Orquestra de Jorge Costa Pinto, 14 de Outubro de 2013

Orquestra de Jorge Costa Pinto

Cápsula do tempo

texto António Branco fotografia Rosa Reis

A orquestra liderada pelo veterano maestro Jorge Costa Pinto empreendeu uma viagem ao passado, para evocar, 50 anos depois, a criação da primeira “big band” portuguesa a tocar jazz no cinzento Portugal de então.

Jorge Costa Pinto é um histórico do jazz em Portugal. Iniciou o seu percurso em meados dos anos 40 do século passado tocando bateria em várias formações que se apresentavam nos clubes e restaurantes da baixa lisboeta, como o Arcádia e o Negresco. Homem de atividade multidimensional – baterista, pianista, compositor, arranjador, maestro, produtor e divulgador – Costa Pinto tem vindo, ao longo da sua carreira de décadas, a pisar muitos terrenos musicais, do jazz à música ligeira, passando pelas músicas sinfónica e de câmara.

O evento do passado dia 10 de outubro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa – mais do que um simples concerto, uma celebração – teve como propósito principal assinalar o 50.º aniversário da fundação da orquestra – a primeira organizada em Portugal para tocar exclusivamente jazz – e da sua aparição no programa da RTP “Jazz no Estúdio ´A´”, com produção de Manuel Jorge Veloso, em fevereiro de 1963.

Na primeira parte do concerto, a orquestra interpretou temas que na altura integravam o repertório como “La Nevada Blues”, de Gil Evans, “My Kind of Girl” (celebrizado pela parceria Sinatra & Basie) – com o primeiro convidado da noite, o cantor Kiko, em bom plano –, “Fast Company”, de Ernie Wilkins, e “Moanin´”, ícone de Art Blakey e dos seus Jazz Messengers.

Com o investigador, divulgador e produtor João Moreira dos Santos no papel de cicerone, foram visionados depoimentos contextualizadores de Luís Villas-Boas, Manuel Jorge Veloso, José Duarte e Raul Calado – que revisitaram as suas memórias desses tempos – e ainda gravações de programas da RTP resgatadas ao acervo pessoal do maestro. De outra forma, diga-se, teriam caído no esquecimento geral dada a habitual prática de gravar por cima das fitas de arquivo, o que ditava que as imagens anteriormente registadas fossem irremediavelmente atiradas para os abismos do olvido.

Coração apertado

Rão Kyao com a Orquestra de Jorge Costa Pinto 

Na segunda parte, a formação atacou o repertório que tem vindo a apresentar desde que despertou de um período de hibernação – e o maestro a decidiu revitalizar –, o que aconteceu em 2003. Escutaram-se, sobretudo, peças marcadas pela estética do jazz “west coast” da década de 1950. Destaques maiores para as leituras do eterno “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, aqui num arranjo de Bill Holman adaptado para vibrafone, tendo como solista o superlativo Jeffery Davis, e para o fulgurante “Swing House”, escrito por Gerry Mulligan para a orquestra de Stan Kenton.

Notas também para “But Not For Me” na voz de Maria Viana, e para o “crowd pleaser” “Georgia On My Mind”, cantado por Kiko. Como solistas convidados também subiram ao palco Rão Kyao (flauta) – é sempre de saudar o seu regresso a territórios jazzísticos e ainda por cima vibrando visivelmente com isso – e o saxofonista Carlos Martins. O concerto terminou em clima de festa com “Short Stop”, blues de Shorty Rogers, com solos de enfiada por parte de muitos dos músicos presentes.

Municiada por alguns dos mais distintos “jazzmen” portugueses, a orquestra cumpriu os propósitos com profissionalismo e eficácia. Entre as diversas intervenções solistas da noite destaque para as dos saxofonistas José Menezes (tenor) e Ricardo Toscano (alto), do trompetista Hugo Alves, dos trombonistas Eduardo Lála e Rui Gonçalves e do guitarrista Bruno Santos. A secção rítmica revelou competência, com o pulso firme de Nelson Cascais e o vigor de Michael Lauren.

Momento especial ocorreu quando Vítor Santos, saxofonista da orquestra em 1963, subiu ao palco. Com a voz embargada de emoção por mais do que uma vez, esta foi uma noite de memórias e coração apertado para Jorge Costa Pinto, figura decisiva de uma geração de pioneiros do jazz tocado em Portugal.