Susana Santos Silva / Torbjorn Zetterberg, 14 de Outubro de 2013

Susana Santos Silva / Torbjorn Zetterberg

Faltou transcendência

texto Pedro Tavares fotografia Nuno Martins

Com a sala da Curturgest a menos de meio, o encontro da trompetista portuguesa com o contrabaixista sueco esteve aquém das expectativas. A portuense mostrou pouca substância ainda enquanto improvisadora…

Pelos vistos, nem este Outono veraneante com noites aprazíveis em Lisboa é uma boa razão para se sair de casa. O público que acorreu à Culturgest, no passado dia 9 de Outubro, para o concerto da trompetista Susana Santos Silva com o contrabaixista Torbjorn Zetterberg não preenchia sequer meia sala do Pequeno Auditório.

A actuação surgia no seguimento da edição de “Almost Tomorrow”, o primeiro trabalho da dupla, pela Clean Feed e também de vários concertos pela Europa. Começou muito bem, com um bonito diálogo entre o trompete e o contrabaixo, com Santos Silva a soltar as primeiras notas com recurso à surdina, num fraseado tranquilo e propositadamente infantil. O que se lhe ouvia e sentia contrastava muito bem com a abordagem mais séria e agressiva de Zetterberg, que explorava os sons mais graves alternando entre o arco e o pizzicato.

Esta duplicidade foi, de resto, a tónica dominante do duo durante todo o espectáculo, com a trompetista mais melódica e o contrabaixista com um pendor exploratório, assumindo as rédeas da improvisação e mostrando-nos o seu virtuosismo. Com o desenrolar dos acontecimentos sobressaíram, porém, algumas carências: a “cumplicidade” e o “acto de transcendência” referidos pela folha de sala não estavam lá. Muitas vezes impôs-se a sensação de estarem duas pessoas a tocarem juntas e não uma com a outra. 

Sem sumo

Susana Santos Silva 

Torbjorn Zetterberg

Houve, certamente, momentos muito interessantes. Num contexto free bop, Santos Silva é excelente, como comprovou, aliás, com os Lama. Vê-se que domina o “assunto” e a sua margem de progressão é maior. Já nos terrenos da música improvisada nota-se que tem mais dificuldades. Não existe novidade na forma de entender e tocar o instrumento: o reducionismo e o “near silence” requerem algo mais do que aquilo que aparece no seu fraseado. Falta-lhe sumo e em duo isso notou-se mais porque a exposição era maior.

Já Zetterberg tem tudo o que se exige e se espera de um improvisador. A forma como tirava partido do instrumento, tocando com partes do contrabaixo de usagem improvável, exemplificou muito bem o seu enorme potencial. Em suma, foi uma prestação algo humilde e sem grande história, com excepção de alguns rasgos especiais da responsabilidade de Zetterberg.