Katerina L'dokova: “Mova Dreva” (Edição de autor)

Katerina L'dokova: “Mova Dreva” (Edição de autor)

Edição de autor

Sofia Rajado

“A linguagem da árvore” – lê-se no tradutor automático bielorusso-português quando se escreve “Mova Dreva”, o título do último álbum de Katerina L’dokova. Talvez a tradução não esteja totalmente correta, mas a ideia de fundo está lá. “Mova Dreva” é um encontro de Katerina L'dokova com a natureza, com as suas origens bielorrussas - um regresso ao ambiente telúrico, algo antigo, mas não perdido.

“Mova Dreva” foi lançado em Setembro de 2021. Contou com a gravação de Suse Ribeiro, mistura e masterização ao cuidado de Marcelinho Guerra. Katerina L’dokova nasceu na Bielorrússia e vive em Portugal desde 2006. Estudou jazz na Escola Superior de Música de Lisboa e até ao momento tinha editado três álbuns (Ledok, Katavento e Travessia).

Inserido num subgénero do jazz chamado de ethno jazz, este novo álbum conta com uma grande pesquisa etnomusicológica de Katerina L’dokova, ao encontro de canções populares e tradicionais da Bielorrússia – canções de festa, de tristeza, de embalo, da natureza. Após esse estudo, a autora do álbum foi ainda responsável pelos arranjos, composições, resultando num trabalho que cruza diferentes culturas e influências, como música popular, jazz e também música clássica. E o resultado disso, com a escuta atenta de “Mova Dreva”, conduz-nos a uma incógnita sobre nós próprios, sobre o nosso eu, sobre a nossa relação com a terra e, simultaneamente, gera-nos a sensação de encontro, de pertença. Poderá parecer contraditório, mas para quem ouvir o álbum atentamente, perceberá que não o é.

“Mova Dreva” junta Katerina L’dokova no piano e voz, João Fragoso no contrabaixo, Paulo Bernardino no clarinete e clarinete baixo, António Loureiro na bateria, piano eléctrico e eletrónicas. Conta ainda com a participação especial de Diogo Duque no trompete e Diego Cortez na flauta.

É um álbum com faixas muito diferentes entre si que também divergem no seu interior. Em "Viasna" já podemos encontrar algum cruzamento de influências – a exploração da voz que talvez nos remeta para o mundo da natureza e dos animais selvagens, acompanhada pelos movimentos ritmados e sincopados do piano, sobre os quais surge um solo de clarinete com bases no jazz mais tradicional, e também lembrando algumas das raízes dos clarinetes folk ouvidos no leste da Europa. Para os ouvidos mais atentos, há momentos que podemos ser transportados para um ambiente um pouco rock.

A segunda faixa "Leleja", é outro imaginário. Possui uma estrutura próxima de canção, com apresentação de uma ideia, seguida de um refrão, que vai sofrendo variações. Mas, com alguns desvios - momentos de relaxamento, com excelente interpretação da voz, a finalizar com um instante de improviso do piano elétrico. Já em "Uspamin", tanto encontramos melodias ao piano que podem lembrar Chopin como, rapidamente, na presença de um trompete, adquirirem um ritmo marcial, que se desfaz para momentos de instrospeção, quase em modo de improvisação livre. Já "Zazviniela", tem um início na voz que nos transporta para o canto gregoriano, mas que também se cruza com influências do punk rock. Destaque para o importante, e bem desempenhado, papel da bateria e do contrabaixo nestas transições Na última faixa, "Malitva", escutamos apenas vozes – um coro com as várias vozes, graves, agudas, a formar diferentes harmonias.

Estes são alguns dos exemplos que constroem a complexidade deste álbum, com músicos muito ricos, que transmitem uma energia musical muito intensa, com grande destaque para o piano e voz de Katerina.

Confesso que, em geral, o ethno jazz não me cativa muito, mas “Mova Dreva" cativou. Pelas excelentes composições e arranjos, harmonicamente muito certeiros, dissonantes quando necessários, consonantes quando assim faz sentido, ou mesmo que não. Ritmos fortes e fracos. Cenários sobre os quais fluíram várias melodias, umas mais serenas, outras mais enérgicas. Não é um álbum no qual já estamos à espera do que vem a seguir. A linguagem da árvore é difícil de entender, mas bonita de se ouvir.

 

  • Mova Dreva

    Mova Dreva (Edição de autor)

    Katerina L'dokova

    Katerina L’dokova (piano, voz, composição, arranjos); Paulo Bernardino (clarinete e clarinete baixo); João Fragoso (contrabaixo); António Loureiro (bateria, piano eléctrico e eletrónicas); Diogo Duque (trompete); Diego Cortez (flauta)

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