Saka, 18 de Abril de 2013

Saka

O free jazz foi à praia

texto Rui Eduardo Paes fotografia Hervé Hette

Depois do Porto e antes de Coimbra, o trio norueguês foi ontem (17 de Abril) a banhos à linha de Cascais. Para mostrar, no paredense Sargo, que improvisação pura e dura e bacalhau à lagareiro casam bem. Hoje há mais…

Em termos musicais, praia significa habitualmente música de dança e canções pop. Por um par de vezes que seja (ontem, 17 de Abril, e hoje novamente), não é assim com a ida a banhos do trio norueguês Saka à afamada praia da Parede, onde muitas gerações – com receituário médico a remontar pelo menos até ao século XIX – vêm recorrendo ao sol e ao lodo para aliviar as costas.

Poucas vezes – digo eu, que o frequento desde a década de 1970 – se tocou e ouviu jazz no Sargo Bar, o café-restaurante que mais parece um navio encalhado entre a Marginal e a linha de água, a uns passos dos semáforos de acesso à vila do concelho de Cascais onde habitou o compositor Fernando Lopes Graça (que, aliás, mais acima, tem escola secundária com o seu nome).

A vontade, agora, das sócias deste espaço que é uma autêntica instituição paredense vai no sentido de que o dito jazz por ali se torne visita frequente.

O que quer dizer que, logo ao primeiro dia, a prestação Saka foi bem-sucedida. Contra todos os receios e evidências: é que o grupo constituído por Kristoffer Albert, Jon Rune Strom e Dag Erik Knedal Andersen não toca propriamente jazz de salão. Aliás, o seu recentemente editado disco tem título que diz tudo: “Cementen” (ou “cimento”, para quem não percebeu à primeira).

Havia dúvidas, entre um ou outro assistente, quanto a saber se uma música possante na linha de um Coltrane tardio e de um Ayler em estado de transe pudesse conciliar-se com um bacalhau à lagareiro ou um arroz de marisco, sendo que o Sargo não é propriamente o Glenn Miller Café, famoso estabelecimento sueco onde degustação e free jazz vivem há muito em perfeita harmonia.

Pois o certo é que a música tocada nos dois “sets” da noite foi o que se esperava, um muro de betão, mas… as pessoas gostaram e entusiasmaram-se.

Disposição para ouvir

Fosse porque o preconceito relativamente a sonoridades outras tenha mais (má) fama do que existência real, fosse porque o dia tinha sido de calor e muita luz, depois de um Inverno taciturno, e os presentes faziam questão em divertir-se ou, simplesmente, porque qualquer música que tenha energia, que implique uma entrega física dos executantes, só pode cair no goto de quem esteja disposto a ouvir.

Ontem, na Parede, esta disposição para ouvir foi particularmente afirmativa. Assim que o sol caiu no horizonte, o vento trouxe um frio de bater o dente, mas ninguém arredou pé da esplanada onde Albert, Strom e Andersen, como bons nórdicos, tocavam de t-shirt. E não foi só porque faltava acabar o bife com natas – havia curiosidade quanto ao que estava a acontecer.

Diz-se que o jazz obriga a uma habituação de escuta, mas o certo é que o momento da primeira descoberta é determinante e havia ali gente que se percebia que nunca tinha ouvido aquele tipo de jazz, ou pelo menos que nunca lhe tinha dado atenção…

É em ocasiões como esta que se desfazem os mitos. De certeza que a esmagadora maioria dos presentes ignorava que aqueles três jovens já tinham tocado com algumas das luminárias do jazz mais “avançado” da Europa, figuras como Mats Gustafsson, John Butcher, Frode Gjerstad, Axel Dorner, Alan Wilkinson, Maja Ratkje ou Paul Lytton, ou seja, que não eram apenas uns miúdos a viajar por Portugal (tinham tocado no Porto no dia anterior, e depois desta ida à praia seguem para Coimbra).

Grandes músicos

 

E no entanto, depressa compreenderam o quão especial e privilegiada era a situação. Fossem quais fossem as suas preferências e os seus hábitos de consumo musical, houve algo que logo entenderam: tratava-se de grandes músicos.

O baterista Dag Andersen é, literalmente, um assombro. É ele o elemento estruturante do grupo, mantendo o motor a funcionar com repetições de motivos rítmicos bem definidos (mais definidos do que é habitual num contexto de improvisação) e com texturas que, de modo geral, conduzem a transições de um plano ou direcção para outro(a).

Não pára quieto: parece movido a molas, mas se toca rápido e com grande profusão de sons, tem uma surpreendente noção dos volumes e das dinâmicas.

Em boa parte dos casos, Jon Strom faz no contrabaixo o contrário de Dag: quando as pulsações deste são regulares, ele solta-se, e quando a bateria rendilha e tricota, Strom procura algum tipo de métrica.

Curiosamente, se o seu parceiro na secção rítmica parece sempre em absoluto controlo, dir-se-ia que este pesadão contrabaixista se deixa ir, notando-se-lhe no rosto tanto o esforço como o êxtase de uma criação musical que se pretende generosa, autêntica e vinda das profundezas da condição humana.

Kristoffer Albert é um descendente dos grandes saxofonistas tenores da história do jazz, não sendo os acima referidos John Coltrane e Albert Ayler as suas únicas influências mais reconhecíveis: acrescente-se Sonny Rollins e Archie Shepp e estaremos mais perto da sua linhagem musical. Os contínuos discursivos, sem pausas, vêm do primeiro e as rugosidades cortantes transitam do outro.

É um músico extremamente físico, dobrando-se sobre o sax junto ao chão, mexendo o maxilar inferior com os dedos para obter tremolos mais marcados ou apertando a campânula do instrumento em vários pontos de uma das pernas para obter diferentes níveis de surdina.

O incrível mesmo é que a massa sonora, a fúria e a extrema honestidade deste projecto não obliteram o que o trio tem igualmente de subtileza e de sentido de nuance. O muro dos Saka é, afinal, de uma surpreendente transparência: “vemos” através dele, sendo possível individualizar cada uma das componentes interiores desta argamassa. Está tudo exposto, sendo esta a principal qualidade da formação.

O free jazz foi ontem jantar à praia. O simples facto mudou alguns ouvidos e algumas mentes e tudo indica que hoje tal acontecerá novamente. Quem diria: os ares da Parede não são apenas bons para os ossos…