Jazz ao Centro, 10 de Outubro de 2017

Jazz ao Centro

Um festival para uma região

texto Rui Eduardo Paes

Passados 15 anos da sua existência, os Encontros de Jazz de Coimbra apresentam este mês de Outubro um cartaz que abrange, para além da Cidade Universitária, outros cinco municípios da Região Centro. A vintena de concertos e sessões formativas programada envolve mais de 50 músicos de vários países. O festival cresceu – muito – e traz propostas de peso. É como segue…

Na sua 15ª edição, o Jazz ao Centro – Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra amplia a programação do festival para mais de 20 iniciativas, entre concertos e sessões educativas, abrangendo cinco municípios da Região Centro, designadamente Coimbra, Figueira da Foz, Miranda do Corvo, Penela e Vila Nova de Poiares. O evento organizado pelo Jazz ao Centro Clube com o apoio das autarquias em causa tem mesmo um mote: «Um festival para uma região». A organização assume deste modo «a necessidade de um trabalho em rede, afirmando a importância e a capacidade de executar projectos sem fronteiras concelhias, destacando a arte e a cultura enquanto espaços de consolidação e afirmação do intermunicipalismo». O evento terá a duração de três semanas consecutivas, de 13 a 28 de Outubro, envolvendo mais de 50 músicos provenientes de países como Estados Unidos da América, Brasil, Alemanha, Suíça, Suécia, França, Argentina, Cuba e, como não podia deixar de ser, Portugal.

O arranque faz-se a 13, em simultâneo, na Casa das Artes de Miranda do Corvo e no Auditório da Biblioteca Municipal de Penela. No primeiro caso com uma actuação da Filarmónica Mirandense com direcção do trompetista Luís Cunha e do maestro Luís Paulo Salgado e o complemento “jazzístico” de João Freitas (guitarra), João Cação (contrabaixo) e Miguel Rodrigues (bateria). Os 45 músicos da banda apresentarão os resultados de uma formação prestada por Cunha, que é desde há uns anos o responsável pela Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal. No segundo, está agendada uma prestação do Carmen Souza Trio. Acompanhada pelo contrabaixista português Théo Pascal e pelo baterista moçambicano Elias Kakomanolis, a cantora de ascendência cabo-verdiana Carmen Souza propõe-se estabelecer uma ponte entre a sua cultura musical de origem e o jazz, com contribuições de elementos das músicas populares de Portugal e do Brasil. Neste contexto, não vem ao acaso a inclusão no repertório – muito marcado pelas molduras do bop e do pós-bop, com John Coltrane e Ornette Coleman como principais referências – do tema “Cape Verdean Blues”, do pianista e compositor norte-americano Horace Silver (ou Horácio Tavares da Silva, porque os seus pais eram de Cabo Verde e assim foi baptizado).

Cabaré de vanguarda

Carmen Souza

Lina Nyberg por Jerper Frisk

Lisbon Freedom Unit por Vera Marmelo

Nils Berg Cinemascope

No dia seguinte, o Jazz ao Centro tem mais uma dupla sessão. O Auditório Municipal de Figueira da Foz abre as portas ao público mais jovem para apresentar o espectáculo didáctico O Jazz é Fixe, com Vânia Couto (voz, guitarra), João Mortágua (saxofones alto e soprano) e Alvaro Rosso (contrabaixo) a contarem a história do jazz e a mostrarem como se improvisa. Fantoches, danças e representação teatral contribuem para passar a mensagem. Num regresso à Casa das Artes de Miranda do Corvo, o festival apresenta a Lina Nyberg Band em formato de quarteto, com Cecilia Persson (piano), Josef Kallerdahl (contrabaixo) e Peter Danemo (bateria) a apoiarem a cantora sueca. Lina Nyberg apresentará o último tomo da sua trilogia sobre a humanidade e o mundo em que vivemos, um empreendimento ambicioso que juntou o seu grupo a uma big band de jazz (em “Sirenades”), um quarteto de cordas clássico (em “Aerials”) e, agora (“Terrestrial” é editado neste mesmo mês de Outubro), uma orquestra sinfónica, a NorrlandsOperan. Os críticos que já ouviram o novo duplo álbum descrevem-no como uma “ópera jazz”.

