Coreto: “Analog” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Ao quarto disco, o ensemble Coreto volta a convencer com um disco que explora o imaginário da tecnologia analógica, fazendo-o não com a incorporação de dispositivos sonoros “vintage” (seria demasiado óbvio e esta é, para todos os efeitos, uma big band” de jazz, como tal centrada nos bem mais antigos instrumentos de sopro), mas mimetizando, ou tendo-as como mote, algumas situações-tipo do tema escolhido pelo compositor de todos as seis peças reunidas, o saxofonista alto e flautista João Pedro Brandão. Se em “Analog II: SOS” uma gravação falada que parece datar dos anos 1930 ou 40 sugere muito explicitamente que a emissão à distância de sinais deve ser rítmica, com a escrita e a improvisação a derivarem das pulsações típicas do código Morse, outras implicações estão patentes, como a procura de uma estação num aparelho de ondas curtas (“Analog V: Transistor”) ou a ocorrência de uma perturbação eléctrica (“Analog VI: Curto-Circuito”), outras surgindo por derivação, sob a forma de “delays”, interferências e ressonâncias (em alusão à comunicação por rádio e telefónica, como em “Analog IV: Radio”). O procedimento explica muito do interesse da música que ouvimos neste “Analog” (não sem que pelo meio surja um irónico “Analog III: Not Sweet Enough”, como que assinalando que este “modus operandi” condiciona a expressão), mas depressa percebemos tratar-se de um subterfúgio – no que a abrir caminhos diz respeito, o Coreto nunca precisou de justificações.

Mais uma vez, o projecto parte do património do orquestralismo jazz e, neste, mais o do período bop do que aquele que lhe deu as premissas, o do swing, mas em combinação com fórmulas da composição erudita contemporânea e com importações de aspectos com proveniência da música livremente improvisada, que não propriamente do free jazz. Na última faixa, acrescenta-se ainda uma rítmica derivada da música electrónica de dança e particularmente do drum ‘n’ bass, aliás dando azo ao mais conseguido solo de todo o CD: o do baterista José Marrucho. Outras intervenções solísticas se seguem em proveito, numa música que é essencialmente colectiva e sustentada em uníssonos, contrapontos, jogos polimelódicos e polirrítmicos e complexas construções harmónicas e tímbricas: as de Susana Santos Silva no trompete, José Pedro Coelho no saxofone tenor, Andreia Santos no trombone e do próprio Brandão, com José Carlos Barbosa (contrabaixo), Rui Teixeira (saxofone barítono), Ricardo Formoso (trompete), AP (guitarra), Hugo Raro (piano), Hugo Ciríaco (saxofone tenor) e Daniel Dias (trombone) também a chegarem-se à frente. Decididamente, uma edição para ouvir muitas vezes e guardar na estante lá de casa.