Festa do Jazz do S. Luiz, 10 de Abril de 2013

Festa do Jazz do S. Luiz

Foi mesmo uma festa

texto António Branco fotografia Carlos Paes

Cumpriu-se mais uma edição da grande festa do jazz português. Se mais uma vez ficou claro que os tempos são de austeridade, no jazz nacional vive-se um período de salutar dinamismo, tantas e tão esteticamente diversificadas foram as propostas apresentadas…

O Teatro Municipal São Luiz voltou a ser, nos passados dias 6 e 7 de abril, o grande salão de festas do jazz português. Ao longo de dois dias de frenética atividade, por lá desfilou algum do melhor jazz que se faz por estes cinzentos dias em Portugal, nas várias cambiantes estéticas, reunindo nomes consagrados, jovens promessas e muitos que estão a meio caminho.

Os vários recantos do histórico espaço da Rua António Maria Cardoso de nefasta memória – a Sala Principal, o Teatro-Estúdio Mário Viegas, o Jardim de Inverno e o Café São Luiz – encheram-se de um público ávido (com muita gente jovem, o que sempre se saúda), num turbilhão constante correndo de sala para sala, aglomerando-se nos exteriores, esgrimindo opiniões, comentando prestações e solos. Eis algumas nótulas do que por lá se experienciou.

Inegáveis valias

Como tem vindo a ser hábito, o sopro de saída na Festa do Jazz foi dado no sábado, pouco depois das 14h30, quando se iniciou o desfile das escolas de música (não superiores) no magnífico Jardim de Inverno, que ostenta desde setembro passado uma placa de homenagem a Bernardo Sassetti, grande amigo da casa e da Festa.

Soaram os combos da Academia Municipal das Artes da Nazaré, do Conservatório-Escola Profissional das Artes da Madeira, da Escola de Jazz do Barreiro, da Escola de Jazz Luiz Villas-Boas/HCP (Lisboa), da Associação Cultural Sítio de Sons (Coimbra), da Escola de Jazz do Porto e do Conservatório de Música da Jobra-Branca (Albergaria-a-Velha).

Também à tarde, no Café São Luiz, tocaram o vibrafonista Paulo Santo e o pianista Sérgio Rodrigues.

Os concertos no Teatro-Estúdio Mário Viegas arrancaram às 17h00, com um quarteto co-liderado pelo saxofonista Ricardo Toscano e o contrabaixista António Quintino, dois músicos de inegável valia e que nos últimos anos se têm vindo a afirmar paulatinamente no panorama do jazz nacional.

Ricardo Toscano

A formação, constituída especialmente para esta edição da Festa, completou-se com o experiente Afonso Pais na guitarra e João Pereira na bateria. O grupo apresentou um repertório equilibrado constituído por peças de Quintino e Pais e ainda duas versões.

Notável improvisador, Toscano deixou mais uma vez clara a agilidade do seu discurso, como ficou patente em diversos momentos, de que destaco o seu solo na sinuosa versão de “Cyclic Episode”, de Sam Rivers. Mas foi o guitarrista que acabou por assumir um papel central no que se escutou, ao deixar indelevelmente a sua marca no som global do grupo.

Articulou-se bem com Toscano e com a secção rítmica, e rubricou excelentes intervenções em “Chance” (original de Kenny Kirkland) e “If Only I Could Know”, peça de sua autoria.

Apesar de alguma relativa inexperiência, o jovem baterista deu bem conta do recado. Um concerto competente, ainda que sem arrojos particulares.

Novos caminhos

Nelson Cascais Decateto

Uma hora depois, na mesma sala, apresentou-se um decateto liderado por Nelson Cascais, um dos mais reputados contrabaixistas nacionais que já leva duas décadas de carreira. A formação interpretou as composições de Cascais para ensemble mais alargado, incluídas no excelente “A Evolução da Forma”, acabado de sair pela Sintoma Records.

As composições exibidas denotam os traços fundamentais que já caracterizavam a sua escrita cerebral e estruturada, mas vão mais além, revelando o interesse de Cascais em internar-se por novos caminhos. A este propósito, destaque-se a peça que Cascais apresentou como sendo a sua primeira experiência com o serialismo dodecafónico.

Pareceu claro que se cumpriram os desideratos do músico: esta formação esteve mais próxima do luxo tímbrico de uma grande orquestra do que de um combo avantajado.