A adopção das características convencionais do chamado “vocal jazz” vem significando para a artista de Estocolmo um virar do avesso das suas coordenadas mais intocadas. Nyberg é mesmo um dos grandes exemplos de como o próprio “mainstream” pode incorporar expressões, elementos e técnicas habitualmente conotados com as vanguardas. Sem nunca perder identidade, o canto jazz desta contadora de histórias integra aspectos da livre-improvisação, da música erudita contemporânea, do art rock e do tropicalismo brasileiro. De tudo um pouco podemos encontrar nas suas canções: “scats”, envolvimentos de câmara, algo que nos remete para Caetano Veloso (podendo até ser alguma versão de um tema do dito), tramas conotáveis com a pop indie e explorações à maneira de Cathy Berberian podem fazer parte dos recursos vocais e composicionais de Lina Nyberg, constituindo aquilo que na revista online All About Jazz já foi descrito como “avant cabaret jazz”, numa «tangencial entre clubismo festivo e cançonetismo pós-punk».

A parte conimbricense do cartaz inicia-se a 20 de Outubro no Salão Brazil com uma prestação da Lisbon Freedom Unit. Tudo é possível acontecer com este noneto que, apesar de ser uma iniciativa do seu guitarrista, Luís Lopes, tem carácter colectivo, envolvendo algumas das mais destacadas figuras da música improvisada de Lisboa e entregando as decisões a todos os seus membros. A liberdade criativa é o grande conceito apresentado pelo projecto, com uma exploração dos próprios contrastes proporcionados por este princípio, como a articulação de um enquadramento do “tutti” por meio de massas contínuas de som com intervenções solísticas assumidamente idiomáticas. Poderemos ouvir, por exemplo, Rodrigo Amado (saxofones tenor e alto) a posicionar-se no legado do hard bop ou o já referido Lopes a tocar uma suave balada de registo “bluesy”. Outros intervenientes são Pedro Sousa (saxofones tenor e barítono), José Bruno Parrinha (clarinetes soprano e baixo, saxofones alto e soprano), Rodrigo Pinheiro (piano, piano eléctrico Fender Rhodes), Pedro Lopes (gira-discos, electrónica, percussão), Ricardo Jacinto (violoncelo, electrónica), Hernâni Faustino (contrabaixo, baixo eléctrico) e Gabriel Ferrandini (bateria, percussão).

A LFO identifica a sua ideia de liberdade com as considerações expostas em “O Elogio da Loucura” de Desiderius Erasmus, considerando estes músicos que a vida em sociedade continua a ser aquilo que o filósofo e teólogo da transição do século XV para o XVI suspeitava então, uma «comédia em que os actores, disfarçados com figurinos e máscaras, se movimentam e representam os seus papéis». É, pois, de uma teatralização musical dessa circunstância que se trata. Este é mais um de muitos projectos em que encontramos Luís Lopes, a par do Humanization 4tet, do Lisbon-Berlin Trio e dos Guillotine, e nele se aproveitam os muitos anos de cumplicidades cruzadas dos seus intervenientes. Amado é “sideman” nos Humanization, estão envolvidos todos os três membros do Red Trio, com Hernâni Faustino a fazer parte, igualmente, do Wire Quartet de Rodrigo Amado e Ferrandini do Motion Trio, também liderado pelo saxofonista. Por sua vez, Parrinha e Jacinto são parceiros de Lopes no trio cooperativo Garden, Sousa é metade do duo PeterGabriel, com Ferrandini, e Lopes pertence aos Eitr, com Sousa.

O dia 21 traz uma autêntica maratona de concertos, durante a tarde e entrando pela noite dentro, centrados no Convento de São Francisco, também em Coimbra. Primeiro actuam os Cinemascope do sueco Nils Berg, um trio que é, na realidade, um quarteto, pois junta os préstimos de um quarto elemento determinante para toda a música que se constrói: uma projecção vídeo. O saxofonista (tenor), clarinetista (baixo) e flautista vai ao Youtube procurar o que músicos amadores de todo o mundo lá colocam, cantando ou tocando um instrumento, e deriva a escrita para os seus Cinemascope a partir dessas canções, incluindo os originais na sua interpretação, via imagem e som. As origens desses videoclips de música popular e, em muitos casos, tradicional são as mais variadas, como a Índia, o Japão, o Bornéu, o Butão, o Texas ou a própria Suécia. A música que resulta não segue os parâmetros das fontes a que vai recorrendo: responde-lhes com uma visão do jazz caracteristicamente escandinava.

