O Carro de Fogo de Sei Miguel, 29 de Abril de 2013

O Carro de Fogo de Sei Miguel

Ora engata, ora desengata

texto Pedro Sousa

A primeira apresentação pública da residência, no Musicbox, do novo projecto do trompetista Sei Miguel mostrou todo o seu poder, mas nem tudo correu bem…

São duas e meia da manhã. O sítio é a Musicbox, em Lisboa. As últimas pessoas vão entrando e compondo a sala para assistir ao primeiro de uma série de concertos do maior ensemble montado por Sei Miguel nos últimos anos. Primeiro há que dissecar o ambiente: é uma quinta-feira de Abril ventosa, fria e desértica. Só o Cais do Sodré é que se mantém com actividade e imbui o evento de uma aura boémia.

Então que tem o Carro de Fogo de Sei Miguel para nos oferecer durante esta residência? Não sendo esta a primeira apresentação pública do projecto, as actuações da formação foram algo esporádicas e passaram por mudanças de “lineup”. Temos, para começar, o núcleo alargado das colaborações habituais de Sei Miguel nos últimos anos: Rafael Toral, Fala Mariam, César Burago e, mais recentemente, Pedro Gomes têm sido os seus elementos chave.

Contamos agora com a adição de alguns músicos que reforçam as secções do grupo, transformando-o quase numa orquestra. A mais recente é a de Nuno Torres, no saxofone alto, que se acrescenta a Fala Mariam e ao próprio Sei Miguel nos sopros. André Gonçalves duplica as electrónicas com Toral, ainda que com abordagens diferentes. Por fim, no suporte rítmico Pedro Lourenço substitui John Klima no baixo eléctrico e Luís Desirat soma-se a Burago com a sua bateria.

O concerto começa: ouvem-se os primeiros espectros das electrónicas de Gonçalves, e os restantes músicos vão intervindo por sua vez, entre as notas soltas de Pedro Gomes e as colorações sopradas. Cria-se uma atmosfera que faz o corpo balançar. A receita parece dar certo.

Os problemas vêm de seguida. À medida que o concerto decorre, a secção rítmica parece progressivamente mais deslocada da música, chegando mesmo a ser insuportável. Nos momentos em que Miguel intervém tudo parece entrar nos eixos e o que se ouve torna-se num híbrido de Don Cherry com um “Bitches Brew” europeu e demente.

Infelizmente, logo a seguir cai-se numa sopa estranha, com um ou outro músico sendo capaz de vir à tona. A prestação parece constantemente sofrer deste ciclo, em que a música ora engata, ora desengata. Ideias boas perdem-se por falta de apoio ou narrativa e ficam apagadas na paisagem.

Apesar disto, não consigo imaginar melhor situação do que esta: o nível de insanidade sonora que se repercute nas paredes do Musicbox tem a estas horas ingratas um público receptivo, ainda que, talvez, incauto. Foto de Juan Carlos Hernandez...