A Tribo

Coreto: “A Tribo” (Carimbo Porta-Jazz)2

Carimbo Porta-Jazz

António Branco

O Coreto é uma das estrelas mais cintilantes da constelação Porta-Jazz. E o coletivo voltou aos discos com “A Tribo”, na Carimbo, braço editorial da associação cujo trabalho em prol do jazz portuense (e nacional) nunca é demais enaltecer. Liderada pelo saxofonista, flautista e compositor João Pedro Brandão, a formação é constituída por uma dúzia de músicos do escol jazzístico da Invicta e tem vindo a oferecer aos melómanos uma discografia tematicamente diversificada, mas sempre com a fasquia mantida alta.

Depois do inaugural “Aljamia”, de 2012 – um dos discos inescapáveis do jazz nacional da última vintena de anos –, a safra prosseguiu com “Mergulho” (2014) – preenchido com música do guitarrista AP –, “Sem Chão” (2015) – reunindo composições de vários músicos – e “Analog” (2017), de novo com música original de Brandão, tal como acontece em “A Tribo”. No final de julho do ano passado, no festival Jazz 2020, o grupo estreou uma peça, se então bem captei, intitulada “Born into Nature” que já lançava pistas para o que então ia na cabeça do compositor.

«Quando comecei a pensar na música para este disco parti da ideia de celebração, de ritual. Essa ideia começou a expandir-se para a nossa vida em grupo, como a celebramos, valorizamos ou destruímos, mas também como nos vemos de fora, como percecionamos a nossa insignificância face ao universo», diz João Pedro Brandão à jazz.pt. «Este disco é também a minha visão do grupo e pretende resumir o seu som de forma genuína. Uma espécie de procura das nossas essências.» O álbum – conceptual – divide-se em sete partes/andamentos, recomendando-se a sua audição sequencial. «Cada um destes sete momentos tem uma imagem associada, ou um grupo de imagens, ou um pequeno filme, que imaginei e que me ajuda a chegar ao som. Este é um processo que é sensorial e emocional», acrescenta.

A música de Brandão funda-se numa inquietação permanente e continua a aliar o rigor e elegância formal das composições à urgência das improvisações. O resultado desafia o limite das fronteiras estéticas convencionadas entre o jazz, a música erudita contemporânea e outras músicas, numa abordagem que saudavelmente refuta rótulos. «Há três fatores essenciais: as ideias e imagens associadas que crio, os músicos e as suas personalidades musicais e, neste projeto em particular, a intenção de que a música seja simples e feita com pouco material escrito», explica o compositor.

A sonoridade global do Coreto continua a radicar na mais profunda tradição jazzística, em particular nas orquestras de bebop, revelando, porém, algumas passagens devedoras do princípio “ellingtoniano”, prosseguido por Brandão, de escrever e dirigir tendo presentes as características dos músicos («começo a pensar nos músicos, no seu som e como posso combiná-los e encaixá-los, que centralidade terá cada um deles e em que momento»). O líder volta a revelar-se exímio na forma como judiciosamente gere texturas e harmonias – com um poder gracioso (ou uma graça poderosa?) – potenciando as improvisações individuais, as interações e dinâmicas entre as várias secções e a força do “tutti”.

A viagem inicia-se com “Parte I – Brotando da Terra”, marcada pelo trompete ora mais límpido, ora mais rugoso, de uma irrepreensível Susana Santos Silva. A “Parte II – A Jornada” assenta num “groove” cortesia da secção rítmica e em vívidas interações entre os vários sopros. Brandão trabalha com esmero a maleabilidade da massa orquestral, dela emanando solos do próprio e um diálogo entre os trombones de Andreia Santos (canal esquerdo) – gostava de a ouvir mais claramente, porventura no seio de uma formação de menor dimensão – e de Daniel Dias (canal direito).

A luminosa “Parte III – Celebração”, onde descortino certo travo “west coast”, conta com os subtis efeitos eletrónicos de AP e com um belo solo do trompetista Ricardo Formoso. Na quarte parte, “Conflito”, a secção rítmica propõe um motivo repetitivo gerador de uma tensão que serve de rampa de lançamento para uma soberba intervenção de José Pedro Coelho no saxofone tenor, testemunhando a complementaridade (mais do que o antagonismo) entre a dimensão orquestral e a individualidade, desembocando nas angulosidades do solo final do pianista Hugo Raro.

A “Parte V – Faina” parte de um motivo que evoca uma canção de trabalho, marcando o ritmo e o esforço (não faltam os gritos de incentivo), a que se juntam uníssonos e jogos de parada e resposta entre os sopros, antecâmara para um solo flamejante de Hugo Ciríaco no saxofone tenor. Na serenidade abstrata de “Parte VI – Contemplação” escuto ecos de algumas explorações eletrónicas planantes de início de setentas – carta branca a AP nos efeitos a partir da guitarra –, que interagem com uma série de texturas escritas/improvisadas pelo resto do “ensemble”. A encerrar, a beleza de “Parte VII – Lar” em muito deve à flauta de Brandão e ao lirismo dos solos de contrabaixo e de um sempre eloquentemente conciso Rui Teixeira.

“A Tribo” é mais um testemunho da relevância criativa de João Pedro Brandão e do Coreto e sobe ao olimpo dos discos nacionais de 2021.

  • A Tribo

    A Tribo (Carimbo Porta-Jazz)

    Coreto

    João Pedro Brandão (saxofone alto, flauta); José Pedro Coelho (saxofone tenor); Hugo Ciríaco (saxofone tenor); Rui Teixeira (saxofone barítono); Ricardo Formoso (trompete, fliscórnio); Susana Santos Silva (trompete); Daniel Dias (trombone, voz); Andreia Santos (trombone); AP (guitarra elétrica); Hugo Raro (piano); José Carlos Barbosa (contrabaixo); José Marrucho (bateria)

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