Guimarães Jazz, 8 de Outubro de 2018

Guimarães Jazz

Soul music para o século XXI

texto Gonçalo Falcão

Vem aí uma nova edição do festival de Guimarães, com um supergrupo liderado por Dave Douglas e a Mingus Big Band (foto acima) como cabeças-de-cartaz e um programa que privilegia os músicos jovens e com práticas menos coincidentes com os padrões. É hora de fazer as malas e ouvir a música que faz a alma destes dias.

Novembro está à porta e é o mês de fazer as malas para ir a Guimarães: regressamos nós e o festival de jazz a uma das cidades mais bonitas da Europa. Em 2018, o evento diz que quer «olhar o jazz de fora para dentro», o que, nas palavras da organização, significa «explorar geografias alternativas», «divulgar o trabalho de músicos jovens», «dar espaço a músicos mais próximos da música contemporânea» e a «músicos menos mediáticos». A edição de 2018 traz uma novidade assinalável: muda o modelo tradicional de dois fins-de-semana para passar a 13 dias consecutivos de música. Más notícias para quem vem de fora e já não tem dias de férias para gastar / boas notícias para os vimaranenses e para a música. O destaque vai inevitavelmente para dois concertos: Dave Douglas e a Mingus Big Band, ambos na segunda semana.

8 de Novembro: Afro

Lionel Loueke

É quinta-feira e começa o Guimarães Jazz. Abre com um nome histórico do jazz americano e o seu quarteto. Apesar de este grupo ter gravado em 2016, após uma digressão que serviu para trabalhar e rotinar a música, confesso não ter prestado a devida atenção ao projecto que tocará ao vivo (as capas sempre de baixa qualidade e as oscilações de categoria na música propiciam um desinteresse pela Dare2 Records, de Dave Holland). O grupo chama-se AZIZA e a sua música tem um enorme sabor africano, com a guitarra de Lionel Loueke a liderar e a impor uma lógica dançável, rítmica, o contrabaixo de Holland quase parecendo um balafon, afro-melodias (das que vão e voltam) no saxofone de Chris Potter e uma secção rítmica infernal com Eric Harland.

9 de Novembro: Conservatorial

Pablo Held Trio

Na primeira sexta-feira temos dois concertos: ao fim da tarde toca o trompetista Marquis Hill, de Chicago. Virá em quinteto com saxofone, vibrafone, contrabaixo e bateria. A música anunciada é o segundo volume de “Modern Flows”, gravado em 2014, que toca um bop simpático com um som actualizado, alguma batida e vocalizações em modo rap.

Já à noite a música é outra e vem da Alemanha, um país curioso para o jazz. Com uma quantidade imensa de cidadãos com formação musical, bons executantes e editoras ricas, para além de apoios para a internacionalização da música, não tem sido capaz de dar ao mundo grandes novidades. Tem excelentes editoras de jazz (ex: ECM, MPS, Act), bons festivais (JazzFest Berlin, Total Music Meeting, Jazzahead! Bremen), mas músicos... há bons, alguns muito bons, mas é difícil falar de notáveis. É por isso que valerá a pena ir na mesma noite ao Grande Auditório: com pouco mais de 30 anos, o pianista Pablo Held, já com dez discos editados em nome próprio, é um desconhecido em Portugal. Apanhamos a 25º actuação da “tournée” europeia do seu trio (contrabaixo e bateria), que começou a 27 de Setembro e que se centrará na música do seu último disco, “Investigations”(2018). Tal como o primeiro concerto, estaremos sob a jurisdição tradicionalista, bem escrita e tocada, de emoções contidas e muito lirismo.

10 de Novembro: Funkytown

Steven Bernstein 

Esquecemo-nos (alguns de nós, mea culpa) de Steven Bernstein nos anos 1990. Na altura era excelente e hoje continua assim. O problema foi nosso, que não o acompanhámos. Ouvimo-lo o ano passado com Nels Cline e também com os Mostly Other People Do The Killing e relembramos como este americano é um dos grandes. A Millennial Territory Orchestra, de Bernstein, toca pérolas esquecidas das orquestras de jazz dos anos 1920 e 30 (e arranjos de temas de Funkadelic e Stevie Wonder, por exemplo, ou não tivesse Bernstein sempre colaborado com músicos pop). Nos temas gravados chega à patifaria de ter Bernie Worrell (vénia, vénia, vénia) no baixo eléctrico. Vai ser uma noite muito afunkalhada com 10 músicos em palco. 

11 de Novembro: Big Bands

 Marquis Hill

Chega o Domingo com duas propostas musicais: uma para a tarde e outra para a noite. Às 17h00 a Big Band e o Ensemble de Cordas da ESMAE, que tem colaborado regularmente com o Guimarães Jazz numa aposta do festival nas novas gerações e na formação. Este tem deixado muito mais do que a memória de bons concertos ao longo dos anos. Tem tocado a vontade de ser e fazer de muitos jovens que, em todas as edições, são orientados por músicos profissionais que ficam em residência em Guimarães para trabalhar com estes projectos. Em 2018 a tarefa caberá ao trompetista Marquis Hill e ao contrabaixista Matt Ulery que, além do concerto com o projeto Delicate Charms no último dia (já lá iremos), trarão o ar de Chicago para a orientação vimarenense. À noite, mais uma edição da parceria, que também já se tornou habitual, entre o colectivo Porta-Jazz e o Guimarães Jazz. Este ano a proposta eleita foi a do quarteto de João Grilo, Simon Olderskog Albertsen, Christian Meaas Svendsen e José Soares, com a intervenção videográfica de Miguel C. Tavares. 

