Susana Santos Silva: “All the Rivers” (Clean Feed)

Gonçalo Falcão

Ao contrário do que acontece na música fixada em pauta, a improvisação é “site specific”, como se diz no jargão das belas-artes: vive do momento e do espaço onde é praticada. Mais do que isso, ouve-o (o momento e o espaço). É essa a prática do improvisador, a de ouvir a música enquanto ela está a ser criada, de ouvir os outros músicos, ouvir a sala e toda a música que está a ser tocada. Este novo disco é, desde logo, uma demonstração clara desta característica única própria das músicas baseadas na improvisação: a adaptação da música ao local onde ela é tocada. O CD guarda a música do concerto a solo que opôs Susana Santos Silva ao mármore do Panteão Nacional (e vice-versa).

A trompetista explorou o som imenso da igreja, a sua reverberação longa; uma figura feminina magra, cheia de coragem, envolta pela enormidade soberana da igreja que guarda «aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando». A música é fácil de seguir, pois a longa reverberação do monumento impõe um fraseado lento e uma música calma e pensativa. Quase que ouvimos Santos Silva ensimesmar à medida que vai criando novas ideias, falando com o eco, aproveitando a resposta dada pelas paredes de pedra. A música, quase mágica, liberta-se do trompete e a ele regressa, transformada pela arquitectura, para voltar a ser devolvida à sala num contínuo. Há uma tensão entre as paredes, que declinam os sons, e o trompete que as procura alargar, renovando o espírito e a poética daquele lugar. Enquanto o trompete soprou o Panteão viveu uma solenidade alegre, humana, que reduz a dimensão imperial do monumento a uma conversa com avós numa casa de família. É a beleza da dimensão humana que nos relembra que temos de cuidar dos vivos e acreditar que o mundo tende para melhor.