Jazz im Goethe Garten, 20 de Julho de 2013

Jazz im Goethe Garten

Jardim europeu

texto Gonçalo Falcão e Rui Eduardo Paes fotografia Nuno Martins

Representantes dos vários jazzes da Europa passaram pelo jardim do Goethe Institut para mais uma audição das tendências emergentes. Destacaram-se Tim Tim por Tim Tum e Jump the Shark, não tendo a jazz.pt podido assistir ao concerto dos Spinifex, que boa memória deixou no público…

O Goethe Institut apresenta anualmente um festival que já é uma referência no jazz ao vivo em Portugal: pela música e pelo ambiente original que se vive ali pelo Campo dos Mártires da Pátria, onde os fins de tarde no jardim (os alemães ouvem o jazz cedo) são magnificamente acompanhados por salsichas alemãs, “batatasalad” (Inês!!!) e weissbier.

O Jazz im Goethe Garten apresenta jazz europeu em afirmação, oferecendo assim ao público um ouvir informado sobre grupos emergentes. Nesta nona edição o evento manteve o número de concertos que o caracteriza – seis – com várias geografias: Portugal, Itália, Holanda, Suíça, Noruega e, obviamente, Alemanha, que encerrou. No mesmo dia em que terminaram as comemorações do 50º aniversário da instituição e em que esta foi agraciada com a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa. 

Ritmo e humor

Marco Franco e José Salgueiro (Tim Tim por Tim Tum) 

Todos sabemos que os governos só saem com tira-nódoas, pelo que os venenos palacianos que emanavam da assembleia na tarde de abertura não afectaram o público que se foi instalando, sorridente, no magnífico jardim do Goethe Institut. Sólidos ou em pedacinhos, já não nos incomodamos com quedas de governos que serão substituídos por outros igualmente conformes; assim, enquanto não muda radicalmente o sistema, preferimos usufruir do cosmopolitismo que a cidade ainda nos vai oferecendo a preços módicos: luz, música e os sabores avinagrados das comidas do Norte (cujos preços, infelizmente, subiram para estarem mais equilibrados com os da Europa).

Os Tim Tim Por Tim Tum abriram o festival: quatro bateristas portugueses a oferecer aquilo que tanta falta faz no Norte europeu: ritmo e humor. As quatro percussões desdobraram-se em ideias para criar música sincopada, mas ao mesmo tempo bem-humorada e performativa.

Sem recorrer a soluções demasiado simplistas, o grupo ofereceu uma música acessível, atraente, que envolveu o público e o motivou. Num equilíbrio ponderado entre soluções repetitivas – em que todas as baterias acentuavam as frases musicais – e formas mais texturais, com apitos e teatralizações, o concerto deu muito bom ambiente ao jardim do Goethe. Para esta actuação, os Tim Tim por Tim Tum, que têm formações variáveis com a presença constante de José Salgueiro e Marco Franco, trouxeram Alexandre Frazão e Bruno Pedroso. (G.F.) 

Questão sem resposta

Nicolas Masson (Third Reel) 

A participação dos suíços Third Reel de Nicolas Masson surgiu com uma aura diferenciadora: tratava-se de um grupo editado pela ECM, ou seja, um projecto já com selo de reconhecimento. Além disso, Masson passara pelo catálogo da etiqueta nacional que, ano após ano, é votada pela imprensa internacional especializada como uma das mais importantes do mundo no que ao jazz respeita, a Clean Feed. Assim, se as expectativas eram grandes, a desilusão foi ainda maior.

Há músicas que funcionam melhor em disco do que em concerto ou que, quando apresentadas ao vivo, beneficiam de ser escutadas em espaços fechados, perdendo-se nos abertos. Este foi, claramente, um desses casos: as subtilezas e a quase constante suavidade da performance desvaneciam-se antes de chegar ao público. Este desligou, virou a atenção para a conversa com as pessoas ao lado ou ficou a cismar com a situação económica, política e doméstica (pois, toda a gente descobriu agora que a economia e a política têm consequências lá em casa), como no resto dos dias em que não há Jazz im Goethe Garten no coração da cidade nem pássaros em diálogo com saxofones.

