Outono em Jazz, 15 de Outubro de 2013

Outono em Jazz

Talvez seja um festival

texto Rui Eduardo Paes fotografia Vítor Medeiros

Não se percebeu se a iniciativa da Casa da Música era um festival, um ciclo ou outra coisa qualquer, mas tinha um bom conceito de programação e incluiu alguns fantásticos concertos. Outros foram de fugir…

Festival? Ciclo? Uma mera conveniência de calendário? Não era muito claro no que consistia, de facto, o Outono em Jazz, promovido pela Casa da Música nos passados dias 11, 12 e 13 de Outubro. Não só porque aquelas duas designações foram utilizadas na comunicação, o que desde logo indefiniu a sua natureza, como pelo facto de, fosse festival, fosse ciclo ou apenas uma série de eventos coincidentes, nada ou muito pouco ter individualizado a iniciativa.

Ou seja, se o propósito era, de facto, dar início a um novo festival de jazz no Porto, a mensagem passou mal. De resto, a maior parte do público que assistiu aos concertos na Sala Suggia não se deslocou depois à Sala 2, nem parece ter-se apercebido que ali também se passava algo.

Em termos de programação, percebeu-se que havia uma linha de fundo, mais até do que na maior parte dos festivais que se realizam em Portugal e cujo conteúdo não obedece, habitualmente, a qualquer lógica curatorial. O Outono em Jazz, consistisse no que consistisse, tinha um sólido conceito: por um lado, mostrar a diversidade do jazz actual, nas suas diferentes tendências e opções estéticas, e por outro, configurar as pontes que este género musical faz com outros idiomas.

Tivemos, assim, jazz “mainstream” e improvisação dura, de índole experimental, e tivemos cruzamentos com, por exemplo, o rock, a “club music”, a bossa nova. Uma excelente ideia, portanto…

Mas se a configuração do cartaz obedeceu a um princípio e a um objectivo concretos, difícil foi entender algumas escolhas de nomes. Com Soweto Kinch prometia-se um relacionamento do jazz com o hip-hop, mas este nunca existiu realmente: o trio do saxofonista negro britânico ora tocou peças de jazz, ora entrou em situações de rap, não havendo fusão ou colagem de estilos. Além de que a limitadíssima secção rítmica constituída por dois jovens que rondariam os 17 e os 15 anos, respectivamente, não ajudou à percepção de que se tratava de uma proposta séria.

O belgo-brasileiro Gregory Houben Factory Quartet (com o pai Steve Houben ao lado do trompetista), se bem que procurasse confluências entre a facção cool do jazz e a música popular brasileira, não passava de um, ainda que tecnicamente competente, grupo de bar ou festa de casamento. A música que se ouviu era de imitação, com Chet Baker a ser copiado “ipsis verbis” pelo trompete e pelo canto, e com Paul Desmond a sobressair em cada solo de sax alto. O que estava a fazer algo com estas características num palco da Casa da Música foi incompreensível.

Para além deste senão, o Outono em Jazz pegou numa fórmula que cada vez mais, infelizmente, vemos em prática no nosso país. Em três dias, foram 10 os concertos realizados, todos de enfiada, com pausas apenas para mudar de sala ou adaptar a tecnologia e a cena a cada nova formação. Foi uma autêntica maratona que se viveu na Avenida da Boavista, para prejuízo dos últimos músicos a actuarem no alinhamento, pois o público, com o adiantar das horas, ia desistindo. Aconteceu, assim, que o mais gratificante concerto do lote, aquele que foi prestado pelo magnífico Django Bates Trio, terminou com apenas uma dezena de pessoas, ou nem isso, na assistência.

As cadeiras da Sala 2 não ajudaram a aguentar as sessões de quatro, cinco horas. As costas doíam aos mais persistentes, interferindo com o prazer que houvesse na fruição musical. Só que não estávamos em espaços de militância como a Porta-Jazz ou a Sonoscopia, e sim na Casa da Música, nobre instituição portuguesa que deveria ter outros cuidados. 

Django Bates Beloved Bird Trio

Django Bates 

Dito isto, aconteceu música fantástica no Outono em Jazz, e nesta análise do que se ouviu começo pelo que de melhor esteve em oferta. E o melhor, disse, foi o britânico Django Bates com o seu trio sueco de piano jazz. O projecto parte da interpretação de peças de Charlie Parker ou que este utilizava, da autoria de terceiros, e daí segue para originais conformes ao espírito do histórico saxofonista e ao formato da música de que foi um dos “inventores”, o bebop. Daí, aliás, o nome Beloved Bird...

Só que, como não podia deixar de ser em se tratando de Django Bates, um dos mais inventivos pianistas e compositores da actualidade, os temas e as formas de tocar eram desconstruídos e virados do avesso com uma abordagem que só não era propriamente clínica, nos seus complexos geometrismos, porque a cerebralidade de certos procedimentos tinha o contraponto de um “drive” e de uma intensidade verdadeiramente estonteantes.

O que Bates fez foi uma comprovação de que se pode ser livre dentro de parâmetros bem definidos. O que tocava era bop, sem dúvida, mas com preceitos exploratórios e de pesquisa das possibilidades que iam surgindo, fossem estas as da gramática do piano (e do contrabaixo, e da bateria) ou as proporcionadas pela própria escrita. Na sua revisão dos contributos de Parker, o músico adoptou um recurso que diz bem da sua postura: num teclado “sampler” tinha registos de piano preparado que ia ocasionalmente introduzindo nas tramas.

Fazia todo o sentido: as preparações de John Cage, talvez o mais emblemático dos autores experimentais, foram contemporâneas do bebop e de Charlie Parker. Com esta decisão, Bates deu-nos um contexto e salientou que o que estava a fazer era partir de Parker com a mesma atitude inovadora que irrompeu em várias frentes musicais na década de 1940. 

Gregory Porter

Gregory Porter 

Bem diferente é a abordagem daquele que protagonizou o outro grande, muito grande acontecimento do Outono em Jazz: Gregory Porter. Na música do recém-descoberto cantor que já fez capa na Down Beat está outro propósito relativo à história: perceber porque é que a tradição, e designadamente os patrimónios combinados do jazz e da soul, ainda fazem parte da identidade afro-americana, tal como se faz sentir no Harlem. A música de Porter é assumidamente retro, e no entanto tem uma vitalidade, uma razão de ser nos dias de hoje, que é de todo surpreendente.

O cantor de potente voz barítono vai beber ao swing dos anos 1930, e mais ao espólio de saxofonistas como Coleman Hawkins, Lester Young e Ben Webster do que propriamente a outros cantores, se bem que tenha semelhanças com Joe Williams. Depois, mistura esse caldo com a canção soul da sua época de ouro nos anos 1960 e 70 e, em particular, na confecção que dela fazia Marvin Gaye.

É certo que este mesmo Porter beneficia do revivalismo swing em decurso e que o seu é um jazz comercial destinado às massas, àqueles que não têm um especial apreço pelo jazz, mas não se trata de música de casino – é demasiado vernacular para isso, tem demasiado grão, demasiada terra e demasiada autenticidade para subsistir em Las Vegas. Para além de que é impossível ficar indiferente à sua voz, à sua extrema comunicabilidade, à sinceridade do que lhe ouvimos.

Os músicos que o acompanham não são meros figurantes nem estão propriamente a representar personagens do passado – estão de corpo inteiro, mesmo que o seu “playing” tenha referências muito directas. O saxofonista, por exemplo, remeteu-nos continuamente para Maceo Parker, o altista que trabalhava com James Brown. Se neste caso há também um regresso atrás, não é para o reproduzir, mas numa (legítima) perspectiva de continuação. 

Samuel James

Samuel James 

Outro dos momentos mais brilhantes do evento da Casa da Música foi a prestação de Samuel James, e esta ainda cavou mais fundo na direcção das raízes. Fazendo-o com um outro tipo de atitude que não o de Django Bates e o de Gregory Porter: pega nos blues acústicos rurais, os das primeiras décadas do século XX (literal e figurativamente, consoante eram versões ou temas do próprio), mas toca-os com técnicas guitarrísticas no mínimo excêntricas e que, na ocasião, lembraram muito as do vanguardista Elliott Sharp.

O resultado eram sempre blues, sem tirar nem pôr, mas executados de uma forma inesperada, com a bonita guitarra de James a ser torcida, voltada ao contrário, tocada na horizontal ou na vertical, só com o braço a ser utilizado, percutida ou o mais que se viu. Em termos de comunicação, até se foi mais longe que Porter, recuperando mesmo a dimensão trovadoresca e jogral que tinham, ao que consta, os antigos “bluesmen”. O diálogo que com ele manteve uma mulher da audiência resvalou mesmo para hilariantes segundos sentidos e promessas de encontro para depois do concerto. 

Elephant9 feat. Reine Fiske

Stale Storlokken 

Outro regresso com salto para diante foi proposto pelos noruegueses Elephant9 de Stale Storlokken com Reine Fiske como convidado especial. O grupo glosou as fórmulas do rock progressivo e psicadélico dos Sixties e dos Seventies numa música de efeitos hipnóticos em que a obsessiva repetição de motivos temperava uma abordagem de “jam” em que o factor improvisação se sobrepunha às estruturas.

Aliás, muito devido à qualidade da amplificação (o volume era demasiado elevado para uma sala com aquele tamanho e para o equipamento existente), a actuação acabou por ter um envolvimento “garage” que ainda mais sublinhou a sua vertente rock, com Fiske a partir as cordas da guitarra, a passar esta pela borda do palco ou a deixá-la em “feedback” no chão, e com Storlokken a distorcer até ao limite, e para além deste, os sons do órgão Hammond e do piano eléctrico Fender Rhodes por meio de pedais de efeitos.

O certo é que, se havia nostalgia, o psicadelismo nunca soou assim no seu tempo. Não existiu propriamente renovação ou experimentação, mas a verdade é que os Elephant9 vieram acrescentar algo à história. 

Rodrigo Amado Hurricane

Rodrigo Amado 

Também o Hurricane de Rodrigo Amado lidou de alguma maneira com reminiscências temporais. Cada vez é mais evidente que este saxofonista erradamente identificado com a “vanguarda” vem, realmente, da linhagem pós-bop / hard bop, com um discurso tonal e muito melódico derivado de Sonny Rollins. Isso esteve em particular evidência nesta prestação com DJ Ride, que habitualmente circula nos meios musicais do “clubbing”, e com o baterista free Gabriel Ferrandini.

Foi um bom concerto, mas o potencial destes Hurricane ficou por realizar. Ride preocupou-se demasiado com preencher o espaço entre Amado e Ferrandini, em vez de rasgar as integrações entre estes com a electrónica e com o “scratch”, opondo-lhes materiais e impondo interferências. As situações musicais pediam, por vezes, uma entrada mais cortante da bateria em situações de “beat”, mas isso também não se verificou.

Só o líder cumpriu as duas vertentes funcionais que o projecto parece pedir aos seus agentes: entregou-se ao “overblowing” quando as circunstâncias – as passagens muito intensas da improvisação – o exigiam e desenvolveu fraseados mais meticulosos nas alturas em que tinha abertura para tal. 

Ensembles

European Jazz Orchestra 

Nelson Cascais Decateto

Os dois grandes ensembles do Outono em Jazz tiveram diferentes posicionamentos relativamente ao peso das convenções historicamente definidas. Formada por jovens músicos de 17 países do Velho Continente, a European Jazz Orchestra iniciou a sua intervenção de modo escolástico e com pouco interesse criativo, mas cresceu com uma longa suite sobre as pretensas virtudes da União Europeia, “In Your Garden”. Uma interessante composição em que os naipes de sopros foram enriquecidos com flautas e clarinetes, dando-lhe uma feição próxima da música contemporânea. Destacou-se a voz feminina numa linha próxima de Norma Winstone.

O Nelson Cascais Decateto esteve mais solto no seguimento das premissas para formações de maior número, e neste caso também com o extra tímbrico fornecido por instrumentos como a tuba, a trompa e o clarinete baixo. A escrita do contrabaixista revela-se finalmente neste projecto em toda a sua amplitude e nesta apresentação pública foi muito bem servida pelos solos improvisados. Revelou tudo o que engrandece o melhor jazz português que se vai praticando: engenho, sensibilidade e inteligência. Falta ainda a faísca de brilhantismo… 

Para esquecer

Rob Mazurek 

Soweto Kinch

Gregory Houben

Para o fim deixo o que não gostei. E não gostei do duo de Rob Mazurek e Jeff Parker, nomes que até são de referência. Parker andou perdido numa boa parte do concerto, à procura de sons para a sua guitarra e de ideias para a improvisação. Mazurek foi derivativo, revelando-se incapaz de se focar quando não tinha o apoio de um tema. Até que recorreram às pautas, e o que estas ofereciam eram melodias dulcificadas e sensaboronas. Houve algo por ali do grupo de “pós-rock” Tortoise, de que o guitarrista fez parte e com o qual o cornetista colaborou amiúdes vezes, mas não eram os Tortoise do seu único grande disco, “Millions Now Living Will Never Die”. Uma desilusão particularmente entediante, e não foi a primeira que os mesmos deram a este crítico.

Sobre Soweto Kinch falta dizer que, quando houve jazz, o saxofone alto conseguiu arredondar o estilo mimetizado de Ornette Coleman, o que se julgava ser impossível, e que as bases “enlatadas” (tratava-se de gravações trigadas num “laptop”) dos momentos de rap até a Dr. Dre, o produtor do famigerado Eminem, fariam eriçar o cabelo. E sobre o Gregory Houben Quartet nada há que acrescentar, a não ser que é bem melhor ouvir os discos daquela música que foram gravados por quem a criou em primeira mão.

A ver se, em 2014, temos um segundo Outono em Jazz e que este seja tratado e promovido pela Casa da Música como o verdadeiro festival que poderia ou deveria ter sido desde logo… Com algumas correcções, até que está aqui uma iniciativa que fazia falta.