MAU: “Utopia” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Qualquer novidade que venha do contrabaixista e compositor Miguel Ângelo é, só por si, notícia, e quando se verifica que este trio em estreia inclui o guitarrista Miguel Moreira e o baterista Mário Costa mais a curiosidade fica despertada. Todos eles nos apresentaram antes projectos em que o título que aqui ganha proporções definidoras era já uma inerência, no sentido de que essas músicas (respectivamente, as de “I Think I’m Going to Eat Dessert”, “Câmbio” e “Oxy Patina”) tinham nelas mesmas a sua utopia – apontaram para algo que estava mais além, com a consciência de que o irrealizável é a razão mesma do impulso artístico, como de resto transpareceu das conversas entre Jacques Derrida e Ornette Coleman sobre o que à impossibilidade prática da improvisação diz respeito, enquanto factor que dá, precisamente, à improvisação o seu desígnio de Sísifo.

No caso destes MAU tal empreendimento utópico surge sob a forma de uma música que reconcilia os parâmetros do jazz e do rock desformatando ambos, com um contrabaixo sempre afirmativo e profundo, uma guitarra encharcada em efeitos sci-fi e uma bateria que faz muito mais do que pontuar e dar chão ao que vai acontecendo à sua volta. Quando ouvimos a voz de Agostinho da Silva em “Éden”, já estão em processo as tentativas de realização do binómio liberdade e destino de que fala o pensador anarquista português. Primeiro vem a aplicação, depois anuncia-se a teoria. Deveria ser sempre assim, mas não é, e o facto de este disco inverter os termos é meio caminho andado para o seu sucesso… Um dos pontos altos do alinhamento está na suite “Três Castas”. E porque não haveria esta utopia musical de versar o tema do vinho? Não era, afinal, Baco, o deus da bebida resultante da fermentação das uvas, também o deus da música?