Imaxina Sons, 10 de Julho de 2013

Imaxina Sons

Foi boa a festa

texto Rui Eduardo Paes fotografia Janite / Imaxina Sons

Durante nove dias, o Festival de Jazz de Vigo cobriu as novas tendências do jazz europeu, mostrou o que se está a fazer nos Estados Unidos e voltou a dar visibilidade a grupos galegos e portugueses. Foi boa a festa, sim, mas também houve um lado triste: o acidente que vitimou um elemento da equipa, Manolo Matamá…

Praza da Constitución. Enquanto o povo de Vigo dançava com os “grooves” da portuguesa (na verdade europeia, porque formada por lisboetas de diversas nacionalidades) Tora Tora Big Band, uma notícia entristecia a equipa do festival Imaxina Sons. Um dos seus elementos estava a montar um palco noutro ponto da cidade galega e sofreu uma queda mortal.

O prazer de uns conviveu com a tragédia e com a tristeza de outros, e o certo é que quem vai a um concerto geralmente não pensa que, para lá do que se ouve e vê, há uma série de trabalhadores da cultura que dedicam por inteiro as suas vidas, e por vezes mais do que as ditas – como foi o caso –, a tornar as nossas melhor do que são. Este Report é, pois, dedicado à memória desse homem que, com os seus colegas, providenciava a música que é anualmente oferecida pelo Festival de Jazz de Vigo: Manolo Matamá.

O Imaxina Sons deste ano teve início a 28 de Junho com uma actuação a solo de Tigran Hamasyan, pianista e compositor arménio radicado em Los Angeles. A jazz.pt não pôde assistir à sua prestação: na altura em que o avião aterrou o concerto já tinha terminado. Quem a ela assistiu (outro grande do piano, o viguense Alberto Conde, que convidou o autor destas linhas a comer uma gloriosa paelha em sua casa) comentou-nos, no entanto, que foi muito variada, com o músico a utilizar a voz e “delays” por entre pianismos tonais e modais que titilavam os ouvidos. 

Ambiências aquáticas e sobreagudos

Baldo Martínez e Ramón López 

Na noite seguinte, encheu-nos as medidas a estreia de um novo projecto de Baldo Martínez, um mágico do contrabaixo que devia ser mais internacionalmente reconhecido do que é. O que julgo que não tardará com o seu muito especial Cuarteto Europa. Com ele estiveram o violinista francês Dominique Pifarely, o trombonista suíço Samuel Blaser e o baterista e percussionista espanhol, emigrado em Paris, Ramón López.

De pendor vanguardista, mas assumidamente idiomática, a música tocada por Martínez e pelos seus parceiros no Auditório do Consello de Vigo teve tanto de poético (os processamentos electrónicos do violino de Pifarely, criando ambiências aquáticas) quanto de intenso (com os gritos de López culminando as suas maiores entregas baterísticas). Fluida, correndo riscos mas muito focada e equilibrando improvisação com composição, a trama urdida pelos quatro intervenientes foi acrescentando novos motivos de interesse e resultou num dos melhores momentos de todo o Imaxina Sons. Para este ouvidor, certamente que o mais inventivo e surpreendente.

No mesmo local, performou depois o Side A, investimento cooperativo de Ken Vandermark, Havard Wiik (membro dos noruegueses Atomic) e Chad Taylor (elemento permanente das diversas formações Chicago Underground). Se o piano estava desnivelado na mistura de som, num de vários problemas técnicos que ocorreram ao longo do festival, foi, no entanto, possível perceber o quanto Wiik é um eixo referencial e um factor de equilíbrio deste triângulo. Com os seus motivos repetitivos, “block chords” e curiosas associações contrapontísticas entre a mão esquerda e a mão direita, o músico nórdico “conduziu” Vandermark e Taylor a desfechos que não lhes são habituais.

Com base no bop, mas com tempero clássico / erudito q. b. e extensões free identificáveis, sobretudo, nos solos multifónicos e com sobreagudos (Albert Ayler via Peter Brotzmann) do saxofonista e clarinetista de Chicago, a música do trio soou mais agitada e convincente do que lhe conhecíamos em disco. 

Beatbox, uma gastroenterite e elefantes a acasalar

SSS-Q: Susana Santos Silva e Jorge Queijo 

A partir de 1 de Julho os concertos principais passaram para o Marco, espaço emblemático de Vigo. Primeiro com Hyperpotamus, ou seja, o “homem-orquestra” Jorge Ramirez. Não era propriamente jazz nem pretendeu sê-lo, se bem que na mistura de hip-hop, soul, blues e rock houvesse uma ou outra alusão jazzística. Partindo dos procedimentos “beatbox”, com desdobramentos vocais por meio dos “loops” que iam sendo engenhosamente encadeados, a contribuição foi tudo menos o que poderiam temer aqueles que não o conheciam: um número de circo.

Com uma musicalidade a toda a prova, e tanto nos temas originais como em intrigantes versões de Jimi Hendrix e Beatles, Hyperpotamus proporcionou uma agradável hora de música urbana do tempo presente, recebendo a unanimidade da adesão do público. O que se verificou pelos aplausos e pela corrida final aos discos, à venda na bilheteira.

A sessão seguinte pertenceu a Molimo, grupo feminino de música livremente improvisada constituído por Chefa Alonso, Barbara Meyer e Cova Villegas. Começou com algum atraso, devido a uma gastroenterite da percussionista e saxofonista soprano que a conduzira, de urgência, para o hospital. Quando se julgava que íamos assistir a um duo de violoncelo e voz, Alonso predispôs-se a actuar e fê-lo com brio, embora fosse visível o esforço. Detentora de uma sonoridade muito particular no sax, tocou este, compreensivelmente, durante poucos minutos…

Houve pouca interacção entre as participantes, assim como poucas dinâmicas e uma preocupante ausência de espaços – ou seja, aquilo que, em improvisação, mais faz falta. Enquanto os instrumentos teciam uma abstracta manta de texturas, Villegas recorreu a figuras arábicas e indianas, assim criando um bem pensado paradoxo formal. Porém, se este ao início pareceu bastante interessante, depois tornou-se gradualmente redundante e limitativo. Pena tenho eu de não poder ser menos crítico nestas palavras: Chefa Alonso é como que um farol da música espontânea em Espanha, merecedora de toda a admiração. Enfim, há dias e dias…

O concerto seguinte foi português, com os SSS-Q de Susana Santos Silva e Jorge Queijo: trompete e bateria, mais umas flautas, percussão pequena e um dispositivo electrónico para ampliação do espectro tímbrico. Não obstante ser um projecto de natureza experimental, foi curioso notar que o duo esteve sempre melhor nas peças mais “dentro”, com a trompetista do Porto a revelar amplamente os motivos da sua fulgurante ascensão na cena do jazz e o baterista a confirmar a fama que o precedia mesmo em terras espanholas.

Passagens houve de primitivismo sónico que só pecaram por ser algo extensas, mas quando a dupla se centrou nos seus instrumentos principais houve escuta e comunicação num patamar elevado de requinte, e isso aconteceu com envolvimento da plateia. Se a proposta não era propriamente fácil, a sua honestidade e a postura desenvolta dos dois improvisadores (com Queijo a dizer que o que a sua interlocutora antes fizera pareciam elefantes a acasalar) conquistaram a simpatia do público. 

Um sexteto que era um quinteto e Henry Mancini

Dead Capo 

A seguir, o calor fez-se sentir numa Galiza habituada a temperaturas de Verão bem mais amenas, com os termómetros a subirem até aos 40 graus. De volta ao auditório municipal, apresentou-se a 4 de Julho o Marcelino Galán The Gift. Um sexteto que mais parecia um quinteto, com o piano de Yago Vazquez a só fazer-se escutar no final e a nunca cumprir o expectável entrosamento harmónico com a guitarra do líder. A essa falha somou-se outra: além de estar com demasiado volume (outro deslize da técnica de som), Marc Ayza não poderia ter sido menos feliz no seu jogo de bateria.

O que foi um factor de confusão, dado Ayza estar cotado entre os melhores utilizadores de baquetas do país vizinho. Na ocasião, mais parecia um pouco competente gestor de métricas soul-funk. O modelo seguido foi, claramente, o dos Jazz Messengers de Art Blakey, embora com os contornos do jazz europeu. Galán esteve sempre muito discreto, mesmo quando solava (pensem num tímido misto de Bill Frisell e Kurt Rosenwinkel), indo o destaque para Pablo Castaño, o saxofonista alto. As composições não ajudaram, entre o escolástico e algum pretensiosismo.

Terminado este concerto fez-se uma corrida até à Praza da Constitución, para ouvir os madrilenos Dead Capo. Henry Mancini em formato jazz-rock, com os decibéis bem elevados (mas, infelizmente, com uma sonoridade pouco limpa) e um conceito musical que tudo absorvia – géneros, subgéneros e uma imensa variedade de estilos, desde o bebop (foram interpretados dois temas de Thelonious Monk) à surf music (uma estranha e fantástica “cover” da canção final do filme “Pulp Fiction”).

Santiago Rapallo foi um ritmista implacável e seguríssimo, o contrabaixo de Javier Diez Ena parecia provir do rockabilly e Marcos Monge só não satisfez plenamente por não improvisar / solar o suficiente com o seu saxofone tenor de rhythm & blues. As atenções concentraram-se, porém, no guitarrista Javier Adan, cuja aparência de motoqueiro (o cabelo rapado contrastando com as longas barbas) não é habitual neste contexto. Umas vezes levantava um muro de distorção que faria inveja a qualquer banda de punk e metal, enquanto em outras dedilhava as seis cordas com o desvelo de um Wes Montgomery. Até os mais velhos (os “maiores”, como dizem os galegos) gostaram… 

Pós-modernismos e músicas do mundo

Kevin Shea e Peter Evans 

Um regresso ao Consello, no dia seguinte, para assistir ao massacre protagonizado pelos americanos Mostly Other People Do the Killing. Com citações constantes de “standards” do jazz de várias épocas e ancoragem nas estruturas do dixieland e do swing, mas daí partindo para o hard bop e para o free mais desbragados, com uma energia roqueira, o grupo de Moppa Elliott chegou a Vigo como uma tempestade tropical, aquecendo ainda mais o ar.

O contrabaixo do homem que conceptualizou esta satirização da pós-modernidade foi o único alicerce mais ou menos estável do concerto, pois o baterista Kevin Shea estava constantemente a fazer e desfazer pulsações, mudando de direcção e de tempos com uma agitação esquizofrénica. Os dois sopros, Peter Evans e Jon Irabagon, foram espectaculares, nas situações em despique ou a solar. Mas depressa aquele fulgor se revelou excessivo: a partir de determinada altura tudo se tornou numa exibicionista demonstração de virtuosismo tecnicista. Resumiram-se as coisas em verificar se era o trompete ou o saxofone que conseguia maiores velocidades, tipo “O Voo do Moscardo”, de Rimsky-Korsakov (que, de resto, chegou a ser “picado” por Evans).

Encosta abaixo, logo de seguida, para encontrar a Tora Tora Big Band, outro produto do pós-modernismo, mas desta vez com simples justificativos de festa. Como se disse no início deste texto, dançou-se, mas até lá a escrita dos dois cabeças (os alemães Johannes Krieger e Lars Arens) deste decateto lisboeta, mas transnacional, fez-se valer.

Presenciou-se uma mistura de jazz e funk com muitas músicas do mundo, do Magreb ao reggae, passando pelos Balcãs. O principal solista foi o português Desidério Lázaro com os seus saxes tenor e barítono, o mesmo que, num Castelhano perfeito, apelou emotivamente à unidade ibérica neste período difícil. Infelizmente, o som não esteve, mais uma vez, à altura, algo que a organização do festival tem de resolver em próximas edições. 

Piscadelas de olho e Erik Satie

Ari Hoenig 

O último dia do Imaxina Sons, a 6 de Julho, foi de novo saltitante. Primeiro com o Ari Hoenig Trio no auditório, tendo o americano dado um “show” de bateria que, uma vez ou outra, também foi algo demonstrativo das suas habilidades. Houve algumas piscadelas de olho ao público, como, por exemplo, na altura em que Hoenig tocou a melodia de uma canção tradicional da Galiza que lia no telemóvel, o que provocou um riso generalizado na sala. Com ele estiveram o pianista Rainer Bohm e o contrabaixista argentino, mas residente no Porto, Demian Cabaud.

O que aconteceu foi um virar do avesso da fórmula piano jazz trio, com a bateria, em vez do piano, a dominar – ora no mais estrito plano “mainstream”, ora incorporando rítmicas drum ‘n’ bass e rock. O que não impediu Bohm de brilhar. E se Cabaud esteve em terceiro plano quase sempre, no “encore” o seu longo solo demonstrou os motivos que dele fazem um músico incontornável em Portugal.

O fecho foi na Praza da Constitución, com Richard Galliano e o Tangaria Quartet. O grupo ofereceu-nos cruzamentos da nova musette francesa com o novo tango argentino, com peças de Astor Piazzolla no alinhamento, e incluiu ainda uma curiosa interpretação de Erik Satie e uma alusão à sanfona brasileira. Um jazz de índole comercial e muito acessível, apropriado para conquistar uma praça repleta de gente, bem tocado, mas sem surpresas nem grandes rasgos.

Ao longo destes dias houve mais jazz nas esplanadas, à hora do almoço. As formações locais Javier Marcos Trío, Swing Session Quartet, Chus Pazos Trío e Marcos Salcines Trío tiveram a sua oportunidade. No bar Xancarajazz, esteve ainda o Rafa Fernández Quinteto. Entre estes há que distinguir o jovem pianista Gabriel Peso (membro do Swing Session Quartet), aluno de Alberto Conde, que tem um futuro promissor à frente e dentro em breve verá o seu primeiro disco editado.

Houve ainda algumas sessões didácticas, para os mais pequenos (como a muito divertida Odaiko Percussion) e para adultos (o bastante sensual “obradoiro” Cabaret-Jazz). O cômputo final é altamente positivo, pelo que o director artístico Nani Garcia, o responsável da produção Angel Escariz, a assessora de Imprensa Arantxa Estevez e a restante equipa do festival estão de parabéns. Incluindo Manolo Matamá, que desafortunadamente não poderá participar nas próximas edições. Será lembrado, com certeza, em cada uma delas.