Angrajazz, 8 de Outubro de 2013

Angrajazz

Na Ilha Terceira, jazz de primeira

texto António Branco fotografia Jorge Monjardino

Na sua 15.ª edição, o festival de Angra do Heroísmo viveu no início de outubro, contra ventos e marés, uma das melhores edições de sempre. A jazz.pt esteve lá e conta-lhe tudo.

Outubro é habitualmente o mês do jazz na ilha Terceira. Neste maravilhoso miradouro erguido das profundezas oceânicas teve lugar, entre os dias 3 e 5 de outubro, a 15.ª edição do Angrajazz – Festival Internacional de Jazz de Angra do Heroísmo. Como sempre arrumado no sentido de recriar o ambiente de um “clube de jazz”, o auditório principal do Centro Cultural e de Congressos de Angra voltou a receber um festival que este ano contou – apesar da difícil conjuntura que o País enfrenta – com um dos melhores elencos do seu historial. 

Orquestra Angrajazz

Orquestra Angrajazz 

Como é da praxe desde a sua quarta edição (2002), o evento voltou este ano a arrancar com a Orquestra Angrajazz, projeto continuado de formação desenvolvido pela associação cultural responsável pela organização do evento e que se tem afirmado como a principal “escola” de jazz da região. Constituída por músicos oriundos de várias filarmónicas da ilha – sob a direção empenhada dos seus maestros de sempre, Claus Nymark e Pedro Moreira –, a orquestra terceirense fez-se acompanhar na ocasião pelo cantor faialense (a residir no Porto) Manuel Linhares, que dois anos depois se voltou a juntar à formação.

Em mais de 10 anos de atividade é claro o progresso verificado, não só a título coletivo mas também individual, embora subsistam algumas fragilidades e problemas processuais, que certamente não serão alheios ao facto de estarmos perante músicos que vivem e trabalham numa ilha, o que não permite o contacto com outras realidades e limita oportunidades de evolução.

Com Moreira a assumir a direção e Nymark no papel de trombonista (o único!), a orquestra apresentou um programa algo conservador do ponto de vista estético, constituído por clássicos do repertório das “big bands” que tem vindo a trabalhar. Um dos problemas principais reside na falta de solistas, embora sejam de destacar neste plano as intervenções do saxofonista tenor Rui Melo, do trompetista Márcio Cota e da pianista Antonella Barletta.

O cantor, da linha “sinatraniana”, deu boa conta de si, voltando a alardear dicção competente e presença agradável na interpretação de canções sobejamente conhecidas como “How About You”, “Pennies From Heaven”, “The Shadow of Your Smile” e “Fly Me to the Moon”. A surpresa da noite aconteceu, porém, quando emergiu da orquestra o Wave Jazz Ensemble, que apresentou uma versão de “O Sol”, canção popular regional de José da Lata engalanada com roupagem jazzística.

Merecedora de palavras de apoio e de enaltecimento da perseverança que continua a revelar, já é tempo de a Orquestra Angrajazz dar o salto. Talvez esteja, por isso, na altura não só de retomar a saudável prática de convidar músicos de prestígio para tocarem com a orquestra – uma importante via para os locais poderem desenvolver as suas capacidades –, mas também de renovar repertório e de receber uma transfusão de sangue. Leia-se admitir novos elementos: o Curso Livre que acaba de arrancar, e que durará um ano, poderá ser um bom manancial. 

Carla Bley Trio

Carla Bley 

Num dos concertos mais aguardados do festival, apresentou-se, a fechar a primeira noite, o trio que reúne a lendária pianista e compositora Carla Bley, o seu companheiro e baixista Steve Swallow e o saxofonista britânico Andy Sheppard.

Nesta formação de acentuado cunho camerístico – que trouxe na bagagem o aclamado “Trios” (ECM), o mais recente resultado de uma parceria que já leva duas décadas –, Bley, mais reputada como compositora / estratega do que propriamente como instrumentista virtuosa, recentrou-se num pianismo tranquilo e preciso, que dá espaço ao tempo e tempo ao espaço. Swallow, verdadeira trave mestra, esteve absolutamente notável no desenvolvimento das suas inconfundíveis linhas melódicas, que tanto têm de rigoroso como de doce, dispensando de forma liminar a presença do elemento percussivo. O saxofonista, desdobrando-se entre o soprano (em que o prefiro) e o tenor, soou mais contido que nunca.

O trio abriu com a serenidade de “Wildlife” – recuperada de “Night-Glo” (1986) e aqui numa versão adaptada ao reduzido efetivo –, tema em que Sheppard evidenciou toda a sua bem conhecida veia melódica no saxofone soprano. A atmosfera não mudou muito em “Rut”, seguindo-se um dos pináculos da noite, a interpretação da bela e sombria “Valse Sinistre”.

