Brad Mehldau / Mark Guiliana, 6 de Abril de 2013

Brad Mehldau / Mark Guiliana

Mehliana em Belém

texto António Branco

O ás do teclado negro e branco deixou o piano e entregou-se a explorações eletrónicas com complemento de bateria. Os resultados foram desiguais.

Devo confessar, à guisa de declaração prévia, que relevo artisticamente as manobras de fuga aos ambientes confortáveis e de escape a terrenos caros à consagração apriorística.

Foi esta ideia de transgressão o principal magneto que me atraiu, na noite de 27 de março, ao grande auditório do Centro Cultural de Belém, para escutar o projeto Mehliana, duo híbrido concretizado no verão de 2011 que junta Brad Mehldau, aqui a explorar sonoridades diferentes daquelas que o têm guindado ao firmamento de um jazz bemposto, ao virtuoso baterista Mark Guiliana, nome que conhecemos, entre outras, por via da sua associação a Meshell Ndegeocello.

Mehldau deixou o piano de cauda, ligou-se à corrente e muniu-se (pela primeira vez ao vivo) de um Fender Rhodes e de uma parafernália de sintetizadores para se entregar a divagações eletrónicas de matizes diversas, complementadas pelas teias rítmicas urdidas por Guiliana.

Quase livremente

Os resultados acabaram por se revelar de interesse desigual. Sentados frente a frente a meio do palco, Mehldau e Guiliana compilaram e processaram quase livremente (foi notório que havia ideias previamente gizadas, ainda que não composições acabadas) um vasto conjunto de referências.

Desde reminiscências das longas deambulações improvisadas jazz-rock na viragem dos sessentas para os setentas (o Rhodes a isso se presta) até formulações de certa pop atmosférica (a música dos franceses Air por mais de uma vez me veio à mente), passando por laivos de certo rock progressivo e de um “groove” robótico de travo “vintage”.

Nos melhores momentos, Mehldau soube gerar várias camadas sonoras (notável o seu trabalho de desmultiplicação pelos vários teclados) que se entrelaçavam em espirais hipnóticas, com o frenético suporte rítmico engendrado por Guiliana, muitas vezes aproximando-se de complexas pulsações drum ´n´ bass.

Parte certa

 Brad Mehldau e Mark Guiliana

Outros houve, porém, em que a dupla pareceu enredar-se no seu próprio processo construtivo, não conseguindo dar o melhor desenvolvimento às ideias de base, por vezes esticando-as mesmo em demasia, exaurindo-as.

Claro que o forte apelo harmónico e melódico que habitualmente emana da abordagem de Mehldau não partiu para parte incerta, mas o músico norte-americano esteve claramente melhor quando foi mais audaz e expansivo.

Pouco comunicativo, não se dirigiu uma única vez a um público que, tal como tem vindo a ser hábito ao longo dos anos, não regateou aplausos e pediu dois “encores”.