12 de Novembro: Jazz europeu

David Helbock Trio 

Ao contrário do que tem sido habitual, este ano o festival não pára e como o calendário também não, logo no dia seguinte ouviremos o pianista austríaco David Helbock, que vem com o seu trio de tuba (e trompete) e saxofone soprano (e saxofone tenor, clarinetes, flauta). Revisões de hard bop com arranjos originais. 

13 de Novembro: Acordeão

 João Barradas

O Guimarães Jazz é um festival que sempre gostou dos músicos portugueses. É neste contexto que, na terça-feira, tocará mais um notável “jazzman” luso, o acordeonista João Barradas. O seu instrumento sempre encaixou de modos estranhos na linguagem jazzística e Barradas anda à procura de uma música própria em que o dito funcione. Essa procura é hoje reconhecida na Europa, estando o jovem acordeonista num momento alto da sua carreira. Subirá ao palco em quarteto, com contrabaixo, bateria e um destaque especial para o saxofonista Greg Osby. O soprador americano já foi uma estrela nos anos 1990, quando começou a gravar para a Blue Note, e é ainda hoje um músico incrível que oscila entre o free jazz e o funk matemático da M-Base de Steve Coleman. 

14 de Novembro: Brasil

Léa Freire 

Na quarta-feira surge uma proposta suave, a de ouvir o quarteto de Léa Freire a tocar canções brasileiras. A flautista virá acompanhada do seu quarteto, a que se juntará a Orquestra de Guimarães, dirigida por Filipe Senna. Freire começou a gravar como líder em 1997 e tem hoje uma carreira no jazz brasileiro. 

15 de Novembro: Acção positiva

Dave Douglas 

Dave Douglas vem regularmente a Portugal (ainda em Agosto o ouvimos em serviços mínimos na Gulbenkian) e por isso este concerto seria apenas mais um se não juntasse um grupo cósmico. O trompetista virá em sexteto com uma máquina jazzística infernal: Bill Laswell (no contrabaixo, diz a organização, será possível?), Jon Irabagon nos saxofones (substituindo Joe Lovano, que gravou o disco), os guitarristas Rafiq Bhatia (no disco é Julian Lage) e Mary Halvorson e Ches Smith (no disco é Iang Chang) na bateria. O álbum “Uplift” estará na base deste concerto, juntando 12 peças “for positive action in 2018”, numa reacção pela positiva ao que vai acontecendo na América de Trump. Para Douglas, 2018 é um ano decisivo para a história da igualdade e da democracia e nesse sentido as peças são um lembrete para nos mantermos positivos, activos e empenhados.

Esperamos que a mensagem frutifique em Guimarães e que possa espalhar-se, porque a desgraça não se ficou pelos Estados Unidos. Na América do Sul ganhou na primeira volta das presidenciais brasileiras um candidato que defende a esterilização dos pobres. Os temas para os quais Douglas propõe uma acção positiva, uma para cada mês de 2018, são o direito de voto, a igualdade racial, os direitos das mulheres, os direitos LGBT, o acolhimento de emigrantes, o direito à saúde, à ciência, à educação e à cultura, a regulamentação da posse de armas, o amor ao ambiente e ao próximo, a paz.

16 de Novembro: Jazz israelita

Avishai Cohen 

Sexta-feira ouviremos o quarteto do israelita Avishai Cohen (não confundir com o contrabaixista do mesmo nome que faz canções melosas). Trompete, piano, contrabaixo e bateria, uma formação clássica para uma música ortodoxa. Mortalmente prático, o trompete de Cohen toca de forma muito milesdaviana, sintética e melódica.

17 de Novembro: Pequenas e grandes bandas

 Matt Ulery

Antes de chegar o último dia do festival, o trompetista Marquis Hill e o contrabaixista Matt Ulery estarão em residência a orientar as oficinas de jazz e as “jam sessions” que acontecem quase todas as noites após os concertos. A 17 tocam à tarde com a sua formação, os Matt Ulery's Delicate Charms, com violino, saxofone, piano, bateria e, claro, o contrabaixo compositor. Será o aquecimento para o concerto da noite que, como é tradicional, apresenta uma “big band”, a terceira este ano. Esta é uma das grandes tradições do Guimarães Jazz, o encerramento com uma formação alargada, premiando o esforço e a coragem dos músicos que ainda conseguem manter projectos de grande escala em funcionamento. Nem sempre tem sido possível apresentar orquestras que sejam mesmo “big” ou que tenham a qualidade que uma “band” que toca em Guimarães deve ter, mas este ano a aposta é demolidora: a Mingus Big Band.

O grupo radicado em Nova Iorque especializou-se na execução das composições de Charles Mingus e é gerido pela sua viúva, Sue Mingus (tal como a Mingus Orchestra e a Mingus Dynasty). A “big band” toca todas as semanas, às segundas-feiras, no Jazz Standard (NY) e viaja com frequência. A presença em palco desta banda mítica será certamente um momento histórico marcante para o festival. Mingus foi um dos nomes mais importantes do jazz e da música do século XX e esta celebração será muito mais do que uma revisitação: será “soul music” para o século XXI.

 

Para saber mais

http://www.ccvf.pt/conteudo.php?id=20&cat=&prog=5&on=false&evento=5094