Samuel James, 22 de Abril de 2013

Samuel James

Blues da alma

texto António Branco

Os blues continuam a fazer parte do cardápio dos Dias da Música em Belém. Este ano, com um guitarrista e cantor muito especial que deixou marcas em quem o ouviu…

Embalado pelo “impulso romântico” – centrado neste período da história das artes, em geral, e da música, em particular, mas a ele não se confinando – aconteceu no passado fim de semana (19, 20 e 21 de abril) mais uma edição, a sétima, dos Dias da Música em Belém.

Tal como tem vindo a ser hábito nos últimos anos, os blues tiveram o seu pequeno, mas especial, cantinho reservado na programação. O enquadramento do género, genuinamente estado-unidense, faz pleno sentido: também nele se exaltam paixões, emoções, sofrimento, desilusões.

Originário de Portland, Samuel James, que se define como um «iconoclasta tradicionalista», trouxe consigo todo um legado com raízes na América profunda, assumindo-se como legítimo continuador de uma longa tradição de “bluesmen”, dançarinos, “entertainers” itinerantes e contadores de histórias que vem desde o final do século XIX.

Porque é, afinal de contas, de histórias que se trata. Histórias (com h) que fazem a História (com H) de uma América que, apesar do avanço inexorável dos ponteiros do relógio, teima em não se deixar aniquilar.

O que se escutou – a jazz.pt esteve no concerto de domingo, 21, aguçada pelos ecos que chegaram de uma excelente prestação na véspera – foi uma música que, sendo claramente inspirada pela tradição do Delta do Mississípi, a atualiza e reformula à luz dos novos tempos, sem afrontar a sua essência.

Blues filtrados pela alma e pela mundividência de James, ainda que os espetros de Son House, Booker White, Mississippi Fred McDowell e Skip James tenham pairado na sala.

Óculos espelhados e iPhone

Samuel James por Jon Reece

Entrou em palco de óculos espelhados e iPhone em punho, que utilizou para afinar uma guitarra – note-se o contraste civilizacional – de construção que remonta aos tempos em que não havia eletricidade para a amplificar, recorrendo a uma placa de metal para aumentar o volume sonoro produzido pelo instrumento.

Tirando partido da intimidade proporcionada pela Sala Fernando Pessoa, tocou-a intensamente e de forma total: cordas, caixa, braço, como se de um instrumento de percussão se tratasse. Juntou-lhe uma voz que brota sem freio das mais recônditas entranhas, mescla de rouquidão, cortesia de Tom Waits, e da potência ancestral dos cantores negros filiados numa soul menos alinhada.

Utilizou os pés como suporte rítmico, numa espécie da dança frenética e contagiante, ainda que estivesse (quase) sempre sentado. A sua entrega foi total. Não terá dado uma lição de genuinidade (tão difícil de apurar), mas antes do que verdadeiramente interessa: a verdade na música.

Samuel James é um músico verdadeiro. “Nineteen” (que dedicou ao pai) e “Wooooooo Rosa” (vigoroso instrumental) foram disso espantosos exemplos. Quando no final, exausto, se levantou para agradecer os aplausos reparei que, na parte de baixo da guitarra, tinha um autocolante com a fotografia de Barack Obama e onde se lia “Made in the USA”. Tal como a sua arte.

A canção é mesmo uma arma. São concertos assim que nos fazem acreditar na música e na vida. Arrebatador.