Discos dos Cinemascope como “Searching for Amazing Talent from Punjab”, de 2016, ou o anterior “Vocals” (2013) problematizam de forma inventiva e, em simultâneo, muito simples o conceito de pós-modernidade e de fácil disseminação da música pelo espaço virtual. Nos bastidores desta abordagem não está o dado adquirido de que entre um grupo de norte-europeus e um tocador africano de balafon pode haver coincidências quanto ao tratamento dos sons, e sim a perspectiva de que há diferenças incontornáveis e que são estas, precisamente, que propiciam um diálogo. Berg e os seus companheiros, Josef Kallerdahl (contrabaixo) e Christopher Cantillo (bateria), têm ainda outra particularidade: associam uma produção musical iminentemente acústica, sem efeitos ou ornamentações electronicamente induzidas, a um uso da tecnologia digital (via vídeo editado por computador). Na constante luta entre os factores humano e cibernético, este jazz decorrente da pesquisa de talentos anónimos em todo o mundo coloca em primeiro plano a humanidade, sem desdenhar as ferramentas actualmente ao dispor ou a realidade inventada pela integração planetária dos “softwares”. 

Fluxo e refluxo

João Camões por Tom Barreto 

Ambiq

Carlos Bica Azul

Segue-se no alinhamento o trio de João Camões (viola) com Gabriel Lemaire (clarinetes soprano e alto, saxofones alto e barítono) e Yves Arques (piano). O grupo decorre da recente estadia do primeiro em França, aí tendo estabelecido parcerias com vários músicos. É ainda consequência do estreitamento dos laços que vêm unindo alguns nomes das cenas de Coimbra e de Lisboa, como Marcelo dos Reis (companheiro de Camões no Open Field Trio) e Luís Vicente, ao Tricollectif, associação nascida em Orleans hoje também estabelecida na cidade de Paris, e muito especialmente a membros desta – os irmãos Théo e Valentin Ceccaldi, integrantes de grupos nascidos em Portugal como Chamber 4 e Deux Maisons. Militantes igualmente do Tricollectif, Lemaire e Arques vêm trabalhando em duo numa música integralmente improvisada que se sustenta numa perspectiva de movimento por fluxo e refluxo, como se pode ouvir no álbum “De l’eau la nuit”, de 2015. Nesta associação com Camões entregam-se a uma ampliação desses mesmos propósitos, com a música a adquirir contornos de câmara mais explícitos.

A improvisação do trio é duplamente polarizada: de um lado está um tratamento dos materiais sonoros considerados por si mesmos, pela via de uma exploração de harmónicos, microtonalidades ou abstracções texturais, e do outro está o velho contraponto “clássico”. O projecto teve o seu arranque em 2016 com uma residência artística e dois concertos em Coimbra, registados com vista a uma edição discográfica. Volta agora à Cidade Universitária, um ano volvido, para continuar a viagem então empreendida, uma viagem que as próprias tramas musicais percorrem e que contará com Alvaro Rosso como convidado. Durante esta, e como já se escreveu a propósito destes argonautas do som, enquanto fechamos os olhos podemos observar uma paisagem em constante mutação, sem conseguirmos perceber se a mesma provém da nossa imaginação ou se está inscrita na música. Quando os abrimos, temos a faculdade de também ver os viajantes.

Vez, depois, para os Ambiq de Max Loderbauer (sintetizadores modulares), Claudio Puntin (clarinete, electrónica) e Samuel Rohrer (bateria, percussão, electrónica). O alemão  (Loderbauer) é o mesmo que, com Ricardo Villalobos, fez inesperadas remisturas de temas da ECM retirados a discos de, por exemplo, John Abercrombie e Bennie Maupin, e os suíços são nomes que associamos a João Paulo Esteves da Silva, o clarinetista num passado ainda não distante do músico português e o baterista integrando o presente JPES Trio. O que o grupo apresenta é uma música electroacústica sustentada numa rítmica “groovy”, mas muito paisagística, derivando tanto do que vai acontecendo nas margens experimentais do techno quanto do jazz criativo. Uma música que é ambiental, mas imersiva, e assumidamente artificial na construção, apesar de orgânica. Alguma relação com os Weather Report pode ser detectada, mas tanto quanto a influência que também transparece de uns Tangerine Dream, fundadores do kosmische rock.

