Thomas Stronen Time is a Blind Guide: “Lucus” (ECM)

Rui Eduardo Paes

Eis o segundo tomo de uma incursão bem diferente daquelas a que o baterista Thomas Stronen nos habituou, com os projectos Humcrush ou Food, neste disco surgindo igualmente diferente do de estreia. Se “Time is a Blind Guide”, de 2015, contrapunha um trio de percussão ao trio de cordas do grupo e se tal circunstância convidou à aplicação de fórmulas rítmicas de influência africana, neste novo título as baquetas estão apenas entregues ao seu líder e compositor e há um factor clássico ainda mais pronunciado. Não é a única diferença: se antes até o piano era quase um tambor, tocado pelo particularmente “groovy” Kit Downes, agora está entregue à japonesa Ayumi Tanaka, que é bem mais subtil e camerística, de algum modo devolvendo Stronen aos tempos em que colaborava com John Taylor. Mantêm-se os restantes elementos, designadamente o violinista Hakon Aase, a violoncelista Lucy Railton e o contrabaixista Ole Morten Vagan. O emagrecimento do factor percussivo simplificou as coordenadas da música proposta, mas ainda assim esta lida com distintas perspectivas de orquestração: umas vezes o que ouvimos é um trio de piano jazz com uma secção de cordas e em outras mais parece estarmos perante um trio de cordas com uma extensão de bateria e piano sem quaisquer conotações jazzísticas, ainda que, em ambos os casos, seja claro o protagonismo do baterista.

A entrada neste particular universo acústico do cada vez mais electrónico Stronen é algo enganosa: a beleza de “La Bella” é renascentista e até etérea, mas os temas que se seguem preferem uma abordagem mais crua, sobrepondo uma afoita gestão de intensidades expressivas à tentação do paisagismo. A referenciação africana pode ter desaparecido, mas não o “drive” da improvisação. A música tem agora mais espaços e transparências, mas continua a ser motivada por cuidadas moldagens de energia e um mesmo sentido de fluxo. Sobrevive uma premissa do anterior CD que o reenquadramento já descrito faz com que ganhe um ainda maior relevo: a construção melódica é fulcral e dá uma dimensão folk ao conjunto. As melodias que se vão sucedendo são extremamente simples e cantáveis, jogando por oposição com a complexidade das métricas e dos ritmos cruzados ou sobrepostos. Há algo de exploratório, de experimental mesmo, ao longo de temas como “Fugitive Pieces” ou “Tension”, mas todos eles são igualmente acessíveis. Aliás, familiaridade e estranheza são impressões que se intercalam durante a audição de “Lucus”, o que só podia ser bom…