Daniel Karlsson Trio: “Ding Dong” (Brus & Knaster)

Rui Eduardo Paes

O nome de Daniel Karlsson parece ainda não ter vingado em Portugal, mas o pianista sueco é encarado na sua Suécia Natal, e em outros países da Europa, como o digno sucessor do entendimento que Esbjorn Svensson tinha do trio de piano jazz. E isso apesar de, no novo “Ding Dong” (o quarto álbum do grupo que mantém com Christian Spering no contrabaixo e no violoncelo e o nosso conhecido Fredrik Rundqvist na bateria) essa conotação de estilo ou tendência surgir prolongada para outros desfechos, com bastas influências do que têm feito os Bad Plus, mas indo ainda mais além. Designadamente, com uma introdução nada discreta de teclados eléctricos e electrónicos, com destaque para os sintetizadores analógicos e para um instrumento “vintage” que, se é mais identificativo do rock progressivo, o mellotron, teve logo nos anos 1970 uma utilização no jazz, por via dos Mwandishi de Herbie Hancock.

Em termos de composição, de arranjos (digamos mesmo de orquestração, dada a larga paleta tímbrica) e de ambiências, temos neste disco tudo aquilo que caracteriza o jazz escandinavo desde que a ECM virou os ouvidos para o dito, mas esse tipo de paisagismo gelado sofre um inesperado contraste quando o trio de Karlsson começa a improvisar sobre os temas, nos solos ou em conjunto, e nesses momentos o que sobressai é um “groove” jazzístico sem parametrizações geográficas. Há um factor experimental na música que leva o projecto muito além dos paradigmas estabelecidos pelo Bill Evans Trio ou outro qualquer, com uso de dissonâncias e de métricas intrincadas que vão sofrendo súbitas mudanças, o que faz com que sejamos continuamente surpreendidos.