Never is Enough

Thumbscrew: “Never is Enough” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Ao sexto álbum, o trio Thumbscrew, não cessa de surpreender. Desconhecíamo-lo, mas a guitarrista Mary Halvorson, o contrabaixista Michael Formanek e o baterista Tomas Fujiwara gravaram em Pittsburgh, no final do verão de 2019, uma espécie de segundo “Ours”/“Theirs”: um disco duplo (ou dois discos gémeos, se quiserem), um com composições próprias e outro com leituras de peças alheias. Talvez até nem fosse propósito do grupo, mas o facto é que repetiram a empreitada, sem receio de sucumbir a uma “overdose” de ambição.

Aquando das gravações de “The Anthony Braxton Project” (registo oportunamente escrutinado na jazz.pt), tinham nas estantes nove composições originais (três de cada membro do grupo) e decidiram aproveitar o ensejo e registá-las também. A diferença é que, desta feita, optaram por não lançar tudo de uma assentada, talvez pelo peso próprio de um tributo ao mestre de Chicago, cuja influência seminal aqui permanece, de certa forma, pois, tal como admite Formanek, «a presença de Braxton foi muito forte durante esse período, passámos tempo com a sua música, lendo algumas das notas das composições.»

Mas não esperaram muito. A urgência das peças nascidas no seio do consórcio reclama lançamento rápido. “Never is Enough”, de novo com selo da Cuneiform, traz elementos distintivos de jornadas anteriores. O mais notável é a forma como três personalidades musicais tão particulares urdem discos tão coesos na sua heterogeneidade. A teia de cumplicidades amadurecidas ao longo dos anos por Halvorson, Formanek e Fujiwara não resulta em rotinas ou num “modus operandi” confortavelmente gerido (notar que todos eles, enquanto líderes, utilizaram esta secção rítmica). Ao invés, o trio redescobre-se a cada nova gravação, gerando surpresa neles próprios e em todos quantos vêm acompanhando com atenção os seus percursos, como coletivo e noutros contextos. Pela primeira vez – que nos lembremos – escutamos Formanek em baixo elétrico, tal como escutámos Fujiwara estrear-se no vibrafone no projeto destinado a celebrar o 75.º aniversário de Braxton.

A peça de abertura, “Camp Easy”, desde logo reconfigura a empatia há muito existente entre guitarrista e contrabaixista. Os dedilhados inquietamente suaves de Halvorson desenham uma melodia que nunca se chega verdadeiramente a concretizar. Formanek é um colosso de segurança e inventividade e Fujiwara um verdadeiro joalheiro rítmico. Está dado o mote para o que vem a seguir. Ou nem tanto. “Sequel to Sadness” é devedora de uma certa estética rock do power-trio, com a guitarrista a revelar uma abordagem áspera e gentil ao mesmo tempo, lançando achas na fogueira de Formanek e preparando o consequente episódio solístico do homem das baquetas. A peça-título, original do contrabaixista, começa num regime tranquilo que se vai tornando tempestuoso, até a bonança finalmente regressar.

Talvez o momento em que a presença subliminar de Braxton se intua com maior acuidade seja “Through an Open Window”, saída da pena de Fujiwara, eleva aos píncaros os níveis de interação a três, com as notas tão supersónicas quão precisas da guitarrista em articulação apertada com a dupla rítmica. “Emojis Have Consequences” reitera esse tricô sónico, do qual emergem momentos individuais como que demonstrativos de que o cômputo é superior à soma das parcelas.

“Heartdrop” é uma balada espinhosa, cortesia de Halvorson, que aqui escutamos em estado de graça. A elegância melódica de “Unsung Procession” não destoa grandemente, embora aqui tenhamos a perspetiva de Fujiwara, que certamente a terá arquitetado com a sonoridade da guitarrista em mente. A excelente “Fractured Sanity” parece ter sido intitulada de forma auto-explicativa, dado o início enérgico e fragmentado que paulatinamente vai ganhando inusitada estrutura. Formanek retoma o baixo elétrico (aqui mais processado) na peça final, “Scam Likely”, com as suas notas repetitivas que Fujiwara complementa e a que Halvorson acrescenta toda uma nova dimensão.

“Never Is Enough” é mais um testemunho eloquente da arte de um trio saudavelmente incategorizável.

  • Never is Enough

    Never is Enough (Cuneiform)

    Thumbscrew

    Mary Halvorson (guitarra elétrica); Michael Formanek (contrabaixo, baixo elétrico); Tomas Fujiwara (bateria)

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