Rodrigo Amado Motion Trio & Peter Evans, 6 de Abril de 2013

Rodrigo Amado Motion Trio & Peter Evans

Palmas e cornucópias

texto Nuno Catarino fotografia Nuno Martins

Depois da parceria com Jeb Bishop, o trio do saxofonista português estreou no Teatro Maria Matos com sucesso outra com o mais aclamado trompetista americano da actualidade. Espera-se disco deste encontro…

O Motion Trio vem trilhando um percurso singular. Após o homónimo disco de estreia seguiram-se dois álbuns (um gravado ao vivo, outro em estúdio) com um convidado, o trombonista Jeb Bishop. Agora, o trio luso aventura-se numa parceria com um outro convidado especialíssimo, o trompetista Peter Evans.

O Teatro Maria Matos, em Lisboa, testemunhou em Março passado o primeiro encontro entre o trio liderado por Rodrigo Amado e o aplaudido trompetista norte-americano, uma união que se prevê que seja gravada para futura edição.

Evans tem estabelecido uma forte ligação com Portugal nos últimos anos, tendo actuado ao vivo por diversas vezes com diferentes formações (a solo, com o seu quarteto e com o grupo Mostly Other People Do the Killing) e até já gravou dois discos ao vivo, editados pela Clean Feed. Esta colaboração com o Motion Trio vem agora fortalecer ainda mais essa relação.

Matriz coesa

O Maria Matos apresentou uma plateia bastante composta para assistir à estreia mundial desta parceria luso-americana. Com Amado no saxofone tenor, Miguel Mira no violoncelo e Gabriel Ferrandini na bateria, a música do trio assenta na improvisação, com uma matriz enérgica e coesa. O trompetista rapidamente se integrou na dinâmica do grupo, estabelecendo diálogos com os vários instrumentos, mas sobretudo com o sax, o condutor do projecto.

Na tradição do mais puro free jazz, a música do estreado quarteto ia frequentemente sendo alimentada em crescendos de energia, que acabavam por desembocar em momentos de tensão explosiva.

A fluência discursiva de Rodrigo Amado, aliada à flexibilidade de Mira e à imaginação frenética de Ferrandini, alicerçava a torrente sonora, na qual o trompetista mergulhava e para a qual contribuía com muitas ideias, nunca seguindo em linha recta, preferindo admiráveis cornucópias.

Apesar dessa quase permanente descarga eléctrica, um dos mais belos - e ternos - momentos da noite consistiu num tranquilo diálogo entre o trompete de Evans e o violoncelo de Mira (com arco), que durante alguns momentos estabeleceram uma perfeita empatia, numa toada mais contemplativa.

Justíssima chuva de palmas

 Peter Evans

É impossível não referir a assombrosa capacidade técnica do trompetista, que consegue deslumbrar nos mais diversos contextos. Além de uma permanente qualidade melódica, Evans arranca do trompete os mais estranhos sons e usa técnicas como a respiração circular, gerando sons contínuos durante períodos longuíssimos.

Mas mais do que um compêndio vivo de técnica pura, Evans é um prodigioso músico que sabe interagir e dialogar, aplicando os seus inesgotáveis recursos sempre ao serviço da música.

O concerto acabou sob uma forte chuva de palmas, justíssima. Esperamos agora que esse CD em parceria chegue depressa.