Spring On, 15 de Maio de 2013

Spring On

Surpresa primaveril

texto Gonçalo Falcão fotografia Vítor Medeiros

Volta e meia, a Casa da Música oferece-nos destas surpresas: no passado fim-de-semana foi um ciclo de nove concertos em três dias com algum do mais jovem jazz europeu. Ou dos “jazzes”, pois foram variadas as propostas, na abordagem, no conteúdo e na qualidade. Destacaram-se os Bushman’s Revenge e os Moskus. E também a nossa Susana Santos Silva, em substituição de Judith Reiter, das Juju…

O ciclo Spring On apresentou no passado fim-de-semana uma programação original, fora dos circuitos mais habituais ou sem grandes cabeças-de-cartaz, com propostas acessíveis, apropriada para a captação de público e para a desmistificação do jazz. Desde a forma de ouvir ao que entra pelos ouvidos adentro, tudo propiciava um convite a quem ainda acha que o jazz é uma música inacessível e complicada, sem defraudar os convertidos. Um trabalho pouco comum numa instituição e que é um reflexo do bom trabalho da Casa da Música ao longo dos anos.

Entrados na Casa e depois de conseguirmos superar a péssima sinalização do Sagmeister (um edifício encantadoramente labiríntico pedia um “wayfinding”competente), lá encontrámos a Sala 2, onde fomos recebidos por um espaço fantástico, com um som magnífico e uma iluminação de palco com um notável bom gosto. A arquitectura flexível permite ter um auditório, uma zona de bar e um clube. Só em Coimbra, no Salão Brazil, existe também um modelo destes, que parece a melhor solução para ouvir jazz.

Ouve-se sentado, a circular, de pé, com um copo na mão, agradável e descontraidamente. O programa oferecia três bandas em três horas, o que é uma fórmula interessante (e surpreendentemente leve) para quem paga bilhete. Para que tal resultasse os músicos tinham de ser escrupulosos no cumprimento dos seus 50 minutos, o que aconteceu sempre. 

Uma sinusite e um computador-orquestra

A Primavera sagrou-se com alguns atrapalhos para a organização: o duo feminino austríaco Juju ficou desmembrado na véspera da viagem devido a uma sinusite grave de Judith Reiter. A organização resolveu bem o imponderável e a viola foi substituída pelo trompete de Susana Santos Silva. A trompetista da OJM teve apenas um dia para ler, estudar, ensaiar e tocar, mas notou-se pouco estehandicap”.

Susana Santos Silva

As composições da saxofonista Julia Schreitl têm uma alegria saltitante e uma doçura excessiva: demasiado fáceis e ostensivamente atraentes, partem de ideias muito melódicas e assentaram perfeitamente nos dois sopros. Se Silva foi rigorosa na entrega da escrita (é admirável que o tenha conseguido fazer com perfeição), nos solos foi especialmente cativante, compensando alguma secura.

O novo SUJU convenceu e abriu lindamente o Spring On. Mas logo de seguida tivemos um momento singular: o ensemble de Žiga Murko chegou dentro de um computador. Imprevistos burocráticos obrigaram a organização a trazer apenas o trombonista esloveno com as gravações nova-iorquinas do seu grupo de 13 elementos. Pôs a tocar as fitas e “DJficou-as”: acrescentou batidas melosas, sons, “breaks”, vocalizações e outras animações.

Um caminho já ouvido que instalou um ambiente “lounge” pouco convincente. A sala aproveitou para um “refill” do bom vinho disponível e enviar uns “emails”. Os curtos solos de trombone, demasiado óbvios, também não acrescentaram interesse à performance.

O desfile culminou com um grupo português. Uma boa ideia da programação: há uma certa tendência para remeter o jazz nacional para zonas menos nobres dos programas, porque o que é estrangeiro é sempre melhor. O certo é que a primeira sessão do ciclo acabou em alta, com o AP Quinteto (do guitarrista portuense António Pedro Neves) a entregar um jazz simples, cativante, descendente das formas do E.S.T.

Com uma música sem desejo de ruptura, o AP Quinteto (completado por João Pedro Brandão no saxofone alto, Alexandre Dahmen no piano, José Carlos Barbosa no contrabaixo e José Marrucho na bateria) conquistou a última das três horas. Seguiu-se uma “jam-session”, o que já era uma dose exagerada para mim. 

Porto-Benfica e fusão do inferno

O sábado tinha sobre si uma nuvem pesada, pois à mesma hora o Futebol Clube do Porto e o Benfica jogavam a decisão do campeonato nacional. O público portuense ausentou-se, deixando a sala desconsoladamente vazia, e Jeff Davis e o seu trio abriram com coragem a noite. Mais música portuguesa (apesar de ter nascido no Canadá, o vibrafonista vive, desde pequeno, em Portugal), com um som limpíssimo e cheio de detalhes.

Jeff Davis

Davis apoiou-se em composições de Bill Evans, Miles Davis, John Coltrane, Thelonious Monk e também em temas seus e fez um concerto suave, mas com um aplainamento excessivo das músicas: Monk perdeu angularidade e incerteza e passou a ser apenas uma melodia (“Pannonica”).

É indiscutível a imensa qualidade técnica do trio e a fluência no jazz clássico. A sua forma de tocar é feita de subtilezas: entrámos no campo do infinitesimal com o grupo a abrir espaços para que se ouvissem os pormenores, que ficaram “pormaiores”. A música foi simpática e o público presente gostou.

Entrou depois o Maxime Bender 4tet. Com temas dulcíssimos, no limite do aceitável, mas que sobreviveram bem devido à qualidade da improvisação e à fortíssima interacção musical em palco. O saxofone e o piano atravessaram territórios escorregadios, que podiam facilmente resvalar para o meloso, mas aguentaram-se perfeitamente num jazz extremamente melódico, que sobrevive mal em disco, mas que funciona lindamente ao vivo.

Música capaz de converter o mais empedernido detractor, mas que nunca é demasiado facilitadora ou oleosa. Bons solos de piano e saxofone e uma secção rítmica dinâmica aqueceram a noite e prepararam o terreno para a fusão do inferno dos Bushman’s Revenge.

O palco encheu-se de fumo para a detonação do trio norueguês, que tem um dos projectos mais interessantes do jazz actual: um jazz cheio de rock ou vice-versa, em que a energia, a electricidade e a pulsação do metal tomam conta da música, profundamente jazzística na improvisação e na vontade de não partir o tempo em partes iguais.

Os Bushman tocam jazz de uma forma agreste e dura, com três músicos excepcionais que conseguem criar uma perspectiva diferente e inovadora de uma abordagem que parecia morta e encerrada: o jazz-rock. O tema “Lonely Woman” de Ornette Coleman serviu para provar a flexibilidade e a capacidade interpretativa da banda.

Rune Nergaard (Bushman's Revenge)

O baixista Rune Nergaard lembrou Michael Henderson nas Cellar Door Sessions de Miles Davis, pela sua capacidade de manter um “groove” infernal. Gard Nilssen tocou uma bateria que soava a rock, mas era profundamente jazzística. Even Helte Hermansen foi o melhor na guitarra eléctrica: com um som único, um uso dos pedais perfeito, um fraseado magnífico, grande criatividade nos solos e o obsessivo rigor nórdico na execução. Teve energia, pulsação e atitude. Ouvimos tanto Coltrane como Motörhead. Foi um grande concerto para fechar uma noite estranha, em que o futebol tudo absorveu.

Terminámos dois pisos acima, no bar da Casa da Música (sim, esta é uma instituição que quer participar na vida do Porto e por isso é possível ir lá ouvir música e beber um copo à uma e meia da manhã), com os músicos locais a aparecerem com os seus instrumentos para uma “jam”. Das verdadeiras, sem regras e normas a não ser as da música e do bom senso. O palco foi sendo ocupado por voluntários, que se misturaram com os estrangeiros visitantes para construir uma noite de jazz - que é uma música de rua - e que precisa tanto destas trocas de conhecimentos em palco como do ensino académico. 

Propedêutica e “zapping” adolescente 

A terceira noite reservava a maior surpresa, que foi deixada para o final. Primeiro passámos pelo quinteto PHD, liderado por duas guitarras, trombone e secção rítmica. Um jazz académico, quase propedêutico, que não deixou marcas, muito por culpa das duas guitarras, que não conseguiram um discurso iluminado.

Seguiu-se o trio de Michel Reis, um projecto em que o pianista absorve todas as atenções com a sua impressionante capacidade melódica. Os solos foram o ponto fraco, pois limitaram-se a acentuar e repetir as composições, sem conseguir iluminá-las de outra maneira ou dar-lhes novas leituras. Jazz actual com um grande piscar de olhos à música pop.

E chegaram os Moskus. Vieram da Noruega, sem referências ou cartões de apresentação sonantes, e deram um concerto memorável. É um trio de piano, bateria e contrabaixo que propõe um equilíbrio novo entre improvisação total e composição. Os músicos entram numa espécie de jogo de escondidas entre o idiomático (o uso de elementos jazzísticos pré-existentes) e o não-idiomático (exploração de formas sonoras abstractas, não codificadas) que impressiona.

Anja Lauvdal (Moskus)

Primeiro porque aparentam ser demasiado novos para conseguirem solar de modo tão livre e interessante (e quando estão no território da improvisação total são de uma qualidade impressionante) e quando mudam para a escrita entregam ideias igualmente inteligentes. Fazem “zapping” entre estes dois territórios com a rapidez de um adolescente e com uma elegância que nos dá a ilusão de parecer coisa fácil.

O combo de Anja Lauvdal, Fredrik Luhr Dietrichson e Hans Hulbaekmo usa toda a tradição jazzística do trio de piano, contrabaixo e bateria, mas mescla-a com a experiência da livre-improvisação de uma forma inovadora e extremamente criativa. Não sei o que é que o ar norueguês tem (ou não tem), mas o facto é que aquele país consegue formar músicos tecnicamente superiores e instigá-los a explorar mundos novos e processos diferentes. Os resultados foram bem audíveis.

Os Bushman’s Revenge e os Moskus foram responsáveis por dois momentos altíssimos deste festival que, sem grandes nomes (e certamente que sem grandes orçamentos), conseguiu oferecer uma programação capaz de cativar novos públicos e ao mesmo tempo desafiar novos olhares sobre a “grande música negra”.