Jon Hassell, 6 de Abril de 2013

Jon Hassell

Homenagem mediterrânica

texto Nuno Catarino

O trompetista prestou homenagem à dupla Gil Evans / Miles Davis num concerto no Maria Matos em que a referência a “Sketches of Spain” foi pouco óbvia, mas teve a aprovação da plateia.

Em Outubro de 2009 o trompetista Jon Hassell actuou pela primeira vez em Portugal, no Teatro Maria Matos, perante uma plateia esgotada. Três anos e meio depois o americano regressou ao mesmo local e, embora desta vez a bilheteira não tenha obtido o pleno, registou-se uma boa casa.

Se nessa primeira apresentação ao vivo Hassell veio acompanhado do seu grupo Maarifa Street, desta vez anunciava-se a celebração da música de Gil Evans, e a sua parceria com Miles Davis, com o espectáculo “Sketches of the Mediterranean”.

Tal como Miles fez história ao trabalhar a fusão de diversos estilos, Jon Hassell notabilizou-se ao criar o seu próprio universo sonoro, combinando jazz, música ambiental e as chamadas “músicas do mundo” numa nova categoria, “fourth world”.

Para o concerto no Maria Matos, e evocando directamente o próprio título do clássico “Sketches of Spain”, Hassell (acrescentando a electrónica ao seu instrumento) teve a companhia de Rick Cox (guitarra), Michael Benita (contrabaixo) e Kheir Eddine M’Kachiche (violino).

Matriz atmosférica

O grupo explorou peças longas, marcadas por fundos sonoros de samples pré-gravados, que se iam repetindo infinitamente em “loop” enquanto os instrumentos surgiam, alternadamente acrescentando ideias e interagindo.

Se na primeira peça o sample de fundo consistia em ritmos criados por tablas indianas, esses ambientes foram sendo mais diversificados nos temas seguintes, funcionando quase sempre como matriz atmosférica, sobre as quais os músicos trabalhavam, juntando novas camadas e texturas.

Se há nesta música uma ligação directa à toada paisagística típica do catálogo ECM, o violino acrescentou-lhe elementos arábicos e orientais, incrementando uma nova dimensão docemente hipnótica. O contrabaixo, com um som muito forte, acabava por ser um elemento central, funcionando como uma espécie de pêndulo, uma referência constante.

Uma incomparável originalidade

 Kheir Eddine M’Kachiche

A prometida evocação de “Sketches of Spain” e dos trabalhos da dupla Evans/Davis acabou por não ser óbvia, resumindo-se a algumas pontuais citações do trompete (ou seria o nosso cérebro, condicionado, a querer fazer a ligação?) e a alguns dos samples pré-gravados (especialmente excertos de secções de cordas) que podem ter sido sacados dos discos.

Independentemente do vínculo à prometida celebração de Gil Evans, a música de Jon Hassell vale por si própria e pela sua incomparável originalidade, que tem influenciado gerações de músicos ao longo dos anos, dentro e (sobretudo) fora do jazz.

O forte aplauso com que Hassell foi presenteado no final, e que obrigou os músicos a regressar para um “encore”, foi a prova disso mesmo.