Quando os Lobos Uivam, 12 de Julho de 2013

Quando os Lobos Uivam

Entre livros, entre gente

foto-reportagem Nuno Martins

A música improvisada foi ao Chiado para, na veneranda Sá da Costa, mostrar que está bem de saúde. Às letras somaram-se os sons, em duas maratonas de concertos que agitaram a calma de um fim-de-semana lisboeta…

Foram oito concertos em sucessões de quatro no menos plausível dos espaços: uma livraria situada em pleno Chiado lisboeta, agora em orgulhosa e lutadora autogestão. A velha Sá da Costa, mais habituada a outro tipo de tertúlias por onde passaram ao longo dos anos grandes figuras das letras e da cultura portuguesas, entre elas o escritor Aquilino Ribeiro, de quem se adoptou um dos seus maiores títulos, “Quando os Lobos Uivam”, para designar um ciclo que funcionou como o “estado da nação” no que às práticas da improvisação em Portugal diz respeito.

Acontece que, muito ao contrário do que se passa com o País, ficou patente que a nação dos improvisadores está de óptima saúde. Aqui fica, para a memória visual colectiva, o que por lá se passou num fim-de-semana do final de Junho diferente dos demais… 

Valores

 

O trompetista LuísVicente integrou o projecto Luís Desirat Legendary Traps and Fellows, quarteto que juntou músicos veteranos (Desirat e Miguel Mira) a um novo valor em ascensão (Vicente) e a uma figura mítica do funk norte-americano, Jerry the Cat (Jerrald James), antigo membro dos Funkadelic que reside actualmente entre nós… 

Máscara de nariz adunco

 

Yaw Tembe levou a máscara que utiliza nas suas actuações de rua na Baixa de Lisboa para a Sá da Costa, desdobrando-se entre o trompete e as pequenas percussões. Contracenou com dois músicos da novíssima geração de improvisadores nacionais, Bernardo Álvares e Carlos Godinho, constituindo o trio Zarabatana. 

Dois Chagas

 

Os dois Chagas do colectivo À Sombra de Ra, Paulo e Eduardo. Com Miguel Mira e Monsieur Trinité, inspiraram-se em Sun Ra para irem mais além, ou seja, em direcção a uma música que dispensa partituras e não tem destino definido. Aparentemente formado para a ocasião, o grupo teve já aparições públicas depois desta ocasião, pelo que parece ter surgido para ficar. 

Monsieur Trinité

 

Francisco Trindade, também conhecido como Monsieur Trinité. É um pioneiro da improvisação em Portugal, tendo incluído os Plexus de Carlos “Zíngaro” no início da década de 1970 e mais tarde algumas formações de outro importante músico: Sei Miguel. Foi ele o curador de Quando os Lobos Uivam, que além das aqui mencionadas incluiu ainda uma desconstrucionista prestação da dupla António Chaparreiro / Pedro Alçada, com este último, surpreendentemente, em bateria. 

Deixado à nossa imaginação

 

Um trombonista (Fernando Simões) contra quatro saxofonistas, Jorge Lampreia, Iuri Andrade, Diogo Picão e Matthieu Ehrlacher (na foto os dois últimos). Apresentaram-se com um curioso nome: Cunnilingus versus Fellatio. O relacionamento entre as técnicas de embocadura utilizadas e as práticas referidas em Latim ficou para a nossa imaginação… 

Formato invulgar

 

Mais conhecido como pianista, Manuel Guimarães participou no ciclo com o seu segundo instrumento, a guitarra, que domina também como poucos. Foi a alma de um quarteto de instrumentário invulgar, o Vimaranis Ensemble, com voz (Maria Radich), violino (Gil Dionísio) e acordeão (Tiago Varela). 

Um momento alto

 

Num momento particularmente criativo da sua já longa trajectória musical, o clarinetista e saxofonista (tocou, na ocasião, a variante alto) Bruno Parrinha juntou-se a um guitarrista que gostaríamos de ver mais vezes ao vivo, Ricardo Pires. Le Vice Anglais protagonizou uma das performances mais gratificantes do Quando os Lobos Uivam. 

Guitarra electrónica

 

Luís Lopes, o único elemento dos Drama (os restantes foram André Gonçalves, Carlos Santos, Miguel Sá e Rui Miguel) que não utilizou dispositivos electrónicos. Isso se entendermos que o complexo formado por uma guitarra, uma série de pedais de efeitos e um amplificador não é, ele próprio, electrónico. O certo é que foi a tal que soou.

Adenda

Umas semanas depois da publicação deste trabalho, a Sá da Costa fechou por determinação do tribunal. Acabava assim um bem-sucedido exemplo de autogestão e desaparecia um marco da história da cultura portuguesa e da Baixa de Lisboa. Aos poucos e poucos, vamos deixando de ser o que somos...