um aliciante extra. O seu instrumento tem vários nomes – viola caipira, viola sertaneja, viola cabocla, viola nordestina, viola de folia, viola de repente, viola brasileira – mas uma só origem certificada, Portugal, tudo indicando a existência de um estreito parentesco com a madeirense viola de arame, dadas as suas 10 cordas, o tipo destas (arame, precisamente) e até o aspecto físico do instrumento. A afinação que dela o músico faz é em sol maior, ou como lhe chama, «rio abaixo».

Paulo Freire começou por tocar bossa nova, em violão, e rock progressivo, em guitarra eléctrica, mas o seu interesse pela música do Nordeste, que estudou nos campos de arroz de Minas Gerais, mudou o curso da sua vida. Depois veio uma imersão na música clássica para guitarra e uma estadia nos Estados Unidos, onde se encantou com a música negra, dos blues eléctricos ao hip-hop (e daí a fórmula “rap de viola”, que inventou), passando necessariamente pelo jazz (o tema “All Blues”, de Miles Davis, é habitual nos alinhamentos dos seus concertos). Da mistura disto tudo nasceu “Pórva”, abreviação de “pólvora” pelo facto de Freire achar que esta música caipira hibridizada já não é contemplativa, como de regra, mas «violenta». Os puristas criticam-no, até pelo facto de ligar a viola a uma pedaleira de efeitos, que utiliza generosamente – aliás, à semelhança do guitarrista português de jazz que ocasionalmente toca a variante de arame, André Santos. Está aqui o 11º disco deste virtuoso que submete o domínio técnico à estética (atente-se no trabalho harmónico) e o seu primeiro a sós, um excelente exemplo de como a tradição também é campo para o experimento, ou vice-versa. Em todos os temas, com uma boa dose de improvisação.