Thumbscrew: “Multicolored Midnight” (Cuneiform)

Thumbscrew: “Multicolored Midnight” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

A assinalar em 2022 uma década de frutuosa existência, o trio Thumbscrew, formado pela guitarrista Mary Halvorson, o contrabaixista Michael Formanek e o baterista (e vibrafonista) Tomas Fujiwara, está de regressão com mais um álbum superlativo, “Multicolored Midnight”, como habitualmente com selo da Cuneiform. A jazz.pt já o escutou.

Cumprida uma intensa década de existência e ao sétimo registo para a Cuneiform, o trio Thumbscrew continua na sua senda de surpreender. Depois de em 2019 ter dado à luz os gémeos “Ours”/“Theirs” e de, no ano seguinte, nos ter oferecido “The Anthony Braxton Project” (escrutinado na jazz.pt aqui), o grupo aproveitou as sobras dessas sessões e em 2021 editou “Never Is Enough”.

A guitarrista Mary Halvorson, o contrabaixista Michael Formanek e o baterista e vibrafonista Tomas Fujiwara assinalam a redonda efeméride com “Multicolored Midnight”, coleção de 11 peças originais que atestam o largo espetro criativo da formação, adentrando-se em novos territórios sónicos, mais do que capitalizando louros. A abordagem que o trio tem vindo a prosseguir funda-se num conhecimento íntimo das personalidades e possibilidades que cada um traz, ao invés de cristalizar fórmulas e retomar processos, ousando partir em busca de novas descobertas, para os próprios e para quem tem acompanhado de perto o seu percurso. «É muito tempo para uma banda cooperativa, e as residências são uma grande parte do que nos permitiu mergulhar mais fundo e continuar a criar música nova», sublinha Formanek.

Produto de uma evolução constante, a música do trio bebe numa intricadíssima rede de relações e experiências, que faz com que o cômputo desafie a álgebra das somas simples. Não esquecer que subjazendo ao trabalho no quadro específico desta geometria pitagórica – e respetivo xadrez instrumental – está o facto de os três constituírem os pilares fundacionais do Ensemble Kolossus, liderado pelo contrabaixista (o álbum de estreia da formação, “The Distance”, editado pela ECM em 2016, é de audição obrigatória). Formanek juntou-se a Halvorson no terceiro álbum de Tomas Fujiwara & The Hook Up, “After All Is Said”, de 2015. E, claro, Formanek e Fujiwara fazem parte do núcleo duro de Code Girl, aclamado projeto da guitarrista. É ela quem deixa preto no branco: «É uma das minhas seções rítmicas favoritas para fazer parte, pelo poder e por toda a energia do que criamos juntos. Neste momento, todos nós como líderes usamos esta secção rítmica.» O que quer dizer muito.

A música que nos é dada a escutar em “Multicolored Midnight” resulta de uma residência de três semanas, em agosto de 2021, no City of Asylum, local de criação em Pittsburgh que tem funcionado como uma espécie de refúgio para escritores exilados. Desde que estendeu a sua atividade à música, tem sido como que o quarto elemento dos Thumbscrew (já lá trabalharam em quatro períodos), laboratório onde aprofundam e refinam a sua alquimia sonora, num ambiente de tranquilidade que contrastou com o isolamento imposto pela situação pandémica.

De composições de delicada relojoaria a improvisações abertas – e toda a gradação intermédia – o que avulta é o maior espaço agora concedido ao vibrafone de Fujiwara, o qual aporta toda uma nova dimensão ao som do grupo (a ponta do véu do que este contributo poderia significar pode ser encontrada no já mencionado álbum de tributo a mestre Braxton, por ocasião do seu 75.º aniversário). A interação apertada entre os três músicos, que jamais redunda em rotina, antes numa redescoberta das possibilidades a três, está desde logo patente em “I’m a Senator!” peça de arquitetura rigorosa (uma das cinco saídas da pena do contrabaixista), que começa só com contrabaixo e bateria, até que Halvorson se junta com o seu discurso claro embora vertiginoso, a espaços inesperadamente excitado por um travo funk.