O deliciosamente intitulado “The Girl Who Cried Champagne” – suíte em três partes escutada originalmente em “Sextet” (1987) – exalou forte aroma a Brasil, evocando os intemporais Jobim e Gilberto. Outros dos momentos altos da noite aconteceu em “Vashkar” – uma das composições mais conhecidas de Bley –, mas que a pianista gravou pela primeira vez em “Trios”. Tempo ainda para “Mister Misterioso”, peça na qual o trio trabalha um dos emblemas maiores do introvertido pianista cujo nome do meio era Sphere.

A vários níveis, um concerto emocionante, pleno de música cuidadosa e delicada, sem adereços nem espalhafatos. A idade não perdoa, mas Bley e Swallow ainda são enormes. 

Fred Hersch Trio

Fred Hersch 

O segundo dia do festival – o que se antevia mais forte – iniciou-se com um dos mais interessantes trios da atualidade jazzística: o liderado pelo pianista Fred Hersch, com John Hébert no contrabaixo e Eric McPherson na bateria. Com um historial clínico complexo – complicações derivadas do facto de ser portador do vírus da Sida fizeram-no estar em coma durante dois meses, no final de 2008 –, Hersch apurou ao longo dos anos uma abordagem eivada de grande sensibilidade e profundo lirismo.

Com um grande lastro referencial, é capaz de colocar ao serviço do seu piano múltiplos recursos e técnicas e fá-lo com uma fluidez impressionante, sobretudo ao nível da gestão dos tempos, sem nunca ser exibicionista ou se deixar resvalar para a auto-indulgência. Ficou exemplarmente patente o elevado grau de qualidade na comunicação e na interação que estabelece com a dupla que o acompanha e esta entre si: Hébert é um superlativo contrabaixista, garante de segurança e inventividade, e McPherson, com a sua postura relaxada mas em constante movimento, alimenta eficazmente a dinâmica da formação, geralmente com uma sobriedade inatacável.

As duas primeiras peças foram retiradas de “Whirl”, o primeiro disco que gravou após a recuperação: o tema título e “Sad Poet”, dedicatória a António Carlos Jobim, ainda que não tenham sido detetadas referências diretas ao compositor brasileiro. As linhas mais angulosas de “Dream of Monk” – complementadas com um solo espantoso de Hébert – fizeram jus à memoria do ícone do be bop, enquanto o dinamismo rítmico de “Skipping” pôs a nu métricas complexas.

Nota ainda para a belíssima leitura de “The Wind”, do pianista Russ Freeman, que introduziu “Moon & Sand” (não fazendo esquecer, porém, a fabulosa leitura a solo incluída em “Let Yourself Go”, de 1999) e para a energia de “Jackalope” – referência à criatura mítica da América do Norte, metade coelho, metade antílope. Um magnífico concerto. 

Ray Anderson’s Pocket Brass Band

Ray Anderson 

Seguiu-se a Pocket Brass Band do trombonista Ray Anderson, formação que se completa com o trompetista Lew Soloff, o sousafonista Matt Perrine e o repetente baterista Eric McPherson. Natural de Chicago – a capital do jazz nos anos 1920 – e filho de um entusiasta do dixieland, Anderson reúne um grupo que procura recriar criativamente a atmosfera garrida das “brass bands” e da festa popular que geralmente lhes estava associada.

A atuação baseou-se no seu segundo disco, “Sweet Chicago Suite”, de 2012. A suite em seis partes que constitui o núcleo central do álbum foi composta em 2001, comissariada pela Chamber Music America, e constitui uma viagem sonora à Chicago dos “roaring twenties”.

Apesar do formato reduzido, os músicos conseguiram soar quase como se de uma “big band” se tratasse, alargando a panóplia sonora através do recurso a surdinas e aos próprios corpos dos instrumentos. No plano individual destaque para as linhas sempre intensas do líder (retira do seu instrumento notáveis “growls”, roncos e uma paleta de outros sons) e para os inolvidáveis agudos de Soloff. Já Perrine revelou-se algo rígido no desenvolvimento das linhas de baixo (o seu papel assim o obrigava, abrindo espaço para as intervenções de Anderson e Soloff, mas a música pedia outro tipo de riqueza) e para o baterista, que soou cumpridor mas algo deslocado.

