Tony Bennett & Lady Gaga: “Love For Sale” (Columbia/Interscope)

Tony Bennett & Lady Gaga: “Love For Sale” (Columbia/Interscope)

Columbia / Interscope

Gonçalo Falcão

Tal como a grande cisma na pop se dá entre Beatles e Rolling Stones, nos crooners a separação acontece entre Sinatra e Bennett. Eu sempre fui dos que alinha na equipa Bennettiana (e que considera Cole Porter o “Greatest of All Time”).

A Lady Gaga não é mais uma Madonna (quem diz Madonna diz Spears, Minogue, Estefan, Beyoncé, Rihanna, etc.). É mesmo uma cantora, compositora e instrumentista (e dançarina). Toca, escreve e canta asseadamente. Não usa a horrorosa híper-expressividade introduzida por Celine Dion e Whitney Houston, que infetaram a música popular com um modo de cantar incapaz de dar uma nota sem a rechear com subidas e descidas tipo sismógrafo do Japão.

Lady Gaga canta mesmo e sabe cantar. Ao ouvirmos este disco percebemos que a escola dela vem do jazz e que não chegou à sessão a partir do nada. Conhece bem este material, sabe de onde vem, o que é e como o abordar.
Provavelmente este disco não irá contribui para a carreira pop de Gaga, porque a maioria do seu público não chega até aqui. Também não é uma obra que nos faz esquecer Ella Fitzgerald; mas “Love for Sale” mostra que a estrela da pop sabe cantar jazz e que este é um disco que vale a pena ser ouvido.

O dueto não procura surpreender nem inovar e atira-se a alguns clássicos do american songbook exclusivamente através de Cole Porter. Aparecem os intemporais "You're the Top", "Night and Day", "I Get a Kick out of You" e, claro, a canção que dá título ao disco, “Love For Sale”, entregue com imensa erudição e mestria.

Quando os dois se juntam a coisa funciona bem e percebe-se que a diva o está a ouvir e a seguir. Bennett tem 95 anos (mais 60 do que Gaga!) e é uma escola. Constata-se que já não vai para novo mas, mesmo assim, não desilude. É o velho Bennett, velho, mas ainda bom, a colocar cada palavra com estilo. Lady Gaga é inteligente e sabe que o melhor que tem a fazer é ir com ele; não precisa de auto-tune - ela afina impecavelmente - e tem uma entrega clara e forte que se ouve-se muito bem. Muito raramente sentimos que “over-sings” ou cai na tentação de exagerar a natureza sofisticada e serena das composições de Porter.

Solos de guitarra polidos e delicados em “Dream Dancing” e “Just One of those Things” relembram-nos que a parte orquestral está impecavelmente bem tratada.

Parece-me ainda uma excelente maneira de Bennett nos dizer adeus. Um artista que resistiu sempre em embarcar nas sucessivas modas da pop, mas que mostra ter uma cabeça desempoeirada, deixando que as tendências da pop embarquem na sua música. E, com 95 anos, chega a número 1.

  • Love For Sale

    Love For Sale (Columbia / Interscope)

    Tony Bennett & Lady Gaga

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