Joelle Léandre / Phil Minton: “Léandre-Minton” (Fou Records)

Rui Eduardo Paes

A contrabaixista francesa Joelle Léandre esteve em Portugal este ano para quatro apresentações públicas, no Porto (a solo e com uma formação feminina de improvisadoras nacionais), na aldeia de Figueira (residência artística com concerto final) e em Lisboa (concerto do Sudo Quartet no Jazz em Agosto), culminando várias vindas ao nosso país. Também Phil Minton é uma figura conhecida dos nossos palcos, ainda que há uns anos não nos visite – tivemos o vocalista britânico por cá em várias ocasiões, designadamente no Porto, na Guarda e em Lisboa, tendo participado no festival da Gulbenkian, com o grupo 4 Walls, em 2003. A reunião de ambos neste álbum vem lembrar o quanto a livre-improvisação musical deve aos automatismos artísticos (no desenho, na pintura, na performance) e literários (na poesia e no teatro) da tendência Dada e do surrealismo, para tal utilizando como base o Canto VI de um poema do dadaísta Tristan Tzara, escrito no período em que este se associou (ainda que com uma relação algo conflituosa) ao surrealista André Breton, “L’homme approximatif”.

O disco ilustra ainda outras implícitas ligações da música improvisada: por um lado com o ocultismo (Fernando Pessoa referia-se ao automatismo da escrita como uma forma de possessão por uma entidade externa, um espírito) e, por outro, com a loucura enquanto princípio criativo, algo que vem motivando as artes desde as primeiras vanguardas do século XX, numa exploração de estados dissociativos e subconscientes, quando não inconscientes, que envolve um reacendimento das memórias mais escondidas da infância. É, aliás, a isso que se refere Tzara nesta passagem: «(…) perdido no interior de mim mesmo perdido lá onde ninguém se aventura (…) excepto o esquecimento.» De facto, o que se ouve nas três improvisações do CD parece-se muito com o que fazem duas crianças a brincarem com os sons, começando pelos que se podem produzir com a boca (Léandre também “canta”). Se tal capacidade é perdida quando nos tornamos adultos, estes dois gigantes da “improv” recuperam-na (assim como recuperam a espiritualidade perdida algures nos processos de funcionalização social / comercial da música), chegando a um tal grau de demência que muito poucos ou nenhuns imperativos de racionalidade subsistem nas tramas musicais. Resultado: “Léandre-Minton” é uma edição incontornável, de tão importante para compreendermos o acto de “improvisar”.