Uma improvisação dos Ambiq não flui, flutua. Adopta diversas densidades consoante as camadas de som se vão sobrepondo ou dissolvendo, umas vezes ganhando massa e em outras permitindo transparências. A sonoridade de conjunto é intencionalmente retro, reenviando-nos para a electrónica dos primórdios, aquela produzida por grandes máquinas modulares com fios pendurados. Por vezes, parece-nos ouvir a banda-sonora de um velho filme de ficção científica, mas com envolvências que são muito próprias deste início do século XXI. Loderbauer não é, nem nunca pretendeu ser, um músico de jazz. É um produtor de música de dança que também sabe tocar Bach e que absorve tudo aquilo que lhe chega aos ouvidos. Já Puntin tem o jazz no seu código genético, mas este idioma musical é apenas um entre vários que domina – enquanto compositor já escreveu para orquestra sinfónica e para grupos de instrumentos inventados e enquanto executante integrou tanto o Ensemble Modern como colaborou com Steve Reich e Hermeto Pascoal. O mesmo se pode dizer de Rohrer, que não só encontramos nos circuitos do jazz mais “straight” ou mais vanguardistas como a acompanhar Laurie Anderson.

A desfilada do Jazz ao Centro pelo Convento de São Francisco termina neste dia com os Azul de Carlos Bica. No rescaldo da edição de “More Than This”, o CD que assinala o 20º aniversário do grupo do contrabaixista e compositor português com o alemão Frank Mobus e o norte-americano Jim Black, encontramo-los naquela que talvez seja a sua melhor fase de sempre. Uma fase de maturidade que estes músicos estão a gerir como uma oportunidade de reinvenção de si mesmos e com o mesmo nível de entusiasmo e frescura que caracterizou o primeiro álbum do trio, “Azul”, há duas décadas. Mantêm-se as linhas definidoras, mas tudo surge agora como se fosse a primeira vez: o lirismo poético das melodias e a candura “folky” transmitida equilibrando-se com libertadoras interiorizações do rock e intrigantes jogos entre simplicidade e complexidade. Nos terrenos abertos por estes parâmetros exploram-se novas ideias e soluções.

Os temas que, seguramente, irão surgir no alinhamento durante o concerto cobrem uma larga variedade de situações, indo do bom-humor de “Skeleton Dance” à profundidade de “XY Ungelost”, com manifestações do gosto de Bica pelos formatos da música popular como “Silver Dagger” e “A Lã e a Neve”. Todos eles evidenciam, de qualquer modo, um mesmo tipo de abordagem: é como se as formas musicais fossem esculpidas em barro diante dos nossos ouvidos, continuamente em processo de gestação. As composições estão no papel, mas é a improvisação que as faz “acontecer”. Há algo de muito nosso, de Portugal, nas atmosferas criadas, mas em mesclas com o europeísmo jazzístico de Mobus (líder de uma formação que definiu todo um estilo, Der Rote Bereich) e o “beat” pós-“downtown” de Black (mentor de bandas como Pachora, AlasNoAxis e Human Feel, para além de participante fundamental em criações de Ellery Eskelin, Dave Douglas, Tim Berne e Uri Caine), beneficiando do virtuosismo dos três instrumentistas sem que alguma vez o mesmo se torne exibicionista. Enquanto tudo isto ocorre, o Convento de São Francisco acolhe a apresentação das conclusões a que João Mortágua e o trompetista Ricardo Formoso chegarão com a Orquestra de Jazz do Centro de Artes e do Espectáculo da Figueira da Foz, após um “workshop” conduzido pelos próprios.

