Ciclo de Jazz da Amadora, 6 de Abril de 2013

Ciclo de Jazz da Amadora

Montra nacional

texto Rui Eduardo Paes

Já confirmado no panorama dos festivais de jazz portugueses, o ciclo da Amadora levou em Março à cidade valores consagrados e emergentes como Lokomotiv, IntErLúNio e a dupla Luís Vicente/Jari Marjamaki com as suas muito diferentes propostas. E lá estiveram, também, os miúdos da Gera Jazz…

Concebido como uma mostra do que vai acontecendo nos domínios do jazz em Portugal, o programa do Ciclo de Jazz da Amadora teve no passado mês de Março a sua terceira edição seguindo duas lógicas inclusivas: apresentar projectos consagrados e valores em emergência.

Foi assim que, se o prato forte consistiu na apresentação dos Lokomotiv de Carlos Barretto com Mário Delgado e José Salgueiro, que já passou o marco dos 15 anos de existência, nos Recreios da Amadora também tiveram oportunidade de tocar os IntErLúNio, com Ricardo A. Freitas como autor das composições e ao comando das operações desta invulgar formação que inclui tablas, instrumento de percussão indiano que se toca com a ponta dos dedos, e o duo constituído por Luís Vicente no trompete e pelas electrónicas do finlandês, mas residente em Lisboa, Jari Marjamaki.

Também as crianças foram contempladas, o que não é habitual num evento do género. Primeiro com a Oficina de Jazz para Miúdos, animada por Maria Morbey e José Soares, com a participação de alunos do primeiro e do segundo ciclos, e finalmente com um concerto do Gera Jazz, ensemble derivado da clássica Orquestra Geração formado por jovens de bairros sociais que estão a estudar na Escola de Jazz do Hot Clube.

Ainda a dar os primeiros passos na aprendizagem do jazz, mas com um empenho e uma audácia interpretativa dignos de nota, o Gera Jazz atirou-se a um repertório que não é propriamente o dos “standards” mais vulgares e fáceis. Temas de Art Blakey, Herbie Hancock, Dizzy Gillespie, Jaco Pastorius e da dupla Bobby e Shirley Womack foram revistos com a honestidade e a generosidade de quem está a descobrir um mundo novo e quer demonstrar aquilo de que já é capaz. Foi, necessariamente, um momento alto do ciclo, até porque, quem sabe, podem ali ter estado alguns dos futuros músicos de jazz deste país.

Experiência e descontracção

O trio Lokomotiv evidenciou, mais uma vez, o seu estatuto de grupo de palco. Barretto, Delgado e Salgueiro são improvisadores natos com longas experiências em situações ao vivo, retirando das reacções do público o ânimo para uma mais rica exploração das suas respectivas criatividades. Foi uma excelente actuação, viva, calorosa e com uma especial desenvoltura. A música soou sempre descontraída, descomplicando as por vezes intrincadas estruturas daquele que é um dos nossos mais importantes contrabaixistas, caracterizadas pelas suas súbitas mudanças de direcção e por sincronismos a três que não admitem falhas.

Agitadas no plano rítmico, com um “groove” e um “swing” implacáveis que em tudo dependiam da integração e da interacção do contrabaixo de Carlos Barretto e da bateria de José Salgueiro, as peças retiradas, sobretudo, do álbum “Labirintos” tiveram também na atenção à melodia uma forte cartada, com o guitarrista Mário Delgado em constante desconstrução dos fraseados, recorrendo a uma série de dispositivos electrónicos.

No final, foram ovacionados de pé pela assistência, agradada com o jazz actual, fresco e com influências do funk e do rock que lhe tinha sido oferecido. Muito diferente foi a receita apresentada pelos IntErLúNio, ainda no rescaldo da edição do CD “L’Ennui Riot”, mas igualmente com a adesão da plateia. Com um pendor mais camerístico e um toque étnico, o quinteto liderado pelo guitarrista baixo Ricardo A. Freitas com Eduardo Lála no trombone, Johannes Krieger no trompete, Gonçalo Lopes nos clarinetes baixo e soprano e Raimund Engelhardt na percussão articulou de forma mais intimista, e mais acústica, o rigor da leitura das partituras e a liberdade dos improvisos.

Contrastes

Luís Vicente

Se os Lokomotiv tinham conquistado o público pela intensidade performativa, os IntErLúNio seduziram-no com a originalidade da fórmula. O mesmo se poderá dizer da prestação de Luís Vicente e Jari Marjamaki: não é propriamente habitual cruzarem-se as sonoridades trompetísticas com as do computador, de um teclado MIDI e de outros dispositivos digitais. Embora fossem claras as referências em Arve Henriksen, Nils Petter Molvaer e Jon Hassell, a abordagem do trompete era de inspiração incomparavelmente mais free jazz e mais hard bop, enquanto a electrónica hesitava entre o ambientalismo e o “beat”.

As funções dos dois protagonistas estavam bem repartidas: Vicente foi mais abstracto, poucas vezes recorrendo a figuras melódicas (e estas quando surgiam eram subtis e de alusão magrebiana), e Marjamaki tendia para um contrastante encadeamento de pulsações definidas. Sem conflitos nem particulares tensões, resultando numa fruição contemplativa e prazenteira, ajudada pelas imagens vídeo projectadas no fundo.

Saldo, pois, muito positivo para esta terceira entrada do jazz no espaço cultural da Câmara Municipal da Amadora, fazendo os presentes ansiar pela próxima edição.