A abrir, “Chicago Greys”, com a sua dolência quase fúnebre, e “High School” remetendo para as peripécias hormonais da juventude. Em “Magnificent Mistifiyo”, de contornos mais livres, prestou tributo à seminal AACM, formada na Windy City em 1965. “Going to Maxwell Street” / “Get To It” recorda a movimentada feira que tinha lugar naquela rua e que animou a infância do trombonista. Realce ainda para a emocionante “Some Days”, lembrando os encontros promovidos pela PUSH (People United for Saving Humanity) organização liderada pelo Reverendo Jesse Jackson. O garrido “The Stingray Rag” começou com uma profusão de sons dispersos que desembocaram numa festa. Os músicos terminaram o concerto a tocar no meio do público, em verdadeiro clima de apoteose. 

Carlos Bica Trio Azul

Carlos Bica 

A derradeira noite do festival começou com o transnacional e longevo trio Azul de Carlos Bica, em que o reputado contrabaixista português é acompanhado pelo guitarrista alemão Frank Möbus – o seu som inconfundível é um dos vetores essenciais do grupo – e esse extraordinário pulmão rítmico que é o baterista norte-americano Jim Black.

Sem disco novo na bagagem – o mais recente é "Things About", de 2012 – o trio percorreu composições da fase mais recente da sua carreira e aproveitou a oportunidade para apresentar material novo, sempre com a abordagem melódica que lhe é tão característica e que faz do trio Azul uma formação de características muito especiais.

Apostando numa química particular amadurecida ao longo dos anos, o grupo abriu com a tranquilidade densa de “Say a Wish”, a que se seguiu o tema título do álbum anterior, “Believer”, com a sua cativante linha de contrabaixo e um desenvolvimento em crescendo que conduziu a um final vigoroso. De tempero “groovy”, “2011” mostrou Bica exímio como sempre no manejo do arco. Referências também para a enternecedora “Canção Vazia”, original do pianista João Paulo Esteves da Silva, e para a intensidade de “Pastilha Elástica”, apresentada por Möbus, que a batizou. Tempo também para a apresentação de uma peça ainda não gravada, “Jolly Jumper”. Quase a fechar, a melodia amena de “Vale”, composição que Bica escreveu para um espetáculo de Madalena Victorino.

Em grande forma, o trio deu um concerto enérgico que deixa antever que o seu bornal criativo está longe de exaurido. 

Cecile McLorin Salvant Quartet

Cecile McLorin Salvant 

Fechou o Angrajazz 2013 o quarteto da jovem cantora franco-americana Cecile McLorin Salvant, representante de um filão do jazz vocal tão caro à organização e ao público habitual do evento terceirense. Cecile, até agora pouco conhecida em Portugal, venceu em 2010 a Thelonious Monk International Jazz Vocals Competition e captou a atenção de diversas figuras do jazz, como Wynton Marsalis e Jacky Terrasson, que a convidaram para concertos e gravações.

Acolitada pelo competente pianista Aaron Diehl – com quem estabeleceu em particular uma empática relação – e pelos competentes mas mais discretos Paul Sikivie (contrabaixo) e Rodney Green (bateria), a cantora mostrou a sua completa formação jazzística e, sobretudo, que está a levar por diante um processo de processamento de referências e de criação de uma abordagem muito pessoal. Exibiu a sua natural propensão para interpretar “standards” do género, mas igualmente canções menos gravadas, fazendo uso de uma voz marcante na qual se descortinam influências de Billie Holiday (o pendor melancólico), Ella Fitzgerald (o fraseado luminoso) e Abbey Lincoln (a garra interpretativa).

Muitos dos temas interpretados fazem parte de “WomanChild”, editado já este ano, como “John Henry” – canção bem conhecida na voz e na guitarra de Woody Guthrie, dedicada ao herói folk norte-americano –, a balada – confessadamente uma das suas favoritas – “There's a Lull in My Life” e “What a Little Moonlight Can Do” (notável a forma como jogou com as palavras). Retidas na memória ficaram ainda as interpretações escorreitas de “Stepsister's Lament” (da dupla Richard Rogers e Oscar Hammerstein), “I Get a Kick Out of You” (emblema de Cole Porter) e a sentida rendição a “My Man's Gone Now” (retirada de “Porgy & Bess”).

Com uma atuação sóbria e umbilicalmente ligada à tradição, soube revisitá-la ludibriando os chavões costumeiros. Cecile McLorin Salvant acabou por se revelar a surpresa desta edição do festival, encerrando-o em bom nível.

Paralelamente, foi inaugurada no Museu de Angra do Heroísmo (Sala Dacosta) a exposição “A Festa do Jazz: 15 Anos de Angrajazz”, que reúne um conjunto de fotografias de Jorge Monjardino (autor das muitas fotos que ao longo dos anos têm ilustrado as reportagens da jazz.pt por terras da Terceira). Estará patente até dia 12 de janeiro de 2014 e merece uma visita.

Já estão inscritas no calendário as datas da décima sexta edição do festival angrense: 2, 3 e 4 de outubro de 2014.