Nota de realce ainda para o novo arranjo de “Zulu Baby” (incluído originalmente no álbum “Guruka”, de 2009), para o “groove” de travo magrebino de “Mustafá” (inspirada na sonoridade do guimbri, instrumento construído a partir de uma cabaça e de pele de animal, com um som semelhante ao do contrabaixo, uma oitava acima) e ainda para a dolente melodia de “Canto”.

No plano individual destacaram-se as significativas contribuições do muito expressivo Federico Pascuci no saxofone tenor e na flauta, de Ricardo Toscano no saxofone alto (palmas para o seu solo explosivo em “A Evolução da Forma”), Luís Cunha no trombone, Diogo Duque no trompete e Óscar Graça no Fender Rhodes.

Boas composições, servidas por um punhado de ótimos músicos, com o resultado a revelar-se francamente positivo.

Um mosaico garrido e vibrante

A programação passou então para a Sala Principal, que começou por receber o aclamado projeto portuense Coreto-Porta Jazz, num concerto a que não pudemos assistir na totalidade por causa da derrapagem de horários que se verificou nos concertos do Teatro-Estúdio Mário Viegas.

Responsável pelo excelente “Aljamia” (sem dúvida um dos grandes discos lusos do ano passado), o Coreto apresentou as composições de João Pedro Brandão servidas por um conjunto de excelentes músicos como são os saxofonistas José Pedro Coelho e Rui Teixeira, a trompetista Susana Santos Silva e o pianista Alexandre Dahmen.

Ainda assim, do que foi possível escutar, ficou patente a exuberância e a solidez de uma música de matizes diversas, um mosaico garrido e vibrante de timbres e ritmos com sabor mediterrânico.

Sara Serpa

A seguir foi a vez de a cantora Sara Serpa apresentar Fragmentz, que a junta a outras cantoras (Joana Machado, Joana Espadinha, Mariana Norton e Margarida Campelo) e a uma secção rítmica composta pelo guitarrista André Santos (que substituiu o impossibilitado André Matos à última hora), o contrabaixista Demian Cabaud e o baterista André Sousa Machado.

Perante este projeto de contornos interessantes (sobretudo por via da abordagem muito pessoal prosseguida pela cantora e, também, da composição da formação, privilegiando o entrelaçar dos diferentes registos vocais) havia-se gerado interesse em torno do que poderia resultar da junção desta plataforma criativa de vocalistas.

Com a sua voz requintada, Serpa cantou em português, em inglês e sem palavras, domínio em que se tem notabilizado. Começou com “Corto”, dedicatória ao intrépido herói de banda desenhada, peça que elevou expetativas. Porém, com o desfilar das restantes peças, perceberam-se alguns desequilíbrios, talvez resultantes do pouco tempo de trabalho conjunto.

Alguns momentos são ainda assim de relevar, como sejam “Songlines” (peça inspirada nos textos de Bruce Chatwin sobre a Austrália e na convicção aborígene de que o mundo foi criado através do canto), “Se Num Sonho um Cometa” (da autoria do trompetista Gonçalo Marques) e, sobretudo, um curioso arranjo para “Novo Fado da Severa” (com Serpa, Margarida Campelo e Joana Espadinha).

Uma ideia muito interessante e com bastante potencial que deverá ser mais burilada no futuro.

Tributo a Sassetti

 Mali Mbule Baaba

Chegava então o momento mais esperado da noite, o tributo à vida e obra – ainda tão presentes – do saudoso Bernardo Sassetti, ele próprio grande amigo da Festa do Jazz. No espetáculo Mali M’Bule Baaba – Música de Bernardo Sassetti encontraram-se músicos de diferentes gerações do jazz nacional que se propuseram lembrar a alegria de viver de Sassetti, tocando a sua música luminosa.

Nesta “não-homenagem” a Sassetti, como a apresentou Carlos Martins, participaram também Carlos Barretto (contrabaixo), José Salgueiro (bateria), Mário Delgado (guitarra), Gonçalo Marques (trompete), Luís Figueiredo e Júlio Resende (piano), José Pedro Coelho (saxofone tenor) e Ricardo Toscano (saxofone alto).

O repertório escolhido foi inspirado nalgumas peças que revelam o lado mais jovial e o contagiante sentido de humor do malogrado pianista, compositor e fotógrafo (foram projetadas ao longo do concerto várias fotografias suas), com peças como o vibrante “Mali M’Bule Baaba”, “Señor Cáscara” (Luís Figueiredo muito inspirado), “Working Blues” (com um notável solo de Carlos Barretto), “Algumas Coisas Não Mudam” e o lindíssimo “Princípio”. O Bernardo decerto gostou.

