Festival Tona, 23 de Setembro de 2013

Festival Tona

Uma noite especial

foto-reportagem Carlos Paes texto Rui Eduardo Paes

Pouca gente, mas muita música (quatro concertos numa só noite) e da melhor que se pode ouvir em Lisboa na actualidade. Foi assim o Tona, surpresa atrás de surpresa…

Dedicado às músicas ditas “exploratórias”, mas com um programa que propunha a audição de alguns dos melhores improvisadores em actividade no nosso país, com algumas presenças internacionais, o Festival Tona teve como particularidade oferecer quatro concertos numa única noite e fazê-lo num espaço onde habitualmente não se organiza este tipo de eventos: a Academia Familiar Dramática de Pedrouços, em Lisboa.

Se a localização levou a que a iniciativa resultasse num desastre em termos de público (pouco mais de uma dezena de assistentes), fosse porque a dita instituição não fizesse parte do normal circuito de concertos ou porque Pedrouços é de difícil acesso à noite, o certo é que se concentrou ali, como poucas vezes acontece, tão boa música.

Uma bela iniciativa de Miguel Lopes, mais conhecido como Tona, videasta que tem documentado um bom número de concertos nas áreas que vão do jazz criativo à música experimental… 

Signs of the Silhouette

 

A noite começou com uma explosão sonora que a audição do álbum “Rocket Fish” não fazia prever. Num registo entre o psicadélico e o noise, com o suporte de dois convidados especiais, a violoncelista Helena Espvall e o contrabaixista Hernâni Faustino, Jorge Nuno e João Paulo subiram ao palco vestindo os fatos das personagens que já lhes são habituais: dois querubins inteiramente brancos que poderiam ter vindo do belo e sinistro Carnaval veneziano – por sinal, o melhor do mundo.

Desta vez não se ouviram os típicos “riffs” do rock ou as dedilhações paisagísticas que identificam os Signs of the Sillhoutte. Com uma projecção no fundo do palco em que se via uma serpente envolvendo um corpo feminino, a guitarra entrou em delírios de distorção e “feedback” banhados em eco e “delay” e a bateria ora picava a fundo nas pulsações ora desmanchava-se em pura energia.

Ao longo daquela que foi, muito claramente, uma performance improvisada, coube às cordas de arco adensar a nuvem de “overtones” e dar uma cor classicizante, quase sinfónica, ao conjunto, um pouco como ouvimos em Godspeed You! Black Emperor e A Silver Mt. Zion. Mas nem sempre erai assim: quando Faustino utilizava o contrabaixo em pizzicato, subia de debaixo da muralha de ruído um surpreendente balanço jazz. Estranho, surpreendente e muito bom. 

Big Bold Back Bone

Se o primeiro concerto da noite privilegiou a massa de sons, o segundo jogou tudo na subtileza das situações. Nisso contrastou com algumas das peças contidas no primeiro álbum do projecto luso-suíço Big Bold Back Bone, o recentemente editado “Clouds Clues”, aquelas em que espreita o lado mais noisy de Luís Lopes, um dos membros do quarteto. O melhor momento da prestação deste no Tona foi mesmo o trabalho harmónico construído pela guitarra em torno do trompete assumidamente melódico de Marco Von Orelli. A electrónica suja e bruitista de Travassos estabelecia o contraste e a bateria de Sheldon Suter tinha um duplo papel, umas vezes fornecendo texturas, outras fixando-se num “beat”.

Ao contrário da sucessão de temas com que o disco é organizado, a única longa improvisação tocada seguiu apenas nos primeiros minutos o que estava definido no papel. A partir daí tudo passou a depender de lógicas intuitivas de tensão, intriga e trama que juntaram o melhor de vários mundos, o da música improvisada electroacústica, o do jazz e, até, na parte final, o do chamado pós-rock.

Movimentos ascensionais colectivos davam lugar a desconstruções de elementos, com Orelli a substituir, imaginativamente, a convencional tonalidade por um abstraccionismo obtido por meio de técnicas extensivas bem dominadas, para depois novas congregações fluírem do apurado sentido de grupo. A noite continuava a revelar-se bastante especial, com excelente música a acontecer…

Rodrigo Pinheiro / Pedro Sousa

 

E assim continuou, com o inédito duo do pianista Rodrigo Pinheiro e do saxofonista (no caso, tenor) Pedro Sousa. Se transpareceu mais a vertente ligetiana do teclista do Red Trio, o discurso do elemento dos Pão foi como que uma explanação lírica, se bem que expressionista, do saxofonismo de Mats Gustafsson e Ken Vandermark. O que desta associação resultou esteve na proximidade dos postulados da free music europeia, num jogo simultaneamente introspectivo e agreste, o que não é propriamente comum.

Se Sousa tem como marcas pessoais os “drones” produzidos por respiração circular, o desconcertante “slap tonguing” e os burburismos típicos do reducionismo, nesta prestação fez muito mais, mostrando uma inventividade na fraseologia característica do jazz de que não estávamos à espera. Pelo seu lado, Pinheiro explorou os contrastes entre os graves e os agudos e entre acordes cerrados e notas cautelosamente inscritas no silêncio.

O que ia acontecendo baseava-se numa profunda escuta mútua, tendo como único referente o que o outro fazia. Mas se tudo convidava a um seguidismo passivo, cada ideia de um dos músicos era, regra geral, desviado ou contradito pelo seu parceiro. Aqui está uma dupla que tem, forçosamente, de continuar. 

Rodrigo Amado Motion Trio

 

Já bem dentro da madrugada, e por isso com um “set” mais curto, também o Rodrigo Amado Motion Trio decidiu surpreender. De uma potência extrema, só igualada pelo que antes tinham feito os Sgns of the Silhouette, o arranque deu a entender que esta prestação seria análoga a outras que o grupo tem protagonizado, mas depressa as RPM diminuíram para pôr a claro as coordenadas deste projecto de Rodrigo Amado com Miguel Mira e Gabriel Ferrandini.

São elas não o free jazz que se lhes tem colado como rótulo mas, na verdade, o bop e o hard bop. Muito devido às abordagens do líder saxofonista, que é particularmente melódico e elíptico nos seus fraseios rollinsianos, e a esse sólido pilar de sustentação que é o violoncelo dedilhado de Mira, sempre a laborar à volta das fórmulas do “walking bass”, mas sempre igualmente a evitar os habituais estereótipos desse recurso. Só a bateria foi realmente livre.

Mais lento e menos volumoso, o Motion Trio quase passaria por um grupo “mainstream”. Quase: as melodias do jazz mais escolástico são lidas na pauta, enquanto as de Amado encontra-as ele no próprio processo improvisacional. Assim, um festival de um só dia que começara com uma improvisação rock terminava com uma improvisação jazz, sublinhando o trio tal circunstância com um convite aos músicos presentes na sala para participarem, de seguida, numa “jam session”.

Eram duas da manhã, hora de a reportagem da jazz.pt voltar para casa. Cansada, mas de barriga cheia…