Jon Rune Strøm Quintet: “Fragments” (Clean Feed)

Gonçalo Falcão

Apesar de Jon Rune Strøm não ser um “newcomer”, dado que o conhecemos bem, mas como sideman de outros projectos, acho que se justifica uma introdução ao contrabaixista norueguês. É um membro activo na cena jazzística norueguesa que, como sabemos hoje, juntamente com a sueca e a holandesa, é uma das mais interessantes da Europa. Já lá vai o tempo em que a Inglaterra e a França lideravam o jazz deste lado do Atlântico: hoje, se queremos ouvir coisas novas, fortes, vivas e interessantes o melhor é subir para o frio do Norte da Europa (sem esquecer Portugal). Strøm Integra a Large Unit de Paal Nilssen-Love, o Nu Ensemble de Mats Gustafsson e colabora com Mats Äleklint, John Dikeman e Martin Küchen, entre outros, em grupos como Universal Indians, All Included e Friends & Neighbors.

“Fragments” é um título que não sugestiona; o contrabaixista não fez um esforçozinho neste capítulo. Mas em compensação, ao entrarmos no disco sentamo-nos num carrinho de montanha russa e somos levados numa viagem espantosa. Há em cada uma das músicas uma sensação de propulsão. Os contrabaixos (sim, são dois, Rune Strøm e Christian Meaas Svendson) e a bateria (de Andreas Wildhagen) são um motor de nitrometano que leva à frente os sopros (trompete e saxofone, tocados respectivamente por Thomas Johansson e Andre Roligheten) a abrir caminho. Lembramo-nos dos discos dos anos 1950 de Charles Mingus, pela beleza das melodias, pelo som cortante dos metais e pelo poder da secção rítmica. São canções muito bem interpretadas, bem improvisadas e sustentadas por uma máquina rítmica infernal, ao estilo nórdico: directa ao assunto, galopante, focada, sem decorativismos, forte. O “swing” duro, herdeiro do rock (e menos das contramelodias de Mingus), apresenta-se ao serviço sem rodriguinhos e os temas, muito bem escritos, constroem o resto, um hard bop actualizado para “blitzkrieg bop”. Um bom disco para começar o ano com o ouvido direito.