Barraca’Bana Fest, 21 de Outubro de 2013

Barraca’Bana Fest

E não é que abanou?

texto Bernardo Álvares fotografia Marek Matvija

Depois das sessões Até A Barraca’Bana veio o festival, com quatro concertos sem que uma só nota estivesse escrita e dois “DJ sets” de gente que está por dentro das coisas da música improvisada. A Barraca abanou mesmo no passado fim-de-semana e até houve mais intensidade do que na manifestação ali perto, em Alcântara.

Na sequência das noites Até A Barraca’Bana, aconteceu nos dias 18 e 19 de outubro no Teatro A Barraca, em Lisboa, o primeiro Barraca’Bana Fest. A proposta de cartaz foi a de conciliar na mesma noite alguns dos projetos mais interessantes da música livre feita em Portugal com um “DJ set” final em jeito de “clubbing”. A organização esteve mais uma vez a cargo do trompetista Luís Vicente, com o apoio de Marcelo dos Reis, que chamou à Barraca muitos dos músicos que por lá passaram anteriormente. 

Pedra Contida 

Era grande a expectativa para ver o primeiro concerto dos Pedra Contida (foto acima) fora das Aldeias de Xisto, onde no verão de 2013 os músicos Nuno Torres (sax alto), Angélica V Salvi (harpa), Marcelo dos Reis (guitarra), Miguel Carvalhais (eletrónica) e João Pais Filipe (bateria) estiveram em residência artística. O concerto começou com o rápido eriçar de um muro sonoro, uma massa volúvel, mas coesa, sobre a qual ia intervindo Nuno Torres num registo muito diferente daquele a que nos tem habituado nas aventuras “near-silence” do seu duo Cacto ou das colaborações com Ernesto Rodrigues.

Ao contrário do que o nome do festival previa, o grupo trabalhou no sentido de reforçar com pedra a estrutura da barraca (quais três porquinhos dedicados), mantendo a sua música bem assente, embora também com desequilíbrios muito interessantes provocados pela presença ou pela ausência da bateria de Pais Filipe.

A actuação continuou pautada por momentos de comunhão gorgolejante entre Carvalhais e Torres. A guitarra de Marcelo dos Reis esteve incansável, desdobrando-se no preenchimento de qualquer espaço livre entre ritmo, harmonia ou baixo, com uma linguagem muito própria na abordagem daquele instrumento. A harpista espanhola Angélica V Salvi contribuiu com apontamentos a fugir ao óbvio, quer a bater cimento, quer a pontuar as passagens mais leves da noite, com melodias subtis a serem escritas na pedra. O quinteto revelou-se um caso sério que deve ser acompanhado de perto. 

Pão

Pão com André Gonçalves 

Não é a primeira vez que os Pãode Pedro Sousa, Tiago Sousa e Travassos chamam terceiros para tocar ao vivo. Depois de Filipe Felizardo e Hernâni Faustino, o trio convidou André Gonçalves, que puxou o grupo electroacústico para o lado electrónico, deixando de lado o forno de lenha para fabricar pão industrialmente. O trio feito quarteto apropriou-se das paredes de pedra deixadas pelo concerto anterior, mantendo um ambiente que preencheu toda a sala.

O grupo, que tem crescido muito nestes anos, foi inventando uma música universal que, por vezes, graças ao espantoso trabalho harmónico do Pandit Tiago Sousa, invocava as ragas que Terry Riley não escreveu. Em outras alturas ouviu-se um “Bohren somewhere off jazz street” a sair com toda a sujidade que se queria do saxofone de Pedro Sousa, por entre um cenário sonoro melancólico. O saxofonista sofridamente concentrado, a pensar como máquina, foi ainda responsável por intensos momentos de respiração circular, a misturar-se com as camadas vibrantes saídas das eletrónicas de Travassos e André Gonçalves. 

Sabre 

O “DJ set” da primeira noite esteve a cargo dos Sabre de Bruno Silva e Carlos Nascimento. Apesar de assentes numa linguagem house, o mundo da música improvisada está longe de ser estranho a estes músicos. Ambos formaram o duo Osso e são dois terços dos Olive Troops SOS, tendo Bruno Silva colaborado enquanto guitarrista com inúmeros músicos da cena free, com destaque para o duo Canzana, com Pedro Sousa.

Enquanto responsáveis por manter a noite animada pós-concertos, os Sabre começaram com uma transição muito bem conseguida entre um jazz meditativo à la Impulse do início dos anos 1970 e as batidas house, provando que a música é toda feita do mesmo stardust. A Barraca acabou na primeira noite a pulsar. 

Clocks & Clouds

Clocks & Clouds 

Cerca de um ano depois, os filhos pródigos regressaram a casa. Os Clocks & Clouds nasceram de um encontro dos músicos Luís Vicente (trompete), Rodrigo Pinheiro (piano), Hernâni Faustino (contrabaixo) e Marco Franco (bateria) numa edição anterior de Até A Barraca’Bana. Sem se assumir como o líder hierárquico do quarteto, Vicente foi abrindo oportunidades à secção rítmica de mostrar as suas potencialidades. Foi com muito estilo que o trompetista jogou com os espaços livres, qual arquitecto sonoro.

Pinheiro, que tem elevado a fasquia da criatividade na improvisação, ainda conseguiu surpreender assumindo com mestria as margens entre harmonia e melodia. Hernâni Faustino trouxe consigo a bagagem das novas tendências do free jazz contemporâneo, que aplicou sem hesitação, tornando-se numa peça-chave na categorização do som do quarteto.

Músico multifacetado com inúmeros projectos e participações, do jazz mais “mainstream” aos experimentalismos mais abstractos, passando pelo rock, nesta formação Marco Franco explorou timbricamente as possibilidades do seu “set” reduzido de bateria. Um concerto a pedir (e já a cheirar a) uma gravação. 

Rodrigo Amado Motion Trio

Rodrigo Amado Motion Trio 

O Motion Trio de Rodrigo Amado veio, viu e abanou. O segundo concerto da noite mostrou um Motion Trio com a identidade cimentada numa linguagem muito própria, um free bop macho e fervilhante. Para tal, muito contribuiu a hiperactividade da bateria do pistoleiro mais rápido do faroeste, Gabriel Ferrandini. A escola do dedilhar de Miguel Mira, no violoncelo, parece não ter nenhuma influência direta, como se sempre nos tivessem escondido que é assim que um baixo deve soar.

Já muito se escreveu sobre Rodrigo Amado, um dos mais consagrados “jazzmen” da Europa que soa a América. É, no entanto, importante destacar que sobre o Tejo sentiu-se mais o soprar de Amado do que o buzinão dos autocarros da CGTP no mesmo dia. 

Jari Marjamäki 

A tarefa de “clubbing” no segundo dia calhou a Jari Marjamäki, um activo DJ finlandês radicado em Lisboa. Para além da música de dança, Jari iniciou recentemente a programação do ciclo de concertos UNLOAD e tem integrado formações de grande interesse, como o duo com Luís Vicente ou os Golden Strobes, com Luís Lopes.

Infelizmente, a sala era ingrata para os DJs, com o público resistente a dispersar-se para as varandas de fumadores, mas o trabalho de Marjamäki permitiu manter viva até mais tarde a noite de boa música.