Uma Coisa Muito Séria, 29 de Abril de 2013

Uma Coisa Muito Séria

Sem fronteiras

texto Nuno Catarino fotografia Nuno Martins

Improvisação, jazz, rock e noise partilharam o palco do “aquário” da ZDB, em Lisboa, muitas vezes cruzando perspectivas e caminhos. O cabeça-de-cartaz foi Thurston Moore, o conhecido guitarrista que confessou já a sua paixão pelo free.

A Galeria Zé dos Bois promoveu nos dias 23 e 24 de Abril um total de cinco concertos, divididos por duas noites. Este miniciclo de nome curioso, Uma Coisa Muito Séria, focado num cartaz de improvisação livre ou próxima do jazz, de avant-rock e de noise, apresentou no “aquário” do Bairro Alto actuações de Manuel Mota, Tom Carter, Thurston Moore & Margarida Garcia (na primeira noite) e de Rodrigo Amado & Afonso Simões e Wolf Eyes (na segunda noite).

O arranque fez-se com o concerto de Mota, que se apresentou a solo, acompanhado de guitarra eléctrica. Se a linguagem do guitarrista tem evoluído de forma contínua ao longo do tempo, esta actuação terá marcado a abertura de um novo período.

A improvisação continua a ser a matéria-prima, mas Mota está agora longe da abordagem pontilhística que lhe conhecíamos ou da mais recente fase ensopada de efeitos “wah wah”. Desta vez manteve o seu discurso solto mas mais pausado, deixando as notas a flutuar de forma mais prolongada e, com uma forte aposta na distorção, assumiu uma faceta hendrixiana que só lhe fica bem.

Manuel Mota

Também na guitarra eléctrica, e também a solo, o americano Tom Carter (dos Charalambides) optou por uma estratégia mais convencional, uma espécie de pós-folk desassombrada, desenhando repetidas cornucópias melódicas, às quais regressava com frequência.

A primeira sessão fechou com a dupla formada por Thurston Moore e Margarida Garcia. Se era verdade que muitos dos que se deslocaram à ZDB o fizeram pelo historial de Thurston (sobretudo nos Sonic Youth), Moore e Garcia andaram longe do rock “sónico” cristalizado pela (ex-)banda, preferindo desenvolver uma comunicação improvisada. 

Música de choques 

O contrabaixo eléctrico de Garcia, sobretudo trabalhado com arco, lançava bases sonoras atmosféricas (evocativas de tempestade), enquanto a guitarra de Thurston lançava faíscas nervosas, em contraponto. Música de choques, de confronto, mas também de aceso diálogo e pontual entrosamento. Apesar das diferentes origens e “backgrounds” dos músicos, a sua união musical teve resultados muito interessantes.

Thurston Moore

A segunda noite abriu com a actuação da dupla Rodrigo Amado (saxofone tenor) e Afonso Simões (bateria). O trabalho recente do saxofonista, sobretudo ao leme do Motion Trio (que tem disco novo, “The Flame Alphabet”), tem sido uma improvisação equilibrada, mas desta vez a contenção ficou em casa.

Amado e Simões desenvolveram uma performance enérgica, abrasiva, evocativa do free jazz da cena “loft” dos anos 1970.

A “coisa” fechou com a actuação dos americanos Wolf Eyes, pontas-de-lança da cena noise mundial. O grupo, entretanto reformulado, chegou a tocar ao vivo há pouco anos com o veterano Anthony Braxton, uma actuação que ficou registada no álbum “Black Vomit” (Victo, 2006).

Para a ZDB, o trio de Nate Young, John Olson e Jim Baljo trouxe um manancial de electrónica e efeitos processados, apresentando temas assentes em absoluta distorção e ruído, fazendo jus ao seu historial.

Entre a improvisação e o noise, assistiu-se na ZDB a muita coisa bastante séria. Em vésperas do dia da liberdade, também a música foi livre.