Acoustic Main Suite Plus The Inner One

Sirius: “Acoustic Main Suite Plus The Inner One” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Um disco produzido por Sei Miguel é o suficiente para nos fazer ficar em sentido: o trompetista tem uma integridade artística à prova de bala e o seu envolvimento neste projecto obriga a uma audição atenta. Some-se o facto de encontrarmos neste registo feito no Panteão Nacional um trompetista da nova geração, Yaw Tembe, e ficamos com a ideia de como seria criminoso não dar o melhor ouvido a “Acoustic Main Suite Plus The Inner One”. O nome do duo de Tembe com o veterano percussionista Monsieur Trinité (Francisco Trindade) – Sirius – transporta uma herança pesada, pois é o título de uma das mais extraordinárias peças de Stockhausen, composta nos anos 1970, com o trompete a desempenhar um papel importante. É ainda uma referência ao livro da mesma década do americano Robert K. G. Temple (Tembe lê um trecho desta obra no oitavo tema), no qual se defende a tese de que os habitantes de Dogon (Mali) mantêm uma tradição de contactos com seres extraterrestres inteligentes do sistema estelar Sirius.

A música instala-se com perfeição: uma frase muito melódica no metal e uma intervenção soprada na percussão criam uma entrada simples e bela. Como que a chamar o ouvinte e a criar o espaço onde a música se vai instalar. A igreja abre os sons dos instrumentos e obriga a que tenham uma respiração lenta. É um início prometedor. Yaw Tembe faz um uso muito particular das melodias: frases perfeitas, harmoniosas, num jogo inteligente com o eco natural produzido pela pedra do edifício. A percussão de Monsieur Trinité tem características muito próprias: funciona com ideias rítmicas (mesmo quando usa formas repetitivas) que têm a pureza da criança que se surpreende com um acontecimento e que prossegue pelo prazer de mais surpresas; é ela que tem a iniciativa no segundo tema, entrando de modo afirmativo com tambores e depois pratos. O trompete encontra espaço numa lógica de festim. Música áspera que equilibra o início celestial e o faz evoluir para uma narrativa mais terrena. Regressa depois o trompete melódico, palmas, metais. A percussão torna-se fundamental à medida que a música progride, pois é ela que vai criando os diferentes ambientes, coerentes entre si mas suficientemente diversos, permitindo que o sopro no trompete brilhe.

O disco soa como uma peça única que só é interrompida pela leitura. Termina com um diálogo entre o trompete e as paredes da igreja, com a longa reverberação a ser aproveitada para ir esfumando a peça e libertar o ouvinte do espaço onde se tinha instalado. Saímos com uma nova relação: seja por sugestão ou por intenção, esta música crua e ao mesmo tempo tão bonita ecoa as gravações dos hinos de Delfos a Apolo (130 a.C), um dos raros fragmentos musicais gregos que sobreviveram até ao presente. Há uma certa teatralização, a divisão em dez partes, as escalas do trompete, os sons naturais da percussão e, principalmente, um tipo de som que nos liga a essa raiz musical da música do Ocidente. Esta soa inicialmente estranha, mas depois envolve-nos na sua pureza. Um grande álbum de jazz que abre novas portas e aponta caminhos.

  • Acoustic Main Suite Plus The Inner One

    Acoustic Main Suite Plus The Inner One (Clean Feed)

    Sirius

    Yaw Tembe (trompete); Monsieur Trinité (percussão, objectos)