Elliott Sharp / Mary Halvorson / Marc Ribot: “Err Guitar” (Intakt)

Rui Eduardo Paes

Na prossecução do seu desejo de construir uma utopia da guitarra, ou seja, uma música guitarrística que tenha as suas lógicas nela própria e em mais nada, e que ao longo do tempo foi ganhando expressão em projectos a solo, à frente de vários grupos ou até encomendando peças a outros músicos para a criação de compilações (caso da série “I Never Meta Guitar” na Clean Feed), Elliott Sharp convidou outros dois guitarristas inventivos da actualidade, Mary Halvorson e Marc Ribot, para verificar o que acontecia – o resultado é este “Err Guitar”, com a fonia a sugerir a designação Air Guitar para as mimetizações gestuais com que se “toca” um instrumento que é apenas imaginário. O seu propósito era que «se desse um passo num futuro desconhecido, mas nascido do passado mais profundo», resolvendo todas as contradições inerentes por via da improvisação, esse «caminho sónico transcendente do agora». O que não quer dizer que os solos, duos e trios constantes neste disco tenham sido integralmente improvisados no seu estúdio de Nova Iorque: Sharp transmitiu as premissas do projecto aos seus parceiros de ocasião e cada peça deriva de um conceito, uma estrutura ou uma composição (a uma, duas ou três mãos). O homem que já interpretou / transfigurou a escrita para piano de Thelonious Monk numa seis-cordas não acredita que possa existir uma improvisação totalmente livre e por isso não só não a pratica (salvo algumas excepções) como desconfia de quem o faz. O que aqui se ouve é improvisação emoldurada, na justa medida que permite a cada um dos intervenientes deixar a sua própria marca individual.

O passado é convocado pela adopção de técnicas que vêm dos confins históricos da folk, dos blues, do rock e do jazz, como por exemplo o “fingerpicking” e o uso de “bottlenecks”, e o futuro a que se pretende chegar surge nos processos inovadores, nos parâmetros estéticos (e daí que alguns críticos já tenham comentado que esta é uma música «de outro planeta») e nos usos deveras criativos dos pedais de efeitos, do “looping” e do “sampling”, regra geral parecendo que não são guitarras que estamos a ouvir. Mas se a guitarra que está para além da guitarra, a guitarra utópica, atravessa todos os 12 temas, em todos os momentos também é confrontada por elementos da guitarra tradicional, como se se tivesse ampliado a um nível macro os contrapontos desenvolvidos. Às tantas, deixamos de perceber onde termina um tipo de abordagem e começa o outro, tão simultaneamente presentes e tão em osmose ambos vão ocorrendo, o que passa, inclusive, pelo esbatimento das distinções entre eléctrico (electrónico) e acústico. Eis, pois, um álbum que, para além de agradar ao ouvido, nos põe a pensar.