“Song for Mr. Humphries”, da autoria de Fujiwara, é uma homenagem a Roger Humphries, veterano baterista de Pittsburgh (que hoje reside a poucos quarteirões do City of Asylum) presente no álbum-chave de Horace Silver, “Song For My Father” (1965), embora não se baseie em nada que este tenha tocado, antes na sua generosidade e contributo para a música. («Sempre que vou a Pittsburgh, ouço-o tocar e vou a casa dele para uma aula e uma saída», revela Fujiwara.) Introduzida pela guitarrista, mantem o alto astral; Formanek faz um solo pujante e o baterista assegura um drive rápido, que Halvorson pontua, com a peça a tornar-se cada vez mais complexa e menos estável ritmicamente à medida que evolui.

A atmosfera encantatória de “Shit Changes”, outra peça do contrabaixista, assenta num diálogo entre guitarra e um ostinato de vibrafone, em que o contrabaixo carnudo de Formanek se intromete, arrebatando o lugar pivotal no desenvolvimento da peça. Já “Fidgety” começa com o contrabaixo processado (é a primeira ocasião em que Formanek faz uso de eletrónicas nos Thumbscrew), instalando uma ambiência inquieta. A peça-título, original da guitarrista, exibe um balanço soalheiro quase folk, com a própria no centro do que acontece.

Evocando a suspensão do tempo que marcou os primeiros tempos da pandemia, “Future Reruns and Nostalgia” cobre-se de um manto misterioso, com as notas etéreas de vibrafone, Formanek a recorrer ao arco, e os efeitos subtis propostos por Halvorson a engendrar uma atmosfera especial. “Capsicum Annuum” – peça quase no formato de canção que deve o título a uma espécie de pimento nativo do continente americano –, é de uma intensidade contida, centrada na sua melodia sedutora. O pendor camerístico de “Swirling Lives”, porventura o melhor momento do álbum, mostra a excelência dos três músicos a cozinharem a ideia central em lume brando; Halvorson toma então brilhantemente conta dos acontecimentos, papel que é depois assumido pelo vibrafone de Fujiwara e pelo contrabaixista, que carreiam a melodia para diferentes planos em momentos distintos. “Should Be Cool”, de guitarra ziguezagueante, e “Brutality and Beauty” encerram o disco em tom intenso, com a alta voltagem da guitarra de Halvorson envolta num vigor devedor do rock.

Expandindo um notabilíssimo pecúlio, “Multicolored Midnight” integra novos conceitos, sons e texturas e deixa no ar a interrogação que interessa a qualquer amante de música criativa: para onde se dirigirá este trio no futuro?

  • Multicolored Midnight

    Multicolored Midnight (Cuneiform)

    Thumbscrew

    Mary Halvorson (guitarra); Michael Formanek (contrabaixo, eletrónicas); Tomas Fujiwara (bateria, vibrafone)

Agenda

30 Novembro

Sul

Museu Nacional Soares dos Reis - Porto

30 Novembro

Miguel Ângelo Quarteto

Teatro Municipal de Bragança - Bragança

30 Novembro

Gonçalo Sousa e Francesca Guatteri

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

30 Novembro

Orquestra Jazz de Matosinhos com Chris Cheek

Casa da Música - Porto

01 Dezembro

Manuel Oliveira, Rodrigo Correia, Alexandre Frazão e Tomás Marques

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

01 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

02 Dezembro

MJAJA

O'culto da Ajuda - Lisboa

02 Dezembro

João Lencastre Free Celebration

SMUP - Parede

02 Dezembro

Júlio Resende

Fábrica Braço de Prata - Lisboa

02 Dezembro

Sul

Hot Clube de Portugal - Lisboa

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