Madrugada dentro no Jardim de Inverno apresentou-se o Sexteto do Conservatório da Jobra (vencedor da edição de 2012 do concurso para escolas não superiores) seguindo-se, para os mais resistentes, uma “jam session”.

Lamaçal

A tarde de domingo começou no Jardim de Inverno com a continuação do desfile dos combos das escolas de música. Na sequência da tarde anterior, e no domínio das escolas de nível não superior, apresentaram-se ainda os combos provenientes da Associação Grémio das Músicas (Faro), da RIFF Escola de Música (Aveiro) e do Conservatório de Música de Coimbra.

Iniciou-se logo depois o concurso das escolas superiores, com formações representantes da Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (Porto), da Universidade de Évora, da Escola Superior de Música de Lisboa e da Universidade Lusíada de Lisboa.

No Café São Luiz, à tarde, tocaram Pedro Nobre (piano eléctrico) e Francisco Brito (contrabaixo).

O arranque dos concertos de domingo aconteceu às 17h00, no Teatro Estúdio Mário Viegas, com o projeto LAMA, trio formado por Susana Santos Silva (trompete), Gonçalo Almeida (contrabaixo) e Greg Smith (bateria), que teve como convidado especial o saxofonista e clarinetista norte-americano Chris Speed, numa aposta colaborativa perfeitamente ganha.

Na realidade, com esta parceria o grupo alargou o seu leque de soluções, tendo crescido desde o seu já de si mui recomendável álbum de estreia (“Oneiros” de 2011). Nesta ocasião, apresentou o seu aguardado segundo disco, intitulado “Lamaçal”, revelando a sua proposta inteligente e ousada, que convoca elementos de vários quadrantes das músicas criativas.

Muito do som engendrado assentou nos jogos que se estabeleceram através das diferentes combinações de sopros, em despique ou complemento, aliados à impertinência rítmica de Almeida e Smith. Central o trabalho do contrabaixista, que não se limitando a desempenhar papel rítmico (notável o ostinato que desenhou em “Anémona”), assumiu diferentes posições no xadrez do quarteto, sabendo incorporar com propósito eletrónicas discretas que enriqueciam as atmosferas tranquilas e encantatórias.

Greg Smith é um baterista inventivo e hábil na construção de delicados tapetes rítmicos. Nota para a dança Speed/Smith a introduzir “Cachalote”, para a leitura de “Pair of Dice” (original de Speed) e ainda para a melodia onírica de “Manta”, com contrabaixista e baterista a recorrerem a efeitos e acessórios para criar texturas que transportaram o ouvinte para as profundezas submarinas.

Um excelente concerto de um projeto que se consolida como muito interessante.

De corpo e alma

 Gabriel Ferrandini

Seguiu-se, na mesma sala, o Red Trio, formação responsável por um dos grandes discos de 2012, “Stem”. Mais uma vez, o pianista Rodrigo Pinheiro, o contrabaixista Hernâni Faustino e o baterista Gabriel Ferrandini entregaram-se de corpo e alma ao complexo jogo da improvisação, criando, em alternância, ambientes de grande intensidade sónica com outros de maior contenção e austeridade (vade retro).

Pinheiro é o arquiteto de toda a geometria sonora da formação. Faustino não acusou a inferioridade física com que se debatia (sofrera um acidente de moto uns dias antes) e esteve intenso e focado na construção de texturas, particularmente bem na utilização do arco. Ferrandini é, não só, uma locomotiva imparável, como também um artífice de delicada filigrana rítmica.

O trio apresentou duas peças, a primeira uma vulcânica improvisação de cerca 35 minutos, e a segunda, iniciada num mar tranquilo entretanto cavado, com um quarto de hora. Quem saiu apressado (preconceito?) mais perdeu. Não é possível ficar indiferente ao som do Red Trio.

Os concertos na Sala Principal começaram às 19h00 com a apresentação do ensemble liderado por Bruno Santos, que apresentou música original escrita de raiz para esta formação e que conheceu recentemente suporte discográfico na TOAP/OJM.

Tal como Nelson Cascais na véspera (com quem, aliás, partilha algum efetivo), também o experiente guitarrista madeirense rodeou-se de um punhado de músicos de grande valia para dar corpo a uma abordagem musical própria feita a partir da exposição a diferentes estilos e influências e vertida agora para uma formação de dimensão alargada.