Clima de brincadeira

Quartabê 

Marcelo D2

Sei Miguel por Vera Marmelo

Já de madrugada, mas no Salão Brazil, mais uma proposta para o dia 21: Quartabê, um caso à parte surgido nos meandros do chamado “jazz brasileiro”. O grupo foi criado para uma participação, em 2014, no Festival Moacir Santos, com o desafio de interpretar as composições daquela figura cimeira da MPB, e mestre de nomes como Baden Powell e Sérgio Mendes, de outras formas que não as habituais. Os desempenhos têm puxado os temas para situações referenciáveis no free jazz escandinavo, no afrobeat, na pop electrónica e numa boa dose de experimentalismo, com metodologias como a colagem, a citação ou a sobreposição de elementos. Sobre este “work-in-progress” a Imprensa do Rio de Janeiro escreveu isto: «A banda toca o maestro calmamente. Até a primeira folha de caderno ser lançada no ar, claro. Fanfarrões, brincam dentro das músicas. Jogam o Jogo da Amarelinha do Cortázar. Aí você percebe que são novas bocas tocando Moacir. Novos olhares lendo Moacir, tocando ele. Nele.» Neste caminho, o agora quarteto (começou por ter cinco elementos) apenas desviou a atenção para interpretar Brad Mehldau, Tony Allen e George Gershwin com os mesmos procedimentos, mas anuncia um disco para breve em que outra luminária da música brasileira será objecto deste processo de decomposição.

Bastaria esta releitura atrevida do património musical do Brasil para marcar a singularidade dos Quartabê, mas há mais a referir: três dos seus quatro membros são mulheres, vindas de outra formação que tem dado que falar, Claras e Crocodilos. Todas elas têm uma aparência física andrógina, em desafio aos preconceitos anti-LGBTQ que grassam no outro lado do Atlântico, com assassinatos de pessoas transgénero, obstáculos à liberdade de expressão e campanhas a garantir que “ser viado tem cura” («Deus me livre, a essa altura da minha vida, eu deixar de ser gay. Tenho nem roupa para isso», comenta Mariá “Má” Portugal no Instagram), e todas tocam instrumentos que a hegemonia masculina na música tornou seus, como o saxofone tenor (Joana “Jojô” Queiroz), o clarinete (JoJô e Maria “Mia” Bastos) e a bateria (Má). Os “femininos” teclados estão a cargo de Chicão, um “bear” de longas barbas coloridas. De referir, ainda, que o lado performativo de um concerto Quartabê é de grande impacto, com trajes de cena, coreografias para as danças e todo um desempenho festivo. «Nosso clima é de brincadeira, de diversão, de experimentação, um clima lúdico», dizem a propósito.

Depois de um pequeno intervalo, o festival regressa a 26 de Outubro, no Convento de São Francisco, com outra formação do Brasil, Marcelo D2 & Samba Drive. Do encontro entre um “rapper” (Marcelo D2) que na sua música foi sempre espalhando o samba-jazz que ouvia de gente como Milton Banana, Eumir Deodato, Zimbo Trio e Marcos Vale e de um grupo (SambaDrive) que, precisamente, pratica este estilo (nele incluindo um pianista radicado em Portugal, Pablo Lapidusas), só podia surgir um “mix” de hip-hop e jazz com rítmica sambista. Tudo começou com uma “jam-session” em casa de Marcelo D2 no Rio de Janeiro faz uma dezena de anos. Se o samba jazzificado das décadas de 1950 e 60 que este ia samplando nos seus temas tinham antes um envolvimento necessariamente electrónico, agora, com o trio rítmico do jazz, acústico e formado por piano, contrabaixo e bateria, é como se pudesse estar mais próximo dessas referências e, ao mesmo tempo, actualizá-las.

Longe parecem estar os tempos da banda Planet Hemp e das parcerias com um especialista do beatbox, Fernandinho, em que apelava à discriminação da maconha (“D2” é a designação na gíria brasileira para o costume de dar duas tragadas seguidas num charro) e à liberdade de expressão, mas o essencial continua na sua voz, com versos como «Comecei a pensar / Que eu me organizando / Posso desorganizar» ou «O incomodado que se mude / Eu tô aqui pra incomodar». Do outro lado, o dos SambaDrive, há outros trunfos. Logo para começar os de Lapidusas, um virtuoso que logo no seu álbum de estreia (“Ouriço”, 2008) teve como músico convidado nem mais nem menos do que Hermeto Pascoal. Nascido em Buenos Aires, mas com a juventude passada no Brasil, a música pedida por este outro tipo de fusão não podia ser melhor servida do que pelo seu nervoso e híper-activo par de mãos. Por sua vez, Mauro Berman é um baixista camaleão com tentações “funky” e um enorme manancial de argumentos e o baterista Lourenço Monteiro está tão à vontade a marcar os ritmos das Terras de Santa Cruz como a balançar o hip-hop, a “riffar” à maneira do rock ou a dar um espectáculo de “swing”. Juntos, estes três são um perigo, e é por isso que Marcelo D2 os tem consigo.

A partir do final da tarde do dia que se segue muita animação vai haver em vários locais da Baixa de Coimbra. Os PeterGabriel têm intervenção marcada para o Colégio da Graça – é esse o nome irónico (em alusão ao vocalista dos antigos Genesis) dado à dupla formada por Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini que repete a combinação instrumental de John Coltrane e Rashied Ali, com saxofone e bateria, num contexto tendencialmente brutalista e noise. Os Alforjs de Mestre André (saxofone tenor, electrónica), Bernardo Álvares (contrabaixo) e Raphael Soares (bateria) vão ao Colégio do Espírito Santo com a sua música ritualística e de alusões ao vudu e uma curiosa combinação de aspectos do jazz, do psicadelismo e do ambientalismo experimental. O quarteto de Sei Miguel, com o veterano trompetista acompanhado por Fala Mariam no trombone alto, Bruno Silva em guitarra (que não os “samplers” que utiliza quando adopta o nome Ondness) e Pedro Castello Lopes em percussão, vai ao Hotel Astória tocar o seu jazz mutante tão inspirado em Chet Baker quanto em John Cage. Na sua presente encarnação com Albert Cirera (saxofones tenor e soprano), Luís Vicente (trompete), Marcelo dos Reis (guitarra eléctrica), José Miguel Pereira (contrabaixo) e Marco Franco (bateria), os Fail Better! darão um salto até ao Centro de Artes Visuais para um momento de música integralmente improvisada em que tanto o jazz como o rock se fazem sentir.

Mais à noite, no Salão Brazil, uma nova encarnação de Lapidusas, desta vez com o International Trio (ou, mais exactamente, os PLINT), completado pelo cubano Leo Espinosa e pelo brasileiro Marcelo Araújo, respectivamente em baixo eléctrico e bateria. Este seu outro investimento tem uma confecção assumidamente latino-americana, traçando uma tangente de perspectivas do jazz que, além dos factores musicais retirados aos patrimónios sonoros da Argentina, do Brasil e de Cuba, enraíza o muito fundamental papel do ritmo no continente africano. Daí que o grupo tenha, aliás, como carta de apresentação o DVD “Live in Johannesburg”, fruto de uma digressão que o levou a Moçambique e à África do Sul. Destreza, inesperadas mudanças de direcção e um intrincado jogo de luzes e sombras caracterizam esta proposta. Radicado em Espanha, Espinosa tem feito uma carreira intensa com nomes como Buíka, Lura, Stewart Sukuma e Ivan Lins, e deixou já marcas no nosso país, em iniciativas como Fado Cubano e Pintura Fresca. Araújo vive em Portugal e é parte importante da cena nacional do jazz, e não só, trabalhando tanto com outros músicos cá emigrados, como Samuel Lercher e Victor Zamora, como com valores da nova geração, entre eles se destacando João Barradas e André Murraças. 

Multiplicação de cores

Peter Evans 

Norberto Lobo por Vera Marmelo

A noite de 28 de Outubro, última do Jazz ao Centro deste ano, cumpre-se com uma ida ao Conservatório de Música de Coimbra para ouvir o Peter Evans Ensemble e o seu novíssimo projecto, ainda por colocar em disco: “Action / Metempsychosis”, anunciado como a continuação de “Destination: Void”, um daqueles álbuns que marcaram os rumos do jazz na parte que já percorremos do terceiro milénio. No grupo encontramos alguns nomes-chave nos seus respectivos instrumentos como Sam Pluta (electrónica), Tom Blancarte (baixo eléctrico) e o repetente Jim Black a juntarem-se àquele que é considerado um dos mais completos e audazes trompetistas da actualidade. Espera-nos um jazz acentuadamente camerístico (condição acentuada pelo violino de Mazz Swift), no que tal implica em termos da importação de aspectos da new music norte-americana e da música erudita contemporânea europeia, se bem que denotando o cada vez mais orquestral pensamento de Evans, em termos tímbricos e de multiplicação de cores – tanto assim que mesmo alguns dos instrumentistas acústicos recorrem a dispositivos electrónicos, casos de Ron Stabinsky (piano), Levy Lorenzo (percussão) e do já referido Black.

As composições vêm no seguimento da história do jazz, mas mantêm íntegra a identidade do mesmo e a experimentação, mediante o uso de técnicas alternativas e inovadoras, é mais instrumental do que idiomática e mais técnica do que estética. As pesquisas realizadas por Evans dos limites físicos do trompete não colocam em causa esta linguagem musical: abrem-lhe mais perspectivas. Inclusive quando o músico parece regressar a um estado anterior à própria musicalidade, lidando directamente com a elementaridade do som e das suas propriedades. No meio disto, o músico que já colaborou com o português Rodrigo Amado e o seu Motion Trio problematiza as clássicas relações entre escrita e improvisação no jazz. Se algumas das suas partituras se fecham sobre si próprias, com uma densidade de motivos interpretativos que lembra Anthony Braxton, outros momentos são integralmente entregues à espontaneidade criativa. Estas duas vias apenas definem, no entanto, os extremos daquilo que o grupo se propõe fazer: reinventar as formas de relacionação do que é previamente estruturado com o que surge no imediato das situações, neste campo de possibilidades incluindo o uso da improvisação como uma ferramenta de composição, um pouco como acontece na dança e no teatro.

O fecho faz-se com uma ida ao Salão Brazil para assistir ao trabalho que o guitarrista Norberto Lobo tem vindo a desenvolver na sua residência artística na ZDB, em Lisboa, juntamente com Yaw Tembe (trompete, electrónica), Ricardo Jacinto e Marco Franco, ambos em mais uma aparição no festival. A música descola da relação pessoal que Lobo tem com a guitarra (acústica), tendo fundamento nos exemplos da “weird folk” que lhe chegam de John Fahey, Robbie Basho e Jack Rose. Tanto assim que neste contexto, à semelhança daquele que partilha com João Lobo, Giovanni Di Domenico e outros parceiros com o nome Oba Loba, o seu instrumento é a guitarra eléctrica. O inconformismo que o músico já revelava tanto no seu percurso a solo como nas associações com Sei Miguel e David Maranha explica também o convite às personalidades da música criativa portuguesa com que agora o encontramos, cada uma a seu modo funcionando como mediadoras da sua constante busca de algo mais.

Músico suazi radicado na capital portuguesa, Yaw Tembe tem como referência as dedicações ao jazz livre, à música improvisada e a projectos que de alguma maneira reproduzem as suas origens africanas, como os tribais Zarabatana e os espaciais Sirius. Por sua vez, interessa a Lobo o que Ricardo Jacinto vem realizando numa abordagem que alia o experimentalismo e a improvisação em grupos como The Selva e Pinkdraft ou em colaborações sob a égide de Erik Satie com Joana Gama e Luís Fernandes. Do baterista Marco Franco aproveita a extrema flexibilidade, testemunhada pelo que vai, ou foi, fazendo na “free improv” dos Clocks and Clouds, no pós-rock dos Memória de Peixe e no lounge-jazz dos Mikado Lab. Com esta companhia, Norberto Lobo quis testar a capacidade para, em conjunto, tocarem canções instrumentais. Canções simples (as mais difíceis, na verdade), orelhudas, de curta duração, com melodias e ritmos-tipo que julgamos reconhecer das músicas do mundo, mas não sabemos especificamente de onde. Ao deixar-se contaminar pelos três outros músicos, ele desafia-os a desviarem-se dos seus respectivos cursos, porque sabe à partida que o risco era já a sua, deles, predisposição.

Ainda de referir que o Jazz ao Centro deste ano inclui outra oficina com uma filarmónica, a Fraternidade de Poiares, esta protagonizada pelo trombonista Eduardo Lála, membro do LUME e formador-condutor do GeraJazz, o ensemble de jazz da Orquestra Geração. Durante o festival estará aberta ao público, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a exposição bibliográfica “Histórias do Jazz”, com base no repositório aí dedicado a este género musical. No dia 20 tem lugar no mesmo espaço a palestra “Estórias da História do Jazz em Portugal”, pelo autor do presente texto.

 

Para saber mais

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