Sylvie Courvoisier Trio: “D’Agala” (Intakt)

Rui Eduardo Paes

Poucos músicos chegados de fora da muito fechada cena norte-americana do jazz foram tão influentes para a actualidade desta quanto a suíça Sylvie Courvoisier, habitante de Brooklyn desde finais da década de 1990. E poucos como ela nos surpreendem verdadeiramente em cada disco editado – a irrequieta pianista e compositora parece fazer questão de nunca se repetir, dando-nos em cada opus não só algo mais do que tinha feito como aquilo precisamente de que não estávamos à espera. Sabendo do modo como interioriza aspectos da tradição clássica europeia na sua visão muito pessoal do jazz, este “D’Agala” surpreende-nos especialmente pelo facto de ter escolhido uma abordagem pianística muito percussiva (quando assim não acontece, utiliza o instrumento como o cordofone que também é), toda ela gesto e toda ela teatro, tal é o dramatismo físico das situações.

Todo o piano é utilizado, e não só o interior, com recurso a preparações ou manipulações directas, como a própria armação de madeira, transformando o piano, literalmente, num tambor. Ainda assim, e parecendo que não quer que esta via se transforme numa fórmula, é muito introspectivo o que lhe ouvimos no tema-título (“D’Agala”), um dos dedicados a músicos que faleceram em 2017, Geri Allen (o outro é John Abercrombie). O que só confirma o inconformismo de Courvoisier relativamente a todas e quaisquer receitas, começando pelas que estão firmadas para o trio de piano, contrabaixo e bateria, o escolhido para esta edição em que conta com os préstimos de Drew Dress e Kenny Wollesen. Mais uma vez, porém, a interacção estabelecida é uma agradável contradição, pois deriva do sentido colectivo de um Herbie Nichols. Neste CD em que se sucedem as homenagens, por exemplo aos músicos Ornette Coleman e Irène Schweizer, aos escultores Martin Puryear e Louise Bourgeois e à pensadora feminista Simone Veil, o que mais nos arrebata é o despropósito: designadamente, as construções que destoam do que vem antes pela sua desmesura ou pela sua pequenez, apenas se deixando controlar pela solidez do acompanhamento sempre “groovy” do contrabaixista e do baterista. O ano mal começou e já temos aqui uma das suas obras-primas…