Peças como “580 Canal Street” (que contou com intervenções inspiradas de Luís Cunha no trombone e Gonçalo Marques no trompete), “Para Flauta Uma Valsa” ou “O Quarto dos Fundos” revelaram-se bons exemplos de maturidade e consistência, equilibrando a estrutura das composições com as partes improvisadas e jogando com diferentes instrumentações.

Porém, outros momentos houve que acabaram por se revelar carentes de algo que os espevitasse e que acrescentasse alguns graus de liberdade a este sistema musical.

Um programa fresco 

Às 21h30, o palco da Sala Principal foi tomado pelo quarteto do contrabaixista italiano Massimo Cavalli, que apresentou “Varandas do Chiado”, disco já disponível. A acompanhá-lo estiveram o seu compatriota Francesco Bearzatti no saxofone tenor e no clarinete, João Paulo Esteves da Silva ao piano e Joel Silva na bateria.

Massimo Cavalli "As Varandas do Chiado"

Foi uma prestação agradável e descontraída, marcada por momentos musicalmente diversos, como “Chuva Tropical” e “Blues for Davide” (ambas pontuadas por arrebatadoras prestações de João Paulo), o balanço rock de “Sabrina” (com Bearzatti vigoroso no tenor), a liberdade controlada de “Free Four Three” e a divertida “La Danza del Biondino”, de sabor medieval (delicioso duelo entre Bearzatti no clarinete e o baterista).Um programa fresco e diversificado que resultou em pleno.

O derradeiro concerto na Sala Principal marcou o regresso de Maria João e Mário Laginha a uma Festa que bem conhecem. Acompanhados por invulgar instrumentação – Eduardo Raon na harpa, João Frade no acordeão e Alexandre Frazão na bateria – apresentaram peças do último “Iridescente”.

Apesar de tudo, mantiveram-se os ingredientes fundamentais da multidimensional abordagem da dupla, inclassificável amálgama de jazz, blues, música brasileira, sons africanos e música tradicional portuguesa.

Mário Laginha esteve ao seu melhor nível, um portento de lirismo e musicalidade. Os anos parecem não passar por Maria João, cada vez mais irreverente e jovial, uma verdadeira força da natureza. Sobre Frazão já se disse tudo, a sua assinatura é indelével. Frade e Raon contribuíram para colorir de tons inusitados uma paisagem sonora já de si idiossincrática.

Para este escriba, tão só o melhor concerto da dupla em muitos anos. Um final apoteótico para uma Festa que mostra à evidência que o jazz português está bem e recomenda-se.

Já perto da uma da manhã, no Jardim de Inverno, teve lugar a cerimónia de entrega dos prémios aos alunos das escolas de música, atribuídos por um Júri constituído pelo crítico (colaborador do sítio jazz.pt) Paulo Barbosa e pelos músicos Carlos Barretto e André Fernandes. Seguiu-se um concerto pelo Ensemble ESMAE, vencedor em 2012 do concurso na categoria de escolas superiores.

A grande festa do jazz português regressa para o ano (assim todos esperamos).

 

Resultados do concurso das escolas de jazz 

Escolas Superiores de Música | 

Melhor Instrumentista: Marcelo Araújo (bateria, Escola Superior de Música de Lisboa)

Menções Honrosas – Instrumentistas: Ricardo Coelho (vibrafone, Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo – Porto); Pedro Branco (guitarra, Universidade Lusíada de Lisboa)

Menção Honrosa – Combo: Escola Superior de Música de Lisboa

 

Escolas de Música |

Melhor Instrumentista: João Cruz (bateria, Conservatório de Música de Coimbra)

Menções Honrosas – Instrumentistas: Vasco Miranda (piano, RIFF Escola de Música); Ricardo Marques (contrabaixo, Escola de Jazz Luiz Villas-Boas/HCP – Lisboa); Hugo Gomes (guitarra, Conservatório de Música da Jobra–Branca, Albergaria-a-Velha)

Melhor Combo: Conservatório de Música da Jobra–Branca, Albergaria-a-Velha

Menções Honrosas – Combo: RIFF Escola de Música – Aveiro; Escola de Jazz Luiz Villas-Boas / HCP – Lisboa; Conservatório de Música de Coimbra; Associação Grémio das Músicas – Faro