Vijay Iyer Trio, 13 de Maio de 2013

Vijay Iyer Trio

Nasceu uma estrela

texto Nuno Catarino fotografia Hervé Hette

Dois anos depois de ter vindo a Lisboa, o pianista regressou com uma mudança de estatuto: o álbum “Accelerando” valeu-lhe a subida para o estrelato do jazz. O concerto de quase duas horas foi magnífico, explicando as razões do generalizado entusiasmo, e terminou com uma ovação de pé.

Apesar de ter estado na Culturgest há quase dois anos, o pianista Vijay Iyer voltou à mesma sala para apresentar o seu mais recente trabalho, “Accelerando”, que lhe tem valido a aclamação universal. Se na altura da primeira visita era o álbum “Historicity” que vinha na bagagem, disco que já havia exposto o músico ao mundo, a nova obra foi mais longe, conquistando público, crítica e prémios (com destaque para as históricas votações que a revista Downbeat dedicou ao disco, ao grupo e ao seu mentor).

O grande auditório encheu-se para assistir ao Vijay Iyer Trio, que nesta vinda contou com uma alteração: o habitual contrabaixista, Stephen Crumb, tinha outros compromissos (uma série de concertos em duo com a guitarrista Mary Halvorson) e foi substituído por Matt Brewer. Na bateria apresentou-se Marcus Gilmore, como é habitual.

O trio foi explanando temas que combinam complexidade e intensidade, sendo especialmente marcados pela exuberância rítmica. A criatividade de Iyer desconstruiu as composições, transformou e reinventou cada uma e usou os extremos do teclado com à-vontade, mas mantendo a melodia principal sempre próxima.

Os temas foram desenvolvidos sob uma tensão crescente, cozinhada em lume brando, que acabou por nunca explodir, mas deixou-nos presos numa ansiedade trepidante.

Apesar da mudança no contrabaixo, a mecânica do combo pareceu perfeita: boa dinâmica, coesão e nenhuma falha na engrenagem.

Velocidade supersónica e sorrisos

 

Gilmore esteve irrepreensível, marcando o ritmo com naturalidade. Brewer cumpriu plenamente e ainda teve espaço para um momento individual, que acabou bastante aplaudido – um solo em velocidade quase supersónica.

Além das composições do seu líder, a formação (re)interpretou também peças de figuras ímpares (ainda que insuficientemente reconhecidas) como Herbie Nichols e Henry Threadgill. Não faltou ainda a vertente pop, típica de Vijay, numa versão de “Human Nature”, canção popularizada por Michael Jackson (faz parte do icónico “Thriller”).

Pelo meio ouviu-se igualmente uma curta, mas deliciosa, citação do “standard” “Body and Soul”. Entre “covers” e originais, ouviu-se sobretudo a voz musical de Vijay, um piano originalíssimo que valoriza a pulsação e, sem nunca seguir pelos caminhos mais fáceis, consegue seduzir os ouvidos de multidões.

Para fechar a actuação, que teve quase duas horas de duração, Vijay escolheu “Optimism”, despedida feliz que deixou de sorriso aberto todos aqueles que se deslocaram no passado dia 9 de Abril à Culturgest. Com esses sorrisos, recebeu também uma consensual ovação em pé.