O pior é que não se tratava apenas de uma questão de “casting”. A música dos Third Reel é fria, monótona e pouco inventiva. Na hora da verdade, não comunica. Porquê, então, todo o bruá? Mais uma questão sem resposta entre as muitas que, neste entardecer, nos ocupavam as mentes… (R.E.P.) 

O meio é o problema

Chris Sharkey (The Geordia Approach) 

O quarto concerto trouxe até Lisboa um grupo norueguês com guitarra eléctrica, bateria e saxofone/sintetizadores. The Geordie Approach faz um uso assíduo do processamento de som, não só na guitarra (que pela sua natureza é mais predestinada a estas traficâncias), mas também no saxofone.

Próximo do que já se designou por pós-rock, o grupo desenvolveu improvisações longas, assentes em elementos repetitivos e com uma estrutura feita de sobreposições de camadas sonoras. Este foi um caso claro de um concerto com princípio, meio e fim, sendo que o seu principal problema foi precisamente o meio.

O início foi poderoso e é necessário distinguir o guitarrista Chris Sharkey, que fez um uso dos pedais extremamente interessante. O desenvolvimento é que acabou por ser pouco claro, prejudicado também pela falta de graves na amplificação para o jardim: foi previsível, por vezes com a electrónica a tomar conta das ideias que deviam ser expressas através dela. A prestação foi excessivamente textural, absorta e sem alma. No final, o interesse regressou e o “encore” voltou a entusiasmar. (G.F.) 

Relativo alívio

Jump the Shark 

A embaixada italiana no festival do Goethe elevou os ânimos. O sexteto de Piero Bittolo Bon trouxe até nós uma das melhores propostas do colectivo El Gallo Rojo. Tendo como moldes o Eric Dolphy do período “Out to Lunch” e o Ornette Coleman dos começos, numa confecção claramente transalpina em que por vezes espreitava a influência do rock progressivo, os Jump the Shark proporcionaram um alívio às gerais preocupações.

O saxofone alto de Bon (num dos temas substituído por um clarinete alto), o vibrafone de Pasquale Mirra e o trombone, mas especialmente o sousafone, de Gerhard Gschlossi distinguiram-se tanto nos solos como nos trabalhos de conjunto. O senão esteve nas composições, demasiado deterministas e abarrocadas, com ornamentações de duvidosa pertinência. Entre os grandes efeitos de grupo, daqueles pronunciadamente rifados que agarram os ouvidos e nos puxam para dentro da música, apareciam situações que lembravam colchões de praia a perder o ar.

Mas é assim: mesmo nos melhores panos cai a nódoa. No presente jazz europeu, tal como no americano, há uma vaga de predominância da escrita sobre aquilo que mais identifica este género musical, a improvisação. Todos parecem querer ser “compositores”, sem perceberem que, se se pretende de facto espartilhar o jazz, têm pelo menos de ser compositores magníficos. Uma regra elementar de compensação… (R.E.P.) 

Equívoco conceptual

Max Andrzejewski (Expressway Sketches) 

A propósito de composição: a última formação a apresentar-se no Jazz im Goethe Garten, Expressway Sketches, tem como princípio só tocar peças escritas em 10 minutos, deixando para a improvisação a tarefa de dar corpo a esses rápidos esquissos. A ideia podia ser boa, mas a forma como o grupo de Colónia, na Alemanha, a aplica não é propriamente uma boa comprovação.

Ao longo do concerto de Tobias Hoffmann (que na cerimónia de entrega da medalha do município tocara antes com Carlos Bica e Ana Araújo), Benjamin Schaefer e Max Andrzejewski (prejudicado na bateria pela falta de graves) ouvimos “pastiches” de Doors, Hanns Eisler, Fausto Papetti e The Blues Project, bem como versões hiper-realistas de surf music e pop dos anos 1950 e 60. O intrigante é que este picanço não implicava a atitude recicladora do pós-modernismo nem seguia as lógicas citacionais introduzidas pelo DJing – era, simplesmente, um “agora vamos tocar à maneira de”.

Gostei de ouvir os sons de piano e cravo eléctricos do teclado de Schaefer, músico assumidamente influenciado por Ray Manzarek, mas a tratar-se de uma “concept band”, como foi anunciado ao microfone, esta que nos visitou sustenta-se de evidentes equívocos. (R.E.P.)

Se Portugal e a Europa ainda existirem, para